Queda do Muro de Berlim e um ato de heroísmo de um soldado controlador de fronteira

Fátima Lacerda

19 Novembro 2018 | 06h10

Os soldados da Policia Popular (Volkspolizei) assim como os paus-mandados da policia secreta, a STASI, eram socializados, sofriam lavagem cerebral já desde a associação de jovens pioneiros, a FDJ para servir a pátria. Seus doutrinadores iam as escolas recrutar alunos e alunas para “servir a causa socialista”. Defender a fronteira e, com ela, a garantir a perpetuação do sistema e da soberania era o que no alemão chama de Lebensaufgabe, tarefa de toda uma vida. Mais do que isso. Soldados atuantes na proteção da fronteira gozavam de reconhecimento social, mesmo que isso não se espelhasse na folha de pagamento, mas sim no orgulho das famílias e em chances de ascensão dentro do aparato burocrático do sistema.

Acaso

Como em várias etapas da história da humanidade, também no contexto da queda do Muro de Berlim, o acaso teve seu papel, uma papel-chave e um protagonista surpreendente.

Era um período de imensa crise do governo comunista, a imprensa do lado ocidental mantinha pautas diárias e um clima de casa caindo pairava no céu sobre Berlim. A penúltima tentativa de salvar o sistema foi a troca de Erich Honecker por Egon Krenz, um pau mandado, aquele que é contratado pra fazer o serviço podre, mesmo porque Honecker estava fincado na lembrança dos alemães como o “Arquiteto do Muro”. Toda a logística do Muro construído “para durar 100 anos” saiu da escrivaninha dele.

Na altura do campeonato, outubro e novembro de 1989 os alemães já ocupavam as ruas e as igrejas luteranas que eram lugar de proteção contra a força policial tirana. Mesmo se movimentando a paisana nas igrejas, a polícia secreta não se atrevia em atacar com força policial, mas todos os reconheciam entre os bancos e pilastras das igrejas. Das minhas conversas com vários expoentes do movimento de oposição nascido no bairro leste de Prenzlauer Berg, ouvi que todos sabiam onde a policia da Stasi estava, onde quer que isso se desse: na frente do portão da escola, do prédio, no local de trabalho enfronhado entre os colegas. Ser membro da STASI era o melhor cargo que podia se angariar na antiga Alemanha Oriental. Por isso, a história do herói do dia 09/11 é tão inusitada e tambem, um produto do acaso e seus desdobramentos naquela noite que mudaria a Ordem Mundial então regente.

A dinâmica dos fatos

O porta-voz do Politbuero, Günter Schabowski entrou pela centésima vez na coletiva de imprensa que era sempre um enfadonho monólogo. Porem nas semanas de outubro e novembro, com as demonstrações de segundas-feiras em Leipzig e Berlim, a cobra começou a fumar. Naquela quinta-feira dia 09/11/89 já no finalzinho da coletiva o pau-mandado do Politbuero que achava que iria acalmar os ânimos “oferecendo” saída da Alemanha Oriemtal para o Ocidente sem necessidade de requerimentomde visto e todo o tramite burocrático relacionado a ele, incluindo o terror psicológico durante o procedimento de requerimento de visto. Muitos foram parar na cadeira somente por preencher um formulário de requerimento.

O jornalista italiano Riccardo Ehrmann, perguntou: “Essa medida entra em vigor a partir de quando?”. Enquanto examinava o outro lado do bilhete que tinha nas mãos, ele, quase num En passant, disse a frase que levaria a queda do Muro de Berlim, ainda naquela noite: Pelo que eu sei, essa medida entra em vigor imediatamente, sem demora. Essa informação não tinha sido passada desta forma. Um dos poucos jornalistas para qual a ficha já havia caído e que prontamente entendera as consequência da revelação que acabara de ser feita, indagou: “O que será agora do Muro de Berlim?”. Com ironia na voz de quem não está preparado e está  sendo atropelado pela imprevisível dinâmica da história, o porta-voz, desconversou.

Com a bomba que o então porta-voz soltou, os berlinenses do lado leste e oeste começaram a se dirigir para os pontos de controle de fronteira, os Checkpoints. Um dos mais emblemáticos era o da ponte Bornholmer Strasse. Era uma bela noite de fim de outono de uma quinta-feira e o relógio já marcava acima das 19 horas. Quando a multidão foi se formando, os soldados de plantão nos pontos de controle de fronteira, ou seja, aqueles que foram doutrinados para proteger a fronteira por uma vida inteira, começaram a ficar nervosos. Era preciso ligar “para o andar de cima” era preciso obter uma ordem. Quem vivia naquele sistema foi meticulosamente roubado de qualquer capacidade de tomar uma decisão autônoma. Qualquer tipo de autonomia e emancipação eram vistas como ameaça. A decisão era sempre tomada por alguém “lá de cima” e o trabalho do chefe de plantão na noite de 11/09/89  era passar as instruções para seus subordinados. Entretanto, o mediador entre os chefes do Politbuero e o chefe de plantão no Checkpoint Bornholmer Strasse não retornava a ligação. Quando o chefe de plantão, sofrendo com seu intestino dando cambalhotas e o fazendo ir frequentemente ao banheiro, ligava pedindo (finalmente!) uma ordem, sempre ouvia a mesma ladainha:” Não se deixe impressionar. Não aceite provocação” até que o chefe de plantão entendeu que “os lá de cima” não tinham entendido a realidade e muito menos estariam em posse de um Plano B. Uma certa hora quando os nervos já estavam a flor da pele porque os berlinenses não paravam de chegar e gritar uníssono “Abre a porta. A gente volta” sinalizando que só queriam dar “uma olhadinha” do outro lado da cidade, Berlim Ocidental, o suspense e também o perigo da dinâmica dos acontecimentos fugirem totalmente do controle e suas implicações imprevisíveis frente a tal multidão.

E quanto um policial já foi pegar arma de alto alcance e já pensava em atirar na multidão, o que teria causado um banho de sangue, o chefe de plantão,tentava conseguir ordem. E co seguiu. O seu chefe disse para elementar na multidão, retirar os mais exaltados e deixá-los passar pela fronteira, mas não sem antes, carimbar passaporte. Para os “arruaceiros. O carimbo deveria ser na foto do passaporte, que significava que eles não poderiam retornar. Com o carimbo na foto, o passaporte perdia a validade. Um casal queira atravessar. Eles deixaram as crianças dormindo em casa. Como o homem exigia repetidamente querer passar a fronteira de Berlim Oriental para a Ocidental, os soldados carimbaram seu passaporte na frente e o da sua mulher na pagina de trás. Ao tentarem voltar, se depararam com uma grande surpresa. Vários apelos a Harald Jaeger, ele se mostrou condescendente e deu ordem para o soldado subordinado deixar o casal retornar a Berlim Oriental. Ao finalmente receber uma ordem, a alegria na cabine foi grande, porem a ordem não se mostrou eficiente. Tirar gatos pingados da multidão não a fez acalmar, pelo contrário. Até que Harald Jaeger, oficial da Stasi e de plantão naquela noite, decidiu abrir portão para evitar um tumulto maior, uma tragédia.

Em projeção do filme “Bornholmer Strasse” no dia 08/11 em Berlim, no Centro de Pesquisas DEOC que conta a história do controlador de fronteira que angariou fama mundial, Jaeger foi tratado pelos presentes como um herói e não escondia seu contentamento frente a isso. Porém é preciso um diferenciação. Harald Jaeger foi, durante décadas, oficial da Polícia Secreta da ex-Alemanha Oriental e as artimanhas desse aparato eram a pilastra do sistema opressor que instigava a desconfiança, até mesmo entre membros da mesma família. Depois do final da sessão, Jaeger conversou exclusivo com o Blog.

FL: No filme, o personagem baseado na sua história age sempre de forma muito coerente. Como é possível que uma pessoa que foi socializada e treinada para proteger a fronteira, como pode ser tao decidido e treinado para se abdicar de qualquer tipo de decisão tomada de forma autônoma, como o senhor conseguiu tomar essa decisão tão importante?

HJ: É muito simples. Que estava na nossa frente eram cidadãos da Alemanha Oriental, nossos conterrâneos com quem eu lidava, sempre, seja de forma particular ou social. O outro lado, eles pleiteavam algo que é um Direito Humano, a liberdade de Ir e Vir, algo que lhes foi proibido durante anos e eu fui responsável por isso durante anos. Antes da chegada do 09 de Novembro propriamente dito, aconteceram muitas coisas erradas que foram descobertas. Muitos paradoxos vieram à tona, sofridos pelo movimento de oposição nas cidades de Leipzig e Dresden. Isso resultou em mim a percepção de que as coisas não poderiam continuar da forma em que estavam.

O quanto de influência teve no Senhor o discurso de Mikhail Gorbatchov no dia 07 de Outubro em Berlim Oriental? (Quem chega tarde demais é punido pela história).

Pra mim estava bem claro que, a partir de 10 de Novembro, a Alemanha Oriental nunca mais seria a mesma do que no dia 09?

O Senhor contava com a rapidez com que o processo da Unificação se autonomizou?

Na realidade, não. O resultado do 09 de Novembro é a Unificação (dos dois estados alemães), mas que ela veio rapidamente, por sorte, senão nós teríamos afogado ainda mais no âmbito da economia e estaríamos hoje na mesma situação de Bulgária, Romênia e outros países do Pacto de Varsóvia.

Como foi pro Senhor no dia seguinte?

Tem essa cena no filme em que o personagem chega em casa depois do plantão, ao tomar café, diz para a esposa: “Na noite passada eu abri a fronteira” e a esposa retruca, “Não fala isso nem brincando!”.

Como o Senhor acordou no dia seguinte, tendo sido o herói da noite anterior? No que o Senhor pensou?

Eu ainda não conseguia entender o que tinha acontecido.

O Senhor teve que escrever o relatório sobre o ocorrido, como o personagem do filme?

Eu não tive que escrever relatório algum nem sofri represália nem me chamaram para uma “reunião”.

No jargão do bloco do leste e dos chefões do Politburo, um funcionário nunca era convidado “para uma reunião”, mas para se justificar sobre algo errado que havia feito.

Anos depois o Senhor ainda se sente um pouco como herói por ter evitado um mar de sangue, um pânico na multidão?

Eu me sinto feliz por ter superado bem aquela noite, mas eu sempre digo: “Os heróis estavam ali na nossa frente, eles não sabiam como iriamos reagir. Nossa reação poderia ter sido bem outra”. É preciso ser comedido com adjetivos exagerados, porém a postura de Jäger foi, de fato, heróica. Ele evitou o pior, o pânico e o total descontrole sobre a multidao nos pontos de controle de fronteira, mas acima de tudo heróica porque durante toda uma vida ele foi doutrinado para proteger a fronteira de todo o custo já que a fronteira era a garantia da permanência da Alemanha Oriental no mapa do jeito que era durante a Guerra Fria. Jäger escapou do adjetivo banal por, desta vez, não ter obedecido cegamente as leis do Politburo e fez algo emancipatório, o decidir sozinho num país onde a coletividade era obrigatória e implementada desde o ensino primário e em todos os âmbitos sociais.