Quando Berlim se torna um refúgio…

Fátima Lacerda

04 de junho de 2015 | 06h30

Em artigo publicado hoje na imprensa brasileira, fala-se de mais um carioca que foi vítima de facadas. As matérias que divulgam mortes e facadas por causa de uma bicicleta, de um celular, tem sido constantes na imprensa carioca.

Na Praça Paris, no centro da cidade, ou na Lagoa Rodrigo de Freitas perto do Corte do Cantagalo, no Humaitá, no Aterro do Flamengo,  Rio é uma cidade à mercê dos bandidos e uma cidade campeã em queixas policiais que não resultam em nada. A impunidade é assegurada, a não ser que os pais do bandido decidam por um pouco de justiça e denunciem o próprio filho. 

A falta cidadania

A gravidade da situação de segurança do RJ já chegou a tal ponto que andar de bicicleta, é correr perigo de vida. Você não sabe se volta pra casa vivo.

Natália Deskow Lacombe, figurinista de 27 anos, é mais nova vítima do caos em que a cidade se encontra. Ela foi atacada por um grupo homofóbico no bairro da Glória. Dias depois, foi esfaqueada não “somente” durante o roubo do celular novo, que teve roubado quando tirou do bolso para atenter uma chamada, mas pelo seu look, pelas suas tatuagens. De quebra, os assaltantes, bem abaixo de 18 anos, a chamaram de gay.

A reportagem divulga que Natália irá “fazer um mestrado em Berlim”, uma cidade que é essencialmente gay e que serve de abrigo para todos os rejeitados por outras sociedades pelos mais diversos motivos.

Ser gay em Berlim não é novidade e nem algo que chame atenção no metrô ou em qualquer outro lugar. Mesmo que a chanceler Angela Merkel, temendo os seus eleitores mais dogmáticos do partido CDU, ainda relute em aprovar o casamento gay. Na Alemanha é vigente, aind,a a chamada “União oficial entre pessoas do mesmo sexo”, que em termos jurídicos muito difere do status oferecido pelo casament. Exatamente essa igualdade jurídica com o casamento heterosexual é que Merkel teme em aprovar. Seria a quebra de um longo tabu: o casamento heterosexual goza de especial protecao pela Constituição, assim a argumentação dos membros do partido.

Novidade em Berlim é ser heterossexual. Andar descalço, de calca jenas rasgada, não é novidade e, no verão, faz parte do cenário urbano. Freiheit, a liberdade do ser e estar é o que as pessoas que chegam em Berlim, anseiam. Mesmo 25 anos depois da queda do muro e sendo bem diferente do “Vilarejo” Berlim Ocidental” ainda oferece a tal cobiçada Freiheit e fascina e instiga por isso. Veja que eu escrevi: “oferece”, disponibiliza, mas essa mesma Freiheit tem que ser mais do que somente administrada, ela tem que ser defendida, é preciso ficar esperto. Sempre. Mesmo porque, vai ter sempre um alemão encrenqueiro, racista ou frustrado com própria vida ou uma mistura de tudo isso,  que vai achar que você não deve estar onde está, nem morando onde mora e vai expressar isso, por exemplo, furando frequentemente os pneus da sua bicicleta nos domingos à noite para que você, na segunda-feira, apressado para um compromisso, se depare com o pneu furado e todo o problema que isso resulta, ou retirando o seu nome da caixa dos correios, que fica na entrada dos edifícios, ou reclamando de você para admnistradora porque você deixou aberta a porta de passagem pro jardim ou então como aconteceu com o mineiro Luiz. O vizinho do apartamento ao lado achou que a máquina de lavar do apartamento do brasuca estava fazendo muito barulho. Ao invés de resolver o problema como duas pessoas adultas e falar diretamente com Luiz, o vizinho escreveu uma carta reclamando diretamente à administradora, que, por sua vez, escreveu pro Luiz o pedindo providências causando uma mistura de constragimento e supresa desagradável e inesperada, o que é mais agravante.

O caso mais inusitado e mais engraçado de todos que eu conheço, é do meu amigo João Ricardo Barros de Oliveira, músico, escultor de metais que ele acha no lixo e português de Viana do Castelo e muito famoso em seu país. Durante seus 10 anos de residência em Berlim, ele tinha uma linda bicicleta holandesa e ainda das safras mais antigas. Seu vizinho do térreo vivia em picuinha com o português e frequentemente furava o pneu de sua bicicleta. Quem já teve uma bicicleta holandesa sabe do trabalho imenso que é tirar a roda gigante (!) para trocar a câmara. Num momento, ao meu ver, de genialidade e deliciosa resistência, João pegou o pneu furado e colocou na caixa de correio do tal vizinho de forma que todos os outros moradores pudessem vislumbrar seu feito maldoso. Vale lembrar que as caixas de correio em Berlim são muito estreitas. O cenário da câmara se “vomitando” pra fora da caixa de correios é até hoje vivo na minha retina e me traz sempre boas gargalhas. Depois desse ato de resistência, João nunca mais teve sua bicicleta atacada. A picuinha de anos, terminou ali. Exepcionalmente o empreendimento foi bem sucedido sem a necessidade do domínio da língua de Schiller e Goethe. instrumento absolutamente necessário para todos que decidem viver em solos prussianos e queiram enfrentar os pepinos diários com dignidade, sem complexo de vira-lata e de igual pra igual. Num país como a Alemanha, a língua é um fator imprescindível, digo, o único caminho, de integração social e cultural. Com dinheiro, marido rico e com roupas de grife você compra a tolerância no mundo todo, mas a língua, com suas mensagens culturais incluídas na semântica te faz entender como pensam e como sentem os alemães.  Não há instrumento mais infalível para compreender essa sociedade e mergulhar nela. Sem medo.

Liberdade, de grátis e pra todo o sempre, não tem. Nem mesmo em Berlim. Quem insiste nesse premissa, terá que aprender uma dura lição. Mesmo porque, a certeza da impunidade regente no Brasil, não existe nas terras daqui. A punição, ela vem – no melhor estilo prussiano – a cavalo: através das leis regentes ou (e isso bem mais frequentemente) através dos códigos de éticas regentes, mas que nunca foram escritos. Mas todos sabem de sua força implacável.

Freiheit – As duas faces

Muitas pessoas procuram em Berlim a liberdade, seja política, cultural, sexual que não tiveram nos seus países e/ou nas suas cidades de origem. Ao contrário do uso na imprensa brasileira que coloca Alemanha e Berlim no mesmo nível, o quadro é outro. Quando eu cheguei em Berlim, ouvia dizer “Berlim não é Alemanha”. Depois de um choque de semanas, eu comecei a entender o porque dessa percepção. A discrepância entre Berlim e outras cidades alemães amenizou com a unificação e o processo de Globalização que arrebatou as sociedades modernas, entretanto, até mesmo para alemães ainda há uma grande diferença. Achim, meu amigo proveniente da cidade de Konstanz na região da Baviera, se mudou há 7 meses para Berlim e se encontra no que eu chamo de “fase de descoberta e deslumbre”. Engeheiro de som de bandas famosas, já beirando os 50, os olhos dele brilham como o de um menino sobre o bar na Rua Potsdamer Str, que  “esconde” um cinema, dentro do qual você pode fumar e beber enquanto assiste aos filmes. Fica todo mundo ali num clima de sala de estar. Ou então quando comenta do Café que ao mesmo tempo é uma lavanderia no bairro leste de Prenzlauer Berg. Par quem não tem máquina de lavar em casa (e isso em Berlim é bem mais comum do que se pensa) vai à uma café e não fica condenado à solidão. Nesse mesmo café, tem outras pessoas “na mesma situação”. Cafés como ponto social e que oferecem possibilidades de conhecer pessoas numa cidade onde entre dois habitantes, um deles mora sozinho. Isso também é Berlim. Você pode ter o total sossego e viver no ostracismo e pode querer estar rodeado de gente o tempo todo para tentar escapar., mas a solidão está em toda a parte. É preciso uma grande habilidade de organização para driblá-la sempre que ela bate na sua porta Semper quando ela for indesejada. Se existe um lugar perfeito para você conhecer os dois lados mais antagônicos da solidão, no seu aspecto o sublime e monstruoso, esse lugar é Berlim.

Administrando a Freiheit

São muitos os exemplos de artistas, exóticos, egocêntricos e de todos os tipos de rejeitados que chegam a Berlim e ficam deslumbrados com a liberdade de expressão existente nos solos daqui. Mas essa Freiheit pode ser perigosa a partir do momento que você a toma como uma lei da natureza, algo que estará ali presente mesmo que você não mexa um dedo pra isso.

Um lado da moeda é o cenário de artistas que aqui chegam e se acostumam tanto com a Freiheit, que acabem perdendo o foco anterior do porque vieram para Berlim. Inicia-se um processo de “administração da conquista”. A inspiração e a energia iniciais que o trouxeram para cá, murcha. O resultado é o cozinhar em banho-maria uma situação estabelecida que tem como consequência o murchar da inspiração. O resultado acaba sendo o permanecer em Berlim por acomodação.

O outro lado…

Berlim oferece-te a liberdade, mas exige que você saiba lidar com ela e isso requer foco, visão e discernimento e uma bola de sorte. Tudo fora disso, acaba se tornando uma existência como outra qualquer em qualquer outro lugar. Com o passar do tempo, a essência daquilo que te trouxe pra Berlim, se perde dentro de um âmbito que se tornou meramente administrativo para garantir o status quo.

O que se vê são brasileiros brincando de ativistas políticos duramente contra ou a favor do PT no Facebook praticando como se fosse uma religião , uma doutrina enquanto o domínio da língua alemã (e com ele o intrínseco fator de integração na sociedade do melhor estilo Minha Pátria é Minha Língua) foi e ainda continua sendo subestimado. Acabe-se não saindo do Brasil e não, de fato, chegando culturalmente e mentalmente na Alemanha. Fica-se no meio do caminho no mar da complexidade que é o processo de imigração. Mesmo numa cidade como Berlim o Ser, no âmbito mais existencialista como também definiu David Bowie em sua passagem pela cidade nos anos 70, não é suficiente, não a longo prazo. É preciso praticá-lo conscientemente, senão o tiro sai pela culatra. E não adianta bancar o brasileiro gente-boa, flexível e espontâneo e sempre alegre. Isso pode funcionar no balcão do bar de Caipirinha numa festa de rua durante o verão . No dia a dia, isso não funciona. Espero sinceramente, que, longe do solo de impunidade que é o Rio de Janeiro, Natália tenha sorte e o foco suficiente encontrar o que procura em Berlim.

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