Filme “Amar sem pedir nada em troca” mostra um Fassbinder como nunca se viu

Fátima Lacerda

08 de fevereiro de 2015 | 11h10

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Quando cheguei na Alemanha, sempre que o assunto era o cinema alemão, o ritual era de virar os olhos. De desgosto. De monotonia. “O filme alemão está morto”. Não poderia precisar quantas vezes ouvi essa frase. Nos magros anos 80 do cinema alemão, a referência se encontrava No passado, era Fassbinder, quando se falava em filmes de grande importância cinematográfica dos anos 70.

Até hoje a relação da Alemanha era de um amor e ódio, com o Enfant Terrible que foi reprovado duas vezes na tentativa de entrar para a Faculdade de Cinema de Berlim (DFFB, na sigla em alemão) e por isso se bandeou para a Faculdade de Cinema de Munique, onde finalmente foi aceito.

Desde sua morte em 1982, com apenas 37 anos, Fassbinder tinha se tornado um enigma. Não se sabia ao certo se toda a polêmica gerada por ele, tinha fundamento, alguma lógica.

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Em “Amar sem pedir nada em troca” é um filme que clareia o universo Fassbinder e nos mostra um diretor, workaholic e perfeccionista como nunca se viu.

O diretor e historiador dinamarquês, Christian Braad Thomsen se tornou um dos amigos mais chegados de Fassbinder. Ser amigo e chegado é uma combinação especial, já que Fassbinder era muito tímido e quando dava declarações, era polêmico, muitas vezs agressivo agressivo e isso afastava pessoas do seu convívio.

201503399_2_IMG_543x305.jpg©Berlinale

O filme é resultante de 7 anos de material de áudio e vídeo, incluindo entrevista com Lilo, mae do diretor. As declarações referentes a ela, são de instigante franqueza.  Fassbinder, que confessa abertamente suas fantasias de incesto é auto-irônico, quando declara: “Na realidade, eu acho que essa coisa do incesto só funciona bem mesmo na imaginação. Se a minha fantasia se tornasse realidade, será uma péssima experiência”. Confessando o amor incondicional pela mãe, como um menino astuto, ele declara : “Eu chamava a chamava para atuar nos meus filmes para tê-la mais tempo perto de mim”.

O filme consegue de forma, ao mesmo tempo autêntica e respeitosa, mostrar mais do que somente o homem tímido e solitário, mas um Fassbinder frágil, tenro, reflexivo e em conflito interior por estar a frente do seu tempo.

A narrativa feita em OFF pelo próprio Thomsen divulga situações e, como não poderia ser diferente, conflitos pessoais entre os dois:

“Quando eu contei para o Rainer que a minha companheira estava grávida e que eu iria ser pai, ele ficou uma fera(!) e disse: “Eu constato que você não entendeu o significado dos meus filmes. Como alguém pode colocar uma criança nesse mundo em que a gente vive?”. De fato, assim Thomsen, Fassbinder estava com inveja. Seus mais próximos sabiam da necessidade de criar uma família.

O depoimento mais visceral no filme é sobre o casamento, depoimento caracterizado por um discurso de clareza ímpar.. Thomsen indaga o que há de errado querer viver num casamento: “Nesse negócio de relacionamento em monogamia, você faz de tudo para ocupar o tempo,  fica ocupado. Ocupado em procurar uma mulher, em casar com ela, em ter filhos, criá-los e toda aquela sopa. Você está ocupado”, como quem defende a tese de que para escapar da solidao e, ainda muito pior do que ela, da monotonia, é preciso encontrar uma ocupação juntamente com uma legitimidade que vem com o reconhecimento social social. Isso me lembra da tese do não menos genial Frank Zappa, que numa de suas entrevistas declarou estar “on duty”, empregado, nos traria legitimação na era pós-capitalista.

Falando da emancipação feminina Fassbinder cita o filme de “Liberdade em Bremen” , um filme baseado numa história real. Para ela (Gesche), matar era viver a emancipação”, comstata.

Entre as descrições de Thomsen sobre o trabalho de cineasta, ele declara a forma inusitada em que Fassbinder formava o elenco dos seus filmes, ou por admiração pelo ator ou atriz, como no caso da atriz de teatro Brigitte Mira, protagonista do filme “O Medo Devora a Alma” que ganhou o prêmio da crítica em 1974 no Festival de Cannes. No caso do algeriano El Hedi ben Salem, que formava o casal com a personagem vivida por Mira, Fassbinder conheceu numa sauna gay em Paris. Depois de trazê-lo para a Alemanha, mandou buscar também seus dois filhos. Queria realizar o sonho de uma família. Queria impreterivelmente que os meninos aprendessem alemão e tivessem um futuro digno. O sonho não vingou. El Hedi ben Salem, com vasta ficha policial, morreu numa prisão em Paris.

A atriz Irm Herrmann, hoje atuante séries de TV, e durante anos, companheira de Fassbinder, confessa todo o caos da vida em comum. A dificuldade de dinheiro e até a tentativa de suicídio com comprimidos para dormir, quando ela pensou que Fassbinder a teria abandonado.”Ele saiu, bateu a porta. Eu pensei que ele havia me abandonado. No dia seguinte, ele voltou e me encontrou desacordada”. “Foi através dele que eu descobrir quem eu realmente sou e depois disso, eu não poderia voltar para a minha vida de funcionária de um escritório”, declara com um sorriso de quem bem conhece o antagonismo entre esses dois mundos.

No depoimento de atrizes e atores, fica transparente que Fassbinder sugava tudo. Dentro e fora de cena. Com sua musa, Hanna Schygulla, não foi diferente.

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Uma das cenas que ratificam o perfeccionismo de Fassbinder, são imagens inéditas (que nem mesmo a cinemateca alemã possui) das filmagens de Berlin-Alexanderplatz para a TV. 13 episódios e um epílogo produzidos pela RAI italiana e pela Bavaria Filmes. Na cena de alto cunho logístico, o ônibus tinha que passar na hora x, para aumentar a dinâmica com os pedestres. O registro de Thomsen nos presenteia com a reação de Fassbinder, cada vez que a que a cena da errado.

Não é exagero afirma que “Amar sem pedir nada em troca” restada um lado até então desconhecido de colérico insuportável, desse polêmico de plantão numa época em que a Alemanha vivia sobre o terror da Fração do Exercito Vermelho e numa sociedade que, mesmo depois do movimento estudantil de 1968, ainda se mostrava arredia ao questionamento, incessantemente instigado pelos filmes de Fassbinder.

O filme mostra também um homem solitário, tímido e um homem encontrou no cinema a forma de suportar o peso da vida. Não é a toa que a frase “O cinema liberta a mente” (Kino macht den Kopf frei, em alemão) é uma frase memorável do Enfant Terrible. A importância desse filme é o resgate, melhor, a consiliação através da transparência de uma personalidade até hoje então hermética, inantingível. Esse filme fez de Fassbinder mais humano.

O documentário que esta inserido na mostra paralela “Panorama”  teve estreia mundial no sábado 07/02.