Refugiados passando fome mostra o fracasso do Senado de Berlim

Fátima Lacerda

26 Janeiro 2016 | 10h50

Köpenick1-format530.jpg©DPA

Foi no início da segunda-feira (25) que Peter Hermanns, administrador do abrigo de refugiados no bairro leste de Treptow-Koepenick ligou para a redação do Berliner Zeitung. Foi um grito de socorro. 40 dos 250 refugiados do abrigo administrado por ele, estão passando fome, já que não estão recebendo recursos financeiros do Departamento Estadual de Saúde e Assuntos Sociais, a LaGeSo (na sliga em alemão) que pelo fracasso tanto no registro rápido como também em todos os outros quesitos, já ganhou fama mundial.

3360832036738257highResimago65308410h.jpg© imago/Hans Scherhaufer

Os refugiados que aguardam o deferimento de seus pedidos de asilo tem direito a uma quantia um pouco abaixo do semelhante ao salário mínimo. Na Alemanha existe um recurso social com o nome de Hartz IV, que garante a cada cidadão valor mínimo recebido mensalmente.

Devido à falta de resposta do Senado de Berlim, Hermanns contactou o Berliner Zeitung como também iniciou uma campanha de doação de alimentos não perecíveis. O abrigo que fica na parte leste de Berlim e está sempre sujeito a manifestações de grupos nazistas em vasto número na região, já teve uma batalha inicial contra a xenofobia do bairro quando recebeu os primeiros refugiados em dezembro de 2014. Muitos habitantes eram contra em ter um abrigo de refugiados em suas redondezas.

Devido a falta de dinheiro até para pagar uma passagem de metrô, os refugiados não conseguem frequentar as aulas de língua alemã. Ficam entre 4 da manhã e 6 da tarde na fila da LaGeSo esperando para receber o dinheiro ou o auxílio moradia. No abrigo do bairro de Westend, no finalzinho da parte ocidental de Berlim, as administradoras estão a mercê de doações de sopa de lata para os 30 refugiados que vivem ali e já foram 7 vezes na repartição a procura dos recursos, mas sem obter sucesso.

O Twitter e a mídia nacional estão recheados matérias e postings de mais desse renitente fracasso do Senado de Berlim. A picuinha entre o partido CDU e os socialdemocratas (SPD), governando em coalizão, mais parece uma rota de colisão num ano que terá eleições na capital. Também a falta de vontade política, com a pressão sobre a chanceler Merkel em reduzir o número de refugiados, pode ser uma vertente nessa complexidade infame que se mostra em Belrim.

Quando essas imagens ganharem o mundo, os refugiados vão pensar bem se querem vir para a Alemanha. Desde o início do ano há um grupo de iraquianos que decidiram voltar ao seu país. Toda a semana sai um voo da Iraque Airways os levando de volta para seu país de origem. Eles reclamam de constrangimento, frieza social e falta de uma perspectiva na Alemanha.

O passar fome já é desumano e cruel por si só. Quando, porém, isso acontece no país mais rico da Europa, isso é infame. O mesmo país que não mediu forças para salvar a Grécia, melhor, os bancos da zona da UE, deixa os refugiados na capital à mercê de uma repartição tosca, de aparato visivelmente obsoleto e, mesmo depois de 6 meses da existente e persistente crise dos refugiados, ainda não conseguiu estabelecer uma Task-Force para administrar esse problema pelo menos de uma forma digna, cumprindo o que prescreve a constituicao: “A dignadde. Enquanto num formato de orgia midiática os jornais apostam em quem divulgar mais rápido a diminuição de refugiados que entram na Alemanha, na capital, refugiados que passaram por guerras, traumas, perdas de familiares e de todos os pertences, também passam fome em Berlim.

Não é preciso ser sociólogo para saber que essa situação é fértil adubo para conflitos sociais dentro de uma sociedade paralela que está surgindo e ainda se mantém em estádio de vegetação social e letargia política. Agora, em Berlim, a mais importante pergunta não é se o requerente x tem uma “Perspectiva de estada no país”, assim o termo criado por Angela Merkel. Nem mesmo o curso de alemão para estrangeiros ou a aula nas chamadas “Turmas de Bem Vindos” para filhos de refugiados são prioridades. Agora, a prioridade, é uma refeição quente por dia.

Na conta do Facebook do Berliner Zeitung, os postings vão de cunho reacionário a um racismo enrustido passando por uma frieza social ímpar. Norman Hildebrandt destila: “A gente só convida o número de convidados que comporta servir“. Gerhard Weinmann optou pela ironia: “Com certeza tem uma cantina na chancelaria federal. Pede a eles para enviar comida para os abrigos. A chanceler, com certeza, não vai negar um pouco de comida”. Rita Elisabeth Rist, sugere: “Se vocês não conseguem dar conta, emprega alguns sírios, eles já passaram por poucas e boas”. Sabine Uddin analisa usando de um raciocínio raso e ignorante: “Talvez eles não tenham direito de estar aqui. Com certeza não são refugiados de guerra, por isso não recebem ajuda de custos. Em seus países de origem eles tem família. Se eles não são reconhecidos aqui, eles tem que voltar para as suas famílias”. Assim, segundo a Sabine, o número de refugiados diminuirá naturalmente e o seu mundinho voltaria a ser cor de rosa.

Berlim já goza de péssima fama no quesito competência: não consegue construir um aeroporto, é uma cidade permanentemente no vermelho, em suma, frequente motivo de chacota das ricas Frankfurt e Munique. Porém, o fracasso espelhado na situação divulgada pelo Berliner Zeitung nach segunda-feira, supera todos os fracassos anteriores. A falta de alimentos para refugiados em vários abrigos da cidade é uma falha na humanidade em lidar com os refugiados. A cidade de Berlim merece governantes mais competentes.


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