Refugiados são bem-vindos: o dia em que a humanidade venceu o ódio

Fátima Lacerda

13 de agosto de 2015 | 16h58

O número recorde de refugiados que, diariamente, chega na Alemanha vem dominando os debates nas mídias, nas redes sociais e nos debates políticos. Especialmente nas redes sociais, na maioria das vezes em grupos fechados, pessoas que “finalmente” conseguiram um canal para destilar todo o seu racismo e fazê-lo para onde a corda arrebenta mais fácil. Pro lado mais fraco.

Refugiado bom, Refugiado ruim

No meio tempo em que até o Presidente da República pleiteou por “mais humanidade” e apelou para “a responsabilidade histórica” do país, políticos do partido de Merkel, o CDU, que de eleitores mais conservadores, preferem fazer vista grossa a um debate, que devido a situação global, é especialmente invevitável no país fincado na Europa Central e que teima em hesitar na Lei que regulariza e coordena as imigrações, tanto no âmbito econômico quanto humanitário.

Angela Merkel se esquiva, mais uma vez, de um posicionamento de tolerância zero com manifestações que são, inegavelmente, de cunho racista. O colunista e cyber-crítico Sascha Lobo, em artigo no portal Spiegel Online, exigiu “dar nome aos bois” e convocou “uma revolução da sociedade civil”. “Vamos denominar esses grupos nas redes sociais, de terroristas!”, instigou.

O site Buzzfeed “pescou” e divulgou alguns comentários desses grupos fechados. Num deles, os membros se revezam numa espécie de “ronda”. “Tem um refugiado de jeans e camisa preta zanzando na rua. Vou averiguar”, diz o Post. Os membros alegando que não são nazistas, mas que “se sentem obrigados a proteger suas cidades”. O outro usuário, escreveu: “Reabram os Campos de Concentração!”

Os refugiados, difamados como “refugiados econômicos” são a parte autal do leão da linha racista, mas não são os únicos: militantes de esquerda, autônomos (que questionam o sistema político como um todo) e estrangeiros em geral, também são alvo de um clima cada vez mais hostil e que se espalha de forma literalmente incendiosa pelo país e desse vez nao dá pra “justificar” o perfil dos racistas com “baixo nível escolar” ou “baixo nível social”. A hostilidade se alastrou por todas as camadas da socieda. No momento, é com os refugiados que grupos criminosos e racistas pegam carona na mídia e com isso, aumentam o grau de conhecimento de seus grupos e angariam simpatizantes, se tornando cada vez mais fortes e mais bem articulados. Também fora das redes.

Eu não sou nazista, mas….” diz um grupo fechado no Facebook. Esse grupo espelha a quebra de tabu que vivemos no discurso quando se trata de refugiados, muçulmanos, estrangeiros, ciganos da Albânia. Enquanto antes da Alemanha e outros países da UE sentirem os efeitos dos conflitos nas chamadas “regiões de crise” e de sua política de imigração na fronteira externa, as manifestações de racismo eram veladas e tinham um foco. Na contemporaneidade de uma União Europeia que virou o destino geográfico de milhões de refugiados vindos da Líbia, Síria, Eritreia e com o fato dos refugiados dos países Bálcãs, com a Bósnia, a Macedônia e a Sérvia não serão reconhecidos como refugiados políticos, o debate e o fato em si, atinge uma dimensão até então, desconhecida. Focando nesse grupo dos países Bálcãs, por exemplo, a mídia, nessa semana, faz um jogo sórdido de múltipla escolha com entrevistas de membros de vários partidos, colhendo depoimentos de quem é contra e quem a favor instigando a polêmica e desestruturando a essência do problema que não é a origem, mas o motivo da fuga do país de origem.

A responsabilidade da mídia

Já há muito tempo, a discussão concernente aos refugiados virou um debate que mistura alhos com bugalhos e por isso, é de caráter perigoso. Quando se começa a nadar na polêmica “Bom refugiado” (aquele que realmente sofre perseguição política ou foge da guerra em seu país de origem) ou “refugiado ruim” que é aquele que “vem para a Alemanha para usufruir do seu status econômico”, perde-se o foco do que realmente conta: Que o país de economia mais robusta da zona do euro tem a responsabilidade histórica e de humanidade em receber esses refugiados e estruturar as repartições em âmbitos regionais e municipais para a tarefa de Hércules. Se isso até agora não aconteceu, é porque durante muitos anos, faltou a vontade política para tomar as providências para evitar a situação calamitosa dos municípios.

Em Berlim, onde rege um calor infernal há 3 semanas, a situação é das piores possíveis. Refugiados dormem ao relento e sem quaisquer condições de higiene ao redor da repartição, onde receberão seus documentos e serão encaminhados para abrigos de refugiados. Nesta semana só foi evitado um estado de calamidade, incluindo falta de água, suprimentos para famílias com crianças pequenas, devido a imensa solidariedade dos berlinenses que se uniram para minimizar o fracasso das repartições.

bus-erlangen-fluechtlinge-durchsage.jpg© Sven Latteyer

Um simples ato

Um motorista de ônibus da cidade de Erlangen, sul do país, estava carregado de transportar 15 refugiados para o abrigo. Sven Latteyer se tornou o herói da mídia por um dia.

“Eu tenho uma mensagem importante para todo o mundo”, diz quando pegou o microfone do ônibus e, usando o seu inglês rudimentar, mandou: “Eu tenho um aviso importante para pessoas de todo o mundo. Eu quero dar-lhes boas vindas. Bem vindo à Alemanha, bem-vindos ao meu país e tenham um bom dia!

Jamais Sven poderia imaginar, que tal frase obtivesse tal simbologia política, num país que se rebela com os refugiados chegantes e onde a frase “Refugees Welcome” nas passeatas parece uma Fata Morgana, frente ao terrorismo que grupos racistas e nazistas executam nas redes sociais, que acabam funcionando como um preâmbulo do ato a ser concluído em frente ou aos redores dos abrigos.

Sven se transformou numa voz de um outro país, que também é a Alemanha e que apoia e vê como necessária a ajuda para os refugiados por uma questão de humanidade.

A emoção tomou conta de nós, por termos um momento de certeza de que nem tudo está perdido. Existem os nazistas fazendo terror em frente aos abrigos de refugiados, mas existem voluntários trabalhando sobre um sol de 37 graus em Berlim para dar o mínimo de assistência a quem espera até uma semana para seu número ser chamado, ser registrado e só assim, obter abrigo.

https://www.youtube.com/watch?v=chs1SY9J4FM

Nem mesmo Klaus Kleber, o calejado âncora do principal noticiário da rede aberta ZDF, conseguiu conter a emoção. Lutando com as lágrimas depois de divulgar o ocorrido, ele concluiu: “Às vezes as coisas são tão simples”.

A partir de hoje, Sven não é “só” o motorista mais famoso da Alemanha, mas é o cara, que falou o que há tempos estava entalado na garganta: “Refugiados são bem vindos!”.

https://www.youtube.com/watch?v=5VRaFswFgk0

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