Quando você sabe que o verão chegou em Berlim?

Fátima Lacerda

04 de julho de 2015 | 14h34

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Quando ir aos lagos de água doce e enfrentear a massa humana procurando se refrescar, significa um exercício mór de tolerância para com todos os segmentos da sociedade berlinense, em toda a sua diversidade.

Quando ao descer do S-Bahn (trem que vai por cima) na estação Schlachtensee (O lago das batalhas), uma multidão sai junto com você com o mesmo objetivo. A disputa pelo melhor lugar é acirrada. É preciso marcar território!

Quando a Estátua da Vitória reina especialmente austera e apaixonante sobre as luzes das madrugadas quentes.

Quando os trilhos de trens começam a “pular e causar deslizamentos e transtorno, impossibilitando a passagem dos seguintes.

Quando a mídia divulga que no vagão do trem da Ferrovia Federal, a DB, o ar condicionado negou fogo outra vez e que aos passageiros nem mesmo água mineral foi oferecida.

Quando especialmente para o show  de Helene Fischer (uma Shakira germânica com bem menos apelo sexual) ,que acontece neste sábado, os valores da água mineral nas barracas foram reduzidos devido ao calor que garante que hoje é o dia mais quente do ano.

Quando o meteorologista da TV aberta  já divulga, gemendo, o calor que esta por vir e “prepara o espírito” dos telespectadores.

Quando os moradores do prédio em frente ao meu começam a ocupar o espaço físico do telhado, fazendo piqueniques, tomando banho de sol e fazendo perigosíssimos passeios a pé e curtindo a skyline berlinense.

Quando no prédio vizinho ao meu, ouve-se, tarde da noite, as louças da cozinhas batendo umas nas outras. Todo mundo fica na cozinha, ninguém consegue dormir. Uma sinfonia de pratos e talheres se espalha por todo o terreno vizinho.

Quando os naturalistas de plantão começam a andar descalços pelas ruas (Não se torture em pensar se ela/ele, vão lavar os pés antes de dormir. Isso não é da nossa conta, mas confesso que também eu já quebrei minhas pestanas muito sobre esse assunto).

Quando o pôr-do-sol no meu bairro fica assim:

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Quando os moradores de andar de térreo ocupam espaço em suas janelas, seja para navegar no grande mundo virtual com um Tablet minúsculo, para ouvir musica bem alto, para fumar ou simplesmente para sair do ostracismo causado por 8 meses de frio.

Quando o mercado de comida asiática fica “bombando” e os alemães ficam em êxtase com a “naturalidade e simplicidade”, digo, com o “aspecto genuíno” de ter que sentar no chão, ter o fumaceiro dos assados no nariz e filas intermináveis. Em tempos de menos obrigatoriedade do político correto, eu usaria a expressão, Programa de Índio, mas não encaixa. Mesmo porque, estar com os donos da Terra Brasilis , isso sim, seria um programão!

Quando casais se encontram nas tardes de domingo à beira do Rio Spree para dançar tango, coladinho. Ver e serem vists.

Quando Waltraud, a minha amiga bióloga liga reclamando sobre o absurdo” que é, os nadadores profissionais ocuparem todas as faixas da piscina do Estádio Olímpico e que os amadores ficam com o que sobre de espaço.

Quando Gilse me liga no final das tardes de domingo para horas de acirradas partidas de pingue-pongue.

Quando os lagos de Berlim se mostram uma somatório cultural de extraterrestres.

Quando Tamara, imigrante da Ucrânia e fã incondicional de Wladimir Putin “reside” na grama do lago de nudismo Halensee, naquele mesmo em que os solitários gozam de seu único vínculo social,  já que para outros mecanismos de inclusão social, o dinheiro não é suficiente. Durante os meses quentes, elas possuem uma plataforma. Nos meses de frio elas ficam invisíveis.

Quando os jovens albaneses ficam na  escolha atrás de alguma árvore do Halensee para vislumbrar os praticantes da “Cultura Livre do Corpo”, (FKK, na silga em alemão), que na Alemanha consta como atitude de liberdade. Para quem foi socializado em solos cariocas é difícil entender o fenômeno do nudismo na Europa. Tirar a roupa, pode ser uma postura de protesto, como na ex-Alemanha comunista, um ato de liberdade, de ousadia ou simplesmente de sar o luxo de estar nu por algumas semanas. O manequim, a altura, a idade…nada disso importa.

Quando os ônibus Hop on- Hop off passam, initerruptamente pela vértebra governamental de Berlim, independentemente de quantas pessoas estão no ônibus, que sai mesmo com um só  passageiro.

Quando num dia que o termômetro exibe 39 graus, como hoje (04), e o centro turístico de Potsdamer Platz parece uma cidade fantasma, perfeita para filmes de suspense no melhor estilo cronenberguiano.

Quando o dono da minha sorveteria preferida explica o fluxo dos clientes nos dias de fornalha: “Durante o dia o pessoal some. À noite eles saem de casa e se forma uma fila gigantesca que dobra até a esquina”, diz amuado.

Quando David, meu vizinho, mantem fechadas todas as janelas do seu apê durante o dia enquanto eu, fazendo tudo errado, não consigo me desvencilhar da prática carioca de escancarar qualquer porta ou janela que me aparece pela frente quando a temperatura massacra. São resquícios da minha socialização carioca ou eu simplesmente tem um fetiche por portas e janelas abertas.

Quando a saudade da praia, do braço de mar e resquícios de areia na pele, aperta muito, João, nadador, tão rato e praia quanto eu,  me redime com fotos do amanhecer praiano de inúmeras perspectivas da cidade maravilhosa.

Quando os jornais pipocam com artigos divulgando “os melhores lagos de Berlim”, para os desespero dos verdadeiros naturistas, já que depois disso, é só festa, barulho, bebida e lixo.

Quando espanhóis invadem e exercem um domínio linguístico irritante. No metrô. No supermercado. Na Night.

Quando os grandes grupos de italianos se exibem nos asfaltos da cidade e famílias abastadas preenchem os cobiçados lugares dos restaurantes de luxo da capital.

Quando turistas perdidos, abrem seus mapas da cidade enquanto plantados, bloqueiam as ciclovias, causam transtorno e, de quebra, correm perigo de vida. Os ciclistas que usam capacete são os mais fazem manobras perigosas, assim diz a minha experiência empírica.

Quando a cúpula do parlamento alemão, o Reichstag é interditada devido ao calor demasiado.

Quando crianças são liberadas das aulas com a palavra mágica “Hitzefrei” a partir do momento em que a temperatura medida no pátio, alcança a marca de 28 graus. As escolas decidem operativamente, mas o Senado de Berlim, da área de ensino, permite essa medida. Se no Rio de Janeiro isso prevalecesse, seria impossível terminar o ano letivo.

Quando o Romualdo, o papagaio buzina da minha bicicleta, fica mais mole do que pingo de leite e quase buzina sozinho.

Quando andar de bicicleta sem sapatos é um delírio sensorial para o espaço entre os dedos do pé quando arrematam uma brisa.

Quando as noites tem céu de Brigadeiro.

Quando somente no inicio da madrugada berlinenses estão dispostos em a deixar os parques e as áreas verdes e irem pra casa.

Quando os berlinenses curtem o “Beach Feeling” sentados numa cadeira de praia a, sob um sol a pino à beira do Rio Spree (rio que atravessa Berlim) sem ter a chance e vontade) de dar um mergulho. Outros países, outros costumes!

Quando você entra numa loja ansiando por um suco gelado e a funcionária te diz com uma compaixo de nível Ground Zero: “A geladeira está estragada.” Se você pergunta se já tem muãito tempo, a resposta em tom lacônico e livre de qualquer compaixão:” Todo o verão é assim” (Subtexto: Isso não é problema meu. Não sou eu que vou beber o líquido quente).

Quando você tem que andar de bicicleta com os lábios presos uns nos outros senão moscas abusadas irão,  fazer da  tua traqueia, um tobogã.

Quando a imprensa faz uso do que o jargão denomina de Buraco do verão” (Sommerloch) caracterizado por noticias insignificantes para “encher” os jornais já que no período de recesso do parlamento, as notícias realmente relevantes, se tornam raras.

Quando os ânimos ficam alterados e qualquer motivo é pra entrar numa briga.

Quando esquecer os óculos escuros, pode estragar teu dia ou te fazer voltar, subir pelo menos 4 lances de escada ingrime para buscá-lo, esquecido lá no fundo da gaveta do armário.

Quando você vê homens e mulheres de sandália aberta com meia, que de acordo com os relatos é “para evitar o chulé”

Quando a mulher usa um cachecol quando o termômetro aponta 36 graus ou a jovem mulher aparece de botas até os joelhos.

Quando o inverno parece algo que nunca existiu e que nunca mais voltar.

Quando bombam as apostas quanto tempo o calor das Arábias vai durar. Não se sabe. Mas nesse fim de semana, o calor mora aqui.

Quando os meteorologistas disputam que terá acertado qual será o dia mais quente do ano. Por enquanto, esse dia e hoje. Berlim 40 graus ainda não teve, num verão que iniciou somente nessa semana, Hoje vamos sendo massacrados com 38 graus. Calor seco. A pele infarta e não ha água que mate a sede. E preciso procurar os isotônicos!!!

Quando emissoras de radio vão para Lagos e piscinas em busca de exóticos e encontram o personal trainer carioca que há 8 anos vive em Berlim  e delineia para os ouvintes da Radio Berlin todas as suas associações do Brasil e ainda faz uma aposta com os colegas de estúdio e com uma ouvinte que está na linha, se o brasileiro estaria nu ou não, à beira do lago X. Todos apostaram que não, “nas prais brasileiras não e permitido ficar nu, deduziu a ouvinte. Todos erraram. Hahaha!

Em “Marcianos invadem a terra”, Renato (Russo) diria;

E o Carinha do rádio não que calar a boca

E quer o meu dinheiro

E as minhas opiniões

Num encontro nesta semana com uma cineasta carioca que já visitou Berlim 16 vezes, ela ousou:” Imagina se a temperatura fosse assim o ano todo?! O mundo inteiro iria vir morar em Berlim!”

O Ike e a Paula conhecem a Berlim durante a Berlinale. João, do inicio da primavera. Re(gina) cum “verão de araque”, Alfonso conheceu o “inverno interminável”.

Cada cidade seu tempo? Em Berlim. cada estação uma cidade com um clima different.

Quem não viu o Rio Spree congelado, não conhece Berlim.

Quem não andou de bicicleta no verão e não involuntariamente engoliu mosca, também não.

Quem não viu deslumbre das folhas vermelhas e douradas e curtiu longos passeios a pé no outono, muito menos.