Rolling Stones: turnê europeia tem pontapé inicial em Hamburgo e não passa por Berlim

Fátima Lacerda

18 Julho 2017 | 15h16

 

Quando os primeiros acordes de “Start me up, I’ll never stop” ecoam em algum canto do universo, pode contar que o grito de obcecados pela melhor banda do mundo, não demoram se fazer presentes. Foi assim em 2014 em Berlim, no Waldbühne, palco localizado dentro de uma floresta e onde os Stones tiveram um show especialmente memorável em 1965 que contabilizou 100 feridos e 85 autuados pela polícia por “anarquia” e “vandalismo” numa época de uma Alemanha reacionária, avessa ao barulho e à indisciplina, ferramentas intrínsecas do Rock ‘n Roll.

Berlim tem um longa história na (sentida) interminável história desses 4 caras que protagonizam a trilha sonora e filosofia de nossas vidas. “You can’t alway get what you want, but if you try sometimes, you’ll get what you need” ou “Please allow me to introduce myself. I’m a man of wealth and faith” ou “I was born on a crossfire hurricane”, ou “Anybody seen my baby?“ que tem no video oficial Angelina Jolie pelas ruas de Nova Iorque ou “The floods is threat’ning My very life today Gimme, gimme shelter Or I’m gonna fade away”, a música favorida de Martin Scorcese. A frase “I can’t get NO SATISFACTION”, do primeiro sucesso da banda, já expressava o Zeitgeist muito antes dos sociólogos inventarem a palavra “Globalização”.

Um programa de sátira hardcore, o Extra 3 do conglomerado de emissoras abertas NDR, depois de tantas mortes de tantos artistas fenomenais em 2016, a redação do programa escreveu em sua página no Facebook: “Temos que pensar que mundo deixaremos para Keith Richards!”. Obcecado pelos Stones que se presa, acredita e por isso uma simples frase “Start me up, I’ll never stop” goza de vasta simbologia e toda a vez que essa frase ecoa, é o começo de uma grande aventura, seja por uma noite de show ou por uma turnê que dura semanas.

E pensar tudo começou quando um pirralho chamado Keith esbarrou numa esquina de uma Inglaterra cinzenta e perguntava: “Hey, Mick. Mostra esses discos ai!

Stones no Rio – Um show para a eternidade

Em 2016, eu antecipei a minha viagem para o Rio para realizar o sonho de assistir a melhor banda do mundo na minha cidade natal. O título do meu artigo, para o Blog inberlin.de, na sequência se chamava: “Rolling Stones no Rio. Um show para a eternidade“.

Em Praga tivemos que pegar um ônibus que nos levava para um periferia cheia de poeira e um calor das Arábias. Quase fomos ver os Stones em Amsterdã. Estávamos com ingressos nas mãos, mas na época Richards não economizava em peripécias, caiu da escada e quebrou a bacia…argghhh), impedindo a mim e ao maior obcecado pelos Stones que eu já conheci, de realizarmos o sonho de ver os Stones na capital mais porra louca da Europa: Amsterdã que, desde 1994 tem um café para os obcecados dos Stones localizado no centro do Red Light District. O café fica aberto 365 dias no ano e  “faz você se sentir em casa não importa da parte do mundo que você vem”, como garante o site do café.

No Rio, Mick Jagger, falava português quase sem sotaque sobre Charlie Watts dando “um rolé pela Mangueira” e que o baterista havia “aprendido fazer caipirinha”. 

Em Berlim, o pai do Lucas Jagger (que acabou de completar 18 anos e teve visita do pai em sua escola de música em Sampa) apresentou Ron Wood como “Der verrückte Maler” (O pintor maluquinho) e naquela noite no Estádio Olímpico, em 2006, era possível ver os músculos do abdômen de Mick Jagger, de tão perto que estávamos do palco.

© Sebastian Krüger

Entre suas conquistas e Affairs com estonteantes modelos, Ron “Big Nose” Wood exercita a profisssão de pintor. Seu avantajado nariz foi, brilhantemente, eternizado pelo ilustrador e caricaturista germânico Sebastian Krüger (1963), uma estrela no quesito Realismo New Pop. Entre seus trabalhos de serigrafia feita em papel artesanal, os títulos dos trabalhos são: “Stones Gitarrists Suite“, “The human riff“, “Performing Woody“. Folheando e estudando os inúmeros livros que Christian tem de Sebastian Krüger, é inevitável constatar que seu “motivo” preferido é Keith Richards.

© Sebastian Krüger

No Filter – Passando ao largo por Berlim

No início de maio, a internet quase “quebrou” com o anúncio da nova turnê europeia dos Stones . Desta vez, a turnê é bem enxuta (13 shows) e, para a tristeza e revolta de muitos, não passa por Berlim. A justificativa de passar ao largo por Berlim é que o Estádio Olímpico já estaria tomado por jogos de futebol e megaeventos. Na Alemanha, os setentões se apresentam na cidade portuária de Hamburgo, na cidade mas burguesinha chamada Düsseldorf e na mais rica do país, Munique.

Detalhe: Hamburgo é o pontapé da turnê no dia 09 de setembro e que também passa por Copenhague, Barcelona, Viena, Zurique, Estocolmo e na cidade mais linda da Europa, Lucca, algo que tomei conhecimento no Aeroporto de Roma quando esperava para pegar o avião que me levaria a região de Salento, bem no sul da Itália. Em grande estilo, a turnê termina, em grande estilo, com dois shows em Paris.

O acaso tem um senso de humor muito grande. 09 de setembro, assim como a cidade de Hamburgo (a minha preferida na Alemanha, por sinal) tem significado mór na minha história com o fã mais obcecado dos Rolling Stones que eu já conheci. Depois do show no Rio, não será Berlim, mas Hamburgo o palco da ilimitada euforia musical.

09. Setembro, Hamburgo – Área verde, Festwiese

12. Setembro, Munique – Estádio Olímpico

09. Outubro – Düsseldorf – Arena ESPRIT

Era pra ser Hamburgo…

Logo depois do anúncio de Hamburgo como primeira estação da turnê, os hotéis da cidade portuária triplicaram valores de pernoitada além de impor a obrigatoriedade de, no mínimo 3 pernoites. Dois dias depois do anúncio oficial, eu tentei ligar para uma rede de hotel em Hamburgo, aliás, para vários hotels. Era tarde da noite de sexta-feira e todas as linhas ocupadas. Eu queria reservar num hotel perto do Alster, o lago no centro da cidade, mas era totalmente infactível. Consegui uma das últimas vagas no bairro de Altona, o que não é nada mal, já que meu café preferido fica duas estações de trem dali.

O show da turnê No Filter será no Stadtpark, imensa área verde onde também está localizado o Planetário numa área verde de uma beleza incomum. Tenho Hamburgo como a Veneza do norte: pela luz no final da tarde no final do verão que, por nenhum acaso, será também a época do show dos Stones.

©Michael Zapf

Quem dormiu no ponto e não fez o registro no portal de compra de ingressos, no mínimo, 3 dias antes deu com a cara na porta. Os mais baratos ingressos disponíveis na internet pouco menos de dois meses do show ficam pelos 149,00 euros, sem estar incluído taxa de envio e outras taxas que aparecem no contexto de um superevento.

A agência promotora do show é a FKP Scorpio que, recentemente, levou a Banda de Jazz de Woody Allen para a Filarmônica de Hamburgo que fica à beira do Rio Elba, inaugurada no início do ano e que consta na lista das dez construções mais caras da contemporaneidade. A roda-gigante que está sendo atualmente construída em Dubai é, em comparação, café pequeno.

It’s only Rock’n Roll!

Que o show está marcado para o dia 09, resulta na minha ausência da “Festa dos Cidadãos” no Palácio Presidencial “Bellevue”, em Berlim. Uma tradição dos últimos 5 anos e que agora terá o Presidente Frank-Walter Steinmeier em sua estreia como anfitrião, mas nada como estar na cidade mais linda da Alemanha para assistir a melhor banda do mundo, mas não sem antes confraternizar com os outros e outras tantas obcecadas que lá também estarão. Nesse caso, a obrigatoriedade dos hotéis de reservas para, no mínimo, 3 noite é bem vinda. Além de tantos lugares lindos e memoráveis da nossa história, em setembro, se somarão outros tantos mais. 

Links relacionados:

https://www.galeriekaschenbach.de/k%C3%BCnstler/sebastian-kr%C3%BCger/