Saudades de Paris e um domingo em defesa dos valores republicanos

Fátima Lacerda

11 de janeiro de 2015 | 12h56

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 Nesse domingo (11), os mais importantes chefes de estado da Europa estão na passeata em Paris, em homenagem às vítimas do massacre desta semana.

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Depois de deixar uma longa mensagem no livro de condolências na Embaixada Francesa, localizada no prestigioso endereço Pça Paris em Berlim (Pariser Platz). a chanceler alemã confirmou a sua participação na marcha que aguarda 1 milhão de pessoas no percurso que inicia na Pça da República, passa pela Avenida Philippe Auguste e termina na Pça. de la Nation. “Todas as forças de segurança possíveis, estão mobilizadas para essa passeata” garante em entrevista à rádio France.Info., Stanislas Gaudon, responsável pela ordem pública da cidade de Paris,

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Em artigo anterior, quando ainda me encontrava em solos parisienses, mencionei perceber que a questão da imigração em Paris ser mais bem resolvida do que em Berlim. O fato do massacre que aconteceria depois e manteria o mundo em tensão durante 3 dias seguidos, não resulta numa mudança de percepção. Bem mais provável como causa do massacre, é o fracasso da polícia e do serviço secreto francês, já que os dois irmãos Koachi constavam na lista negra dos EUA, na chamada “No Fly list“, que proíbe a saída e a entrada no país. Também um vídeo exibido em 2005 na TV francesa, mostra declarações claras de tendência extremista especialmente quando se refere à sua vida como algo “que não vai durar muito tempo”. Na sequência do término da operação policial, a mídia francesa inicia a procura de onde ouve falha. Não precisa ter bola de cristal para saber que essa discussão, esse questionamento ainda vai dar muito pano para a manga e adubo para partidos políticos que querem tirar capital do momento mais trágico da história parisiense dos últimos anos. Entre os mais ávidos em tirar proveito, está o partido de extrema direta, Front National (FN),  guiado por Marine Le Pen.

A crença ingênua da segurança na Europa

O ministro alemão do interior, que está tendo seu momento midiático de glória desde o massacre em Paris, declarou recentemente: “Até agora nós tivemos sorte”, se referindo à ausência de atentados na Alemanha, país que instiga o ódio dos extremistas por ser “sem Deus” (Gottlos, em alemão.

Por consequência do terror em Paris, a Alemanha aumentou a vigilância e, em nota do ministério do interior, vai observar durante 24 horas os recém-chegados da Síria e do Paquistão. A pergunta que ficou sem resposta é como o aparato policial vai topar esse desafio, já que o atual contingente de pessoal é insuficiente em números e como será realizada efetivamente a proteção policial das redações de jornais, como o ministro assegurou num primeiro posicionamento à imprensa na quarta-feira, dia 7.

Já na madrugada de domingo (11) o jornal Hamburger Morgenpost, vulgo Mopo, foi incendiado. Dois suspeitos já foram presos e a Promotoria Pública já se ocupa do caso. Em demonstração de solidariedade, o jornal sediado em Hamburgo publicou caricaturas das edições de Charlie Hebdo. Porta-voz da policia diz que “é provável” que o incêndio tenha sido motivo de represália pela publicação.

Com declaração de caráter morno e instransparente, Thomas de Mazière semeia a insegurança, mesmo que a maioria dos alemães, numa enquete realizada nesse fim de semana, afirma que o seu medo de um ataque terrorista não aumentou depois dos dias de terror na capital francesa.

Por questões culturais, o alemão é um povo comedido, nada eufórico e muito menos polêmico. Faz parte da cultura, a filosofia de que “o menos é mais'”, ou seja, mesmo tendo medo (que seja somente receio), os alemães jamais demonstrarão isso, ao mesmo tempo que estarão super atentos. O formato de comedimento é sublinhado pelo estilo Merkel que não só por isso goza de confortável respaldo dos eleitores que´e espelhado na posição invícita do primeiro lugar na lista dos políticos com maior percentual de simpatia.

Ao contrário do que afirma o ministro do interior, a Alemanha “não teve sorte”, mas sim possui uma polícia federal de grande competência. Considerando o ministro, é bom mesmo que a Alemanha “tenha tido sorte” e que ela, a sorte, continue  a favor dos germânicos. Depois de Madri (2004), Londres (2005) e Paris (2014) podemos nos considerar gratos por viver num país que muitas vezes parece um oásis no centro da Europa, livre de todas as mazelas que acometem outros países na zona da UE.

Vendo os depoimentos do ministro francês do interior, Bernard Cazeneuve, recheados de total conscientização do que ocorre, sua determinação e foco, assim como prioridade número 1″a segurança dos franceses em território nacional”, é igualmente questionável e preocupante se ministro alemão, Thomas de Mazière, seria capaz de tal eficiência, se o pior vier a acontecer.

O fato da Alemanha até agora ter “tido sorte” não faz a convivência entre Turcos, Árabes, Curdos estrangeiros e alemães mais bem resolvida. Ao contrário de Paris, pode-se falar em grupos étnicos vivendo em sociedades paralelas.

Em eventos culturais, fala-se muito da multiculturalidade entre grupo étnicos, entretanto, a vida diária em Berlim mostra uma outra realidade, um cosmo urbano habitando no outro, até mesmo no bairro sudoeste, chamado popularmente de Kreuzkölln (a fronteira entre Kreuzberg e Neukölln) os dois bairros, em todos os âmbitos, mais efervescentes da capital.

Um sábado memorável

À caminho da exposicao “Francois Truffaut” na Cinemateca Francesa, peguei o metrô e tive que trocar em Les Halles. No meio de toda aquela estrutura de labirinto, deparei com um grupo de ucranianos, que transformaram a estação numa panela de pressão musical. Uma silenciosa alegria me acometeu, devido à ratificação que sim, Ucrânia é Europa e Ucrânia está em toda a Europa. Quando mencionei à meu amigo Stephàne o motivo do meu sorriso ao vislumbrar a banda, ele prontamente entendeu e, num inglês bem rudimentar (como o falado por quase todos os franceses ), ele mandou: “Take it, Putin!” Ficamos ali durante mais tempo do que a intensa agenda cultural e a luta contra o relógio permitia:  Curtindo o som do leste europeu, no coração da Europa. Très bien!

O pacífico temporário

No último domingo (4) o passeio foi pelo centro de Paris. Places des Vosges, onde fica a casa onde viveu o escritor Victor Hugo e passeio à pé pelas ruas ali por perto. Alguém tocava harpa debaixo do portal que marca a entrada para a área residencial de um dos lugares de maior elegância e austeridade que conheço no velho continente.

Instalações de bicicletas nas paredes, grafiti, o Museu da História de Paris com músicos no asfalto na manhã de domingo. Ruas interditadas, para o desespero de Stephane. É mais fácil encontrar Angela Merkel no celular, do que uma vaga no centro de Paris. Uma Sr. para ao lado, no sinal vermelho. Pergunta onde fica a Rue Pavée. Ninguém sabia. Minutos depois, no passeio de volta à pé, deparamos com a mesma mulher parada na rua anteriormente procurada. Paris e Berlim, mostram similaridades no quesito vilarejo. Esbarrar com conhecidos é bem provável.

Entre um domingo pacífico, repleto de arte, cultura e um café da manhã parisiense com direito à mesas apertadas dentro dos cafés, fica difícil imaginar o cenário que se desfez desde quarta-feira. Poucos dias e tudo mudou.

Hoje, Paris é o centro do mundo“, disse o Presidente francês F. Hollande em reunião terminada no início da tarde (horário local) com seu gabinete. Paris, digo, Charlie é hoje sinônimo da ânsia pela liberdade de expressão e pela liberdade de imprensa e por tudo o que a Franca em sua tradicao histórica, representa.

Segundo mapa divulgado pelo jornal Liberation, haverá passeatas organizadas pelos franceses residentes no exterior: em Madri, Buenos Aires, Berlim, Canadá.

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Além de meus ouvidos, ligados nas rádios e TVs francesas, mais que tudo isso, meu coração está hoje em Paris. Com meus amigos, com as pessoas que eu amo, que me permitem, via Whats Upp, participar, estar na cidade da luz, na cidade do amor, na passeata, defendendo valores republicanos.

Como disse o ex-prefeito de Berlim e ex-presidente alemão, Richard von Weizsäcker, num discurso que se tornaria memorável em sua chamada “Berliner Rede” (Discurso de Berlim): “Democracia não é algo de mão beijada. Você precisa defendê-la todos os dias”.

Também nesse domingo, foi essa foto a última do passeio. “Quando você me vier com ódio, eu lhe farei amor”.

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Não há como, excepcionalmente, não contrariar o título do Blog, mas, hoje, Voilá, todos os caminhos levam a Paris...

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