Refugiados na Alemanha: agora Merkel entra em campo para um “Desafio Nacional”

Fátima Lacerda

31 de agosto de 2015 | 17h40

MerkelBundespressekonferenzimage-890974-breitwandaufmacher-uytm.jpg ©DPA

Segunda-feira (31). Um calor do deserto do Saara rege na capital. Em frente ao local da coletiva estacionavam carros das estações de TV desde as primeiras horas do dia. Para às 13:30 horas, horário local (8:30 horas no horário de Brasília) estava previsto que a chanceler tivesse seu compromisso mais difícil da agenda das últimas semanas.

Merkel e a imprensa tem um relacionamento conturbado, daqueles que andam sempre por um fio, sempre na tangente e sem a possibilidade de pedir socorro quando a casa esta pra cair. Mas hoje, Merkel supreendeu. Ousou.

Sabendo da secura dos jornalistas por um posicionamento concreto da chanceler, que o ficou devendo durante 5 semanas, Merkel chegou ao prédio localizado à beira do Rio Spree, vestindo um blazer abóbora e já causando risos na fileira de trás sobre seu guarda-roupa ao mesmo tempo que é palpável o respeito que os jornalistas tem pela chanceler.

A melhor defesa é o ataque

Excelentemente preparada, Merkel, logo de início, deu nome aos bois, falando do tema mais em pauta da Alemanha no momento: a situação dos refugiados. Em discurso autêntico em tom e detalhado em conteúdo, Merkel comparou o desafio ao processo de unificação dos dois estados alemães, há 25 anos atrás: “Eu quero iniciar primeiramente com uma mensagem sobre o grande número de pessoas, provenientes de todos os cantos do mundo  que procuram proteção no nosso país. Por isso precisamos implementar medidas claras referentes aos refugiados que vem para a Alemanha e essas medidas tem origem na nossa constituição. Primeiro: A todos os perseguidos políticos é assegurado o direito de asilo. O segundo aspecto é a dignidade de ser humano, garantida no artigo número 1 da nossa constituição. Não importa a proveniência dos refugiados. Nós respeitamos a dignidade de todos”.

Concernente ao terror vivido por refugiados que tiveram seus abrigos incendiados e foram expostos à situações de humilhação e, como em Berlim que mostra total falta de estrutura expressada em acampamento de refugiados ao ar livre sobre o forte sol do verão, até conseguirem uma senha para serem encaminhados para abrigos regulares, Merkel foi enfática e, em tom, não deixou dúvida de que o desafio de receber os previstos 800.00 refugiados (assim as mais recentes estatísticas) agora virou assunto da chefia do governo. “Estamos diante de um desafio nacional. A meticulosidade alemã é muito bacana, mas o que precisamos agora é de uma flexibilidade alemã”, arrancando risos dos jornalistas presentes, que lotavam a sala. “Tudo o que nos frear no caminho de resolver esse problema, nós vamos deixar de lado. Precisamos de muita coragem”, instigou a chanceler.

Tolerância zero

Merkel garantiu que não haverá tolerância para “aqueles que semeiam o ódio”. “Usaremos com dureza todos os instrumentos do Estado de Direito contra aqueles que hostilizam, agridem, que incendeiam abrigos ou que usam da violência contra refugiados. Não haverá tolerância perante os que questionam a dignidade de seres humanos”. Se referindo as últimas semanas, onde incêndio em abrigos e hostilidades ocuparam o país, Merkel, entendeu a necessidade de um discurso de cunho positivo e inusitadamente emotivo para encorajar os alemães exatamente da forma em que eles a admiram: Com um discurso de arregaçar as mangas, mas na retórica do meio copo cheio e de olho no futuro. “A sociedade civil de qual todos falam é uma realidade em nosso país. Me faz sentir orgulhosa pelo número de pessoas no nosso país e como eles reagem à chegada dos refugiados, número bem maior do que os são contra”.

Também digo: nosso pais esta bem. A sociedade civil esta bem estruturada. Me orgulho dos voluntários que ajudam os recém-chegados, os oferecem abrigo, os acompanham às repartições nas diferentes cidades e esse apoio cresce ainda mais.

Elogio à mídia

Contrariando o costume de se dirigir diretamente à mídia concernente ao seu papel de 4 poder no Estado, Merkel ousou um elogio: “Esse apoio é também resultado de excelentes matérias vinculadas por vocês nos últimos dias. A maioria dos alemães são abertos à novas culturas. Nossa economia é forte. O mercado de trabalho é robusto e até mesmo capaz de criar mais empregos. Quero me permitir o pedido para que vocês continuem vinculando essas matérias para que outras pessoas, vendo os exemplos, se sintam motivadas em colaborar”.

A imagem da Alemanha no mundo

Quando inúmeras pessoas escolhem a Alemanha para recomeçar suas vidas, isso não e o pior dos atestados que podemos obter”, disse a chanceler em alusão ao debate sobre os “refugiados econômicos”, que na mente de ignorantes e representantes de uma elogia marrom sórdida, vem para a Alemanha para “sugar os benefícios do Estado.”

A dimensão europeia

Merkel divulgou que há muitos itens de concordância entre Franca e Alemanha, de como deverá ser a distribuição dos refugiados no continente europeu. Perguntada por um jornalista turco, sobrer como ela percebe o empenho da Turquia que já acolheu 2 milhões de refugiados, Merkel assegurou agendar conversas com o governo turco para „delinear possível ajuda“.

Indiretamente criticando países que se recusam a receber refugiados, a chanceler foi taxativa: “A Europa, como um todo, precisa mostrar mais flexibilidade. Os Estados precisam dividir a responsabilidade em prol dos direitos universais dos cidadãos algo estritamente ligado à Europa e sua história. Isso é um dos impulsos principais no contexto da fundação da União Europeia“. Em tom de aviso para os países renitentes em acolher refugiados, Merkel acoplou a questão de vencer o desafio permanência do que ela chama de „União de Valores”. “Se não soubermos lidar com esse desafio, essa premissa será destruída e não teremos a Europa que queremos“.

Motivos de fuga

Merkel ressaltou a prioridade em manter diálogo com países para diminuir os motivos que levam pessoas à se decidirem pela imigração. “O Ministro da Relações Exteriores se encontra nesse momento no Afeganistão para diálogo com os Talibãs. Para o final do ano, agendamos uma conferência com os estados africanos”, divulgou.

Perguntada por um jornalista, o por que das tendências neonazistas estarem acima de tudo na parte leste do país e se isso não seria motivado pela percepção dos alemães do leste terem ficado “de fora de todo o questionamento político”, Merkel foi vaga, exceto quando declarou: “Nenhuma experiência pessoal justifica o semear do ódio”.

O posicionamento claro da chanceler demorou demais para ser feito. Se Merkel tivesse se posicionado contra o racismo e o ódio de tudo o que é “estrangeiro” na entrevista em rede nacional há 6 semanas atrás, a dinâmica de terror que se espalhou pelo país talvez nao tivesse se desenvolvido de forma tão dramática.

O que Merkel não comentou é a imagem nada uniforme que seu governo apresentou até agora. Seu Ministro da Economia e Vice-chanceler, o social-democrata Sigmar Gabriel, se uniu à artistas de TV e é membro de uma Fundação que construirá uma abrigo de refugiados no norte da Alemanha. Já o Ministro do Interior, Thomas de Maizière iniciou, no pior momento possível, um debate sobre o valor do suporte financeiro recebido pelos refugiados, instigando um ritmo alucinante de uma discussão que mistura alhos com bugalhos, desfocando o debate e colocando para debaixo do tapete a responsabilidade da Alemanha em oferecer abrigo à perseguidos políticos algo que a chanceler ratificou com inusitada clareza na coletiva de hoje.

Caiu a ficha

Merkel demorou, mas entendeu que tem que mostrar a sua tão elogiada habilidade em “administrar crises” não “só” na forca de tarefa para salvar o euro, mas no empenho de reunir as forças dispersas por uma sentida infinita falta de vontade política de admitir que a Alemanha é um país de imigração. Ainda patra este ano, Merkel garante que, apesar do contra de membros do seu partido, o CDU, haverá uma proposta para a lei que regulariza a imigração no país. Agora é oficial. Agora é Merkel que vai administrar o maior desafio nos seus 10 anos de governo e na coletiva de hoje, a chanceler não deixou dúvida sobre isso. De quebra angariou elogios de proveniência surpreendente. O portal Spiegel Online, sempre cético perante à política da chanceler, atesta Merkel “ter passado na prova de hoje de forma brilhante”. Hoje realmente foi difícil nao atestar a chanceler um discurso, mesmo que atrasado, mas instigante e esperançoso, para dizer ao mínimo. Merkel se superou. Marcou um golaço de cunho “Yes, we can”.

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