Seu Jorge em Berlim: entre a onda favorável de “A Vida Marinha” e bem-vinda ousadia estilística

Fátima Lacerda

07 de junho de 2017 | 19h26

A diversidade do púbico no saguão do local do show já mostrava que não seria um daqueles momentos musicais para matar as saudades dos sucessos que fizeram (e alguns ainda fazem!!) as trilhas sonoras das nossas vidas. Fazendo jus à sua imensa fama da qual goza na França, para onde partiu logo nas primeiras horas de quarta-feira (07), os franceses no show de Jorge eram de número bem significativo. Alemães amantes da cultura brasileira, muitos músicos (os meus anos de cantora me concederem um olho biônico para esse tipo de terrestres) ouviam atentamente como se quisessem captar cada movimento, cada cadência e cada acorde do carioca. Levei meus amigos Kerstin e Detlef que chegaram a Berlim para me visitar, coincidentemente, no mesmo dia em que retornei de uma viagem de uma semana a Salento, no sul da Itália (tendo em mente o mapa geográfico da Itália, Salento é na sola da bota). Desde a chegada dos amigos queridos, atuo como guia cultural pelos quatro cantos da cidade.

Sabendo que o repertório não seria do tipo Farofa Carioca, muito menos de música para churrasco e nem daqueles que ele prioriza quando marca presença no olimpo musical carioca, Fundição Progresso, alertei meus amigos antes que comprassem o ingresso no valor salgado entre 43 e 55 euros. “Olha, não é pra dançar, mas pela qualidade do artista, eu garanto”. O feedback depois do show não poderia ter sido melhor. “A gente nunca imaginaria um artista brasileiro fazendo esse trabalho” disse Detlef enquanto eu, um músico de São Carlos (SP) e que, como eu  também faz parte da “Velha Guarda Berlinense”, seu amigo germânico, o simpátissimo Hendrik e o casal 20 Kerstin e Detlef (e eles são mesmo!) procurávamos um lugar para uma saideira na cidade que promete noites longas e que, por muitas vezes, não cumpre. Com a minha teimosia prussiana venci o grupo pelo esgotamento, dos quais integrantes afirmavam “tenho que trabalhar amanhã”, ou “a gente hoje não queria ficar na rua até tarde”. A ida a um Bar de Tapas à beira do Rio Spree trouxe ainda mais supresas. Pra todo o grupo. São aqueles momentos de encontros nada previstos em que as porções de coisas positivas são colocadas na mesa em formato sucessivo e tudo vira uma só confraternização e o Wiedersehen, o reencontro, traz alegria incontida. 

Ousadia estilística

O anúncio do show com 15 minutos de atraso foi feito de maneira inusitada. Um membro da equipe de ao todo 4 chegou ao microfone posicionado na beirada do palco e, fazendo uso de um inglês passável, anunciou de forma seca, quase burocrática tentando dar à noite uma justificativa cultural à altura de David Bowie. “Estamos aqui com dois espíritos. Um presente, SEU Jorge e o outro, David Bowie”, recebendo aplausos gentis do público no Admiralpalast bem visitado, mas longe de estar lotado. Tentar colocar os dois artistas no mesmo patamar usando como instrumento um anúncio formal é não ser justo com nenhum dos dois e ainda traz o tempero amargo de misturar alhos com bugalhos, além da certeza de que o próprio Jorge não alimenta tal ambicão, mas sincera vontade em homenagear o mais famoso morador de Berlim. Para o protocolo: o anúncio foi um erro de direção, visivelmente, ausente no show. Por um fio o anúncio não desbandava para um lado cômico. “Daqui há pouco, Seu Jorge tomará o palco” (Jorge will take the stage), avisou em tom de uma leve ameaça, tentando ensinar a plateia sobre a importância do artista a ser visto logo na sequência.

O anúncio não acrescentou e nem mudou a percepção. Nem do artista. Nem da obra.No primeiro semestre de Marketing se aprende que para vender o peixe com sucesso não é preciso (e nem mesmo aconselhável) em anunciar pelo gramofone: “Olha esse peixe aqui é tudo de bom!”. É preciso fritar o peixe, serví-lo fresquinho tendo em mente a forma e o conteúdo. Um “aviso prévio” pode até resultar num efeito contrário ao desejado que é o ceticismo sobre a qualidade do produto.

O repertório escolhido poir Jorge foi primoroso ao mesmo tempo que previsível desde quando foi anunciado o Vale a Pena Ver de Novo do “Vida Marinha”. O Upgrade da noite foi a ousadia musical comparando com shows de Jorge em solos cariocas. O único denominador comum é o vozeirao e uma certa timidez na linguagem corporal. É tudo.

Arranjos meticulosos e um engenheiro de luz de classe mundial, arranjos matemáticos ao mesmo tempo a bem vinda imperfeição na tocada de guitarra de Jorge, que, não é um instrumentista, mas um dos mais ecléticos e ousados artistas e uma das melhores vozes do Brasil, senão a melhor. 

Lembrando João Gilberto

Contando a história sobre sua atuação no “Vida Marinha” desde o início, quando enquanto jogava Playstation o telefone tocou e ele teve preguiça de atender. Do outro lado da linha era ninguém menos do que o diretor Wes Anderson o chamando para fazer o papel de “Pelé!”.

Jorge conta, com detalhes, às vezes mais às vezes menos engraçado, sobre a reação de sua ex-mulher, sobre a voz do outro lado da linha quando ele, finalmente, largou a Playstation e foi atender o telefone e de sua primeira chegada ao set na Itália, país pelo qual a turnê de Jorge não passa. Suas experiências com manifestações de racismo durante as filmagens do filme de Wes Anderson deixaram cicatrizes. Na minha recente visita à Itália, pude constatar que por aquelas bandas, o racismo é bem menos velado do que na Alemanha. Veja artigo sobre a estada em Salento, em breve.

A primeira parte do show no formato voz e violão teve longas passagens de conversa fluindo (o que nunca aconteceria com J.Gilberto)  e isso e a outra parte da ousadia no formato escolhido para fazer a turnê pela Europa. Num momento em que tocou a única música de Bossa Nova, se presumia a influência de João Gilberto ou uma empreitada musicalmente estratégica, já que o artigo de exportação-mór é sempre um porto seguro na partida para outras aventuras musicais. Como exigia o poeta Manuel Bandeira ao seus discípulos: para a obrigatoriedade de dominar as formas clássicas de fazer poema para somente depois, transceder normas e regras para aventuras e experiências literárias. E sim. A Bossa Nova é o cimento para construir outros edifícios musicais.

A música de David Bowie adaptadas para o português, é decerto, uma aventura que Jorge exercita com esmero, sendo autêntico e se emocionando quando fala da morte do pai, 3 dias depois da morte de Bowie e isso juntado ao fim do seu casamento, cria um clima propício para novos discursos, interpretações, reflexões e sim, melancolia: “Hey, Baby, você venceu. Passa amanhã e pegue o que é seu. A maquiagem vai desmanchar para o seu medo aparecer. Zero a zero, agora eu vou. Você deu mole então eu marco o gol“, alfineta ele na adaptação de “Rebell, Rebell”.

A justificativa cultural por esse e não outro projeto foi explicada, extensivamente, por Jorge durante o show. Num inglês longe da perfeição mas com uma simpatia carioca para berlinense nenhum botar defeito.

No final do show, para o desespero dos seguranças alemães que não veem a hora de mandar todo mundo embora, poder fechar o local e ir pra casa, foram os brasileiros que esperaram mais de uma hora a saída de Jorge do camarim (incluindo duas que anunciaram terem vindo “especialmente de Guadalupe!!!!”) para a ida a mesa o de eram vendidos artigos de Merchandising, incluindo artigos como a toca vermelha, peça-chave do figurino no elenco de “Aqua Life”  Jorge foi solícito, ao mesmo tempo que “avisava” ter que sair muito cedo para a próxima estação. Sinais visíveis de fatiga se misturavam com sinais de rara serenidade em solos cariocas, mas também de dever cumprido em solos berlinenses.

Depois de ter ruido um osso na forma de diversos e-mails com a promotora local, MCT, sobre uma possibilidade de realizar entrevista, recorri a Cafuné Produções Artísticas em Sampa, da qual todos os telefones constantes na Internet estavam obsoletos. Numa das casas, o telefone fixo existe há 8 anos, enquanto nos portais, consta como sendo da produtora. Horas de tentativa de contato, mas sem o desejado e urgentet sucesso.

Restou aquilo que é o instrumento mor de todo jornalista que se preza. A teimosia. Até chegar em Pierre, o tour manager tive que passar pela austera Nadine, que me trouxe dos confins do Backstage, Pierre. O francês, que habita no Rio e fala um português passável me ofereceu 15 minutos com Jorge depois da marcada de presença do stand do Merchandising. Porém vendo o nível de cansaço de uma das vozes mais expressivas de um país chamado Brasil, decidi ser breve em consideração ao artista, sabendo que quando você sai do palco com o dever cumprido, parece que um vendaval energético passou por você.

FL:Voce fez um show intimista, sozinho no palco e está fazendo as principais cidades da Europa em locações de muito prestígio. Isso é um desafio?

É sempre um desafio. É sempre um novo momento. Eu fiz esse trabalho (“Life Aquatic”) há 12 anos atrás. O Bowie morreu. Eu resolvi fazer um tributo para ele, mas sem imaginar que isso iria se estender tanto. A minha ideia era ir aos EUA, fazer um 10, 13 shows. Acabamos fazendo 32 shows. Não era segredo pra mim que o Bowie tem fãs no mundo todo, mas o mais interessante pra mim é a minha relação com esse público, assim como o personagem do”Pelé” , no filme, tinha uma relação muito forte de amor por essas músicas.

FL: Como foi o show pra você, em Berlim?

O show aqui foi impecável. Esse lugar me ofereceu tudo o que eu precisava. Nós fizemos um bom show e eu consegui me jogar um pouco mais nessas músicas, depois de um dia de descanso. A gente tem viajado muito a Europa, chegamos não “só” em cidades, mas são países!

FL: Você teve tempo de ir ver a placa da casa onde morou o David Bowie?

Não, não tive. Você chega no lugar, faz o show, vai pro hotel, tem que comer e dormir. Tem o recover. Você vai pro estaleiro.

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