Só Hitler é o limite

Fátima Lacerda

22 de janeiro de 2015 | 19h36

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Não bastou as inúmeras declarações e manifestações de caráter islamofóbico da PEGIDA, nem mesmo a sua proximidade ideológica a grupos de extrema-direita, nem mesmo o grande número de neonazistas que, há 9 semanas, todas as segundas-feiras, vão ás ruas gritar: “Nós somos o povo”.

Nem mesmo longa a ficha criminalista de Bachmann, nem mesmo o ataque cada vez mais frequentes à jornalistas e fotógrafos que cobrem as passeatas foram suficientes para quebrar a espinha política. O êxito de atingir o movimento na espinha, foi a publicação de um chat fechado, realizado no Facebook em setembro de 2014, um mês antes do início da primeira passeata.

Ao contrário do publicado erroneamente em alguns artigos tirados das agências de notícias, o conteúdo do Chat foi hackeado pelo coletivo Anonymous que inclusive anunciou a ação previamente em um vídeo em tom agressivo no You Tube com o título “Operação PEGIDA”: “Não ficaremos parados assistindo a semeação do ódio e do medo. Nós vamos atacar em massa o PEGIDA e seus e seus “derivados”, se referindo aos sites do movimento em diversas cidades do país.

https://www.youtube.com/watch?v=d7nXfUhB8M4

Na plataforma digital Pastebin, os hackers informaram até mesmo endereços específicos de e-mails e sites antes da operação em formato Defacement, aquele em que não só o conteúdo fica indisponível, como os hackers deixam uma mensagem que aparece ao clicar do site hackeado.

O caos

Por enquanto, a organização na cidade de Dresden se vê como matriz do movimento. Todas as outras edições em cidades da Alemanha seriam um derivado da mensagem política. Na noite de uma quarta-feira turbulenta, os “patriotas” da cidade de LEIPZIG sairão às ruas, sem anteriormente comunicar e acertar os ponteiros com a “matriz”. Isso levou a porta-voz e co-fundadora do PEGIDA, Kathrin Oertel, publicar uma nota a imprensa com o aviso:

O que é pleiteado hoje (21) a noite em Leipzig, não tem nada a ver com o conteúdo defendido pelos “europeus patriotas contra a islamização do ocidente”. Não houve qualquer aviso prévio nem qualquer acordo sobre a passeata. Nós consideramos meios jurídicos para evitar isso no futuro”. A passeata em Leipzig causou um enorme caos. Grupos contra PEGIDA, cortaram os cabos ao longo das ferrovias que davam acesso à cidade, para impedir que simpatizantes chegassem a tempo. Na estacao ferroviária de Leipzig, um grande contingente policial passou sufoco para apartar os grupos adversários, sem falar no número até agora sem precedentes de jornalistas abertamente atacados ao longo das passeatas.

Bachmann e sua longa ficha criminal na polícia

Em 1992, depois de um curso de especialização de cozinheiro, Bachman abriu uma pequena empresa de propaganda. Segundo fontes de jornalismo investigativo, Bachmann foi acusado de invasão seguida de roubo em ao todo 16 firmas na cidade de Dresden. Antes do início da pena, Bachmann fugiu para a África do Sul. Quando lá descoberto, foi imediatamente deportado e teve que pagar uma grande quantia de multa. Mesmo depois de ter cumprido a pena, o (até ontem) líder do PEGIDA foi flagrado inúmeras vezes em posse de quilos de cocaína. Hoje ele ainda continua enrolado com a justiça, entre outros, em processo a ser sentenciado em breve, concernente à falta de pagamento de pensão alimentícia para seu filho.

Na segunda-feira (19) a simbólica passeata foi proibida pela política e pelo serviço secreto, alemão, que justificou a medida anunciando que haviam ameaças concretas de atentado contra Lutz Bachmann. Desde então, ele só se locomove com proteção policial.

No final da tarde da mesma segunda-feira, por conta da proibição, PEGIDA teve seu momento midiático, frente à mesma imprensa que difama como “imprensa mentirosa”, explicando que com a proibição de grande fator simbólico “o movimento não vai enfraquecer”.

O alívio primeiramente causado na população por não ter que assistir as mesmas imagens de homens e mulheres tomados de ódio por aquilo que não conhecem e semeando o medo que as estatísticas ratificam como infundado, de uma islamização da Alemanha, foi grande ainda na noite de segunda-feira.

No dia seguinte, os noticiários questionavam se, mesmo apesar da ameaça de atentado, o direto de manifestação, garantido pela constituição, não teria sido violado de forma inaceitável.

Merkel, durante uma coletiva com o presidente da república de Gana, foi indagada pelos jornalistas sobre o que pensa da proibição: “Toda a passeata, mesmo se eu não tiver de acordo com seu conteúdo, tem que ser protegida pelo estado, que é responsável pela segurança dos participantes.

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Através da publicação do conteúdo divulgado primeiramente na conta do Twitter do Anonymous (AnonNewsDE) e na sequência pelo tabloide Bild, a notícia ganhou o mundo midiático e no início da quarta-feira (somente 2 dias depois da coletiva que parecia inserir o movimento “no meio da sociedade”), a casa caiu.

Toda a equipe do PEGIDA se mostrou estarrecida com a publicação da foto que mostra Lutz Bachmann com o bigode e o cabelo engomado do Führer. Depois da divulgação, tentando remendar o rasgado, Bachman alegou ter visto a foto no salão onde corta o cabelo. Nela, era divulgado o lançamento do livro “Ele está de volta”, de autoria do jornalista Timo Vermes e lido pelo comediante Christoph Maria Herbst, que em sua longa carreira é useiro e vezeiro em caricaturar Hitler em seus programas de comédia na TV.

O livro, que é a estreia de Timo como autor, conta a história de um Hitler que no ano de 2011 aparece no centro de Berlim. Sem partido, sem guerra e sem Eva (Braun) e vê, com desgosto, uma mulher como chefe de estado.

Tentando sair pela tangente, Bachmann afirmou que Christoph Maria Herbst teria gostado da foto no seu perfil do Facebook o ratificando com um “like. Os advogados do comediante acusaram Bachman de calúnia e difamação e alegaram que “o comediante não possui qualquer perfil em redes sociais”.

Para se livrar da “tinta nazista”, Bachmann não cansa de declarar que o padrinho do seu casamento é turco e um dos seus melhores amigos, adeptos da religião do Islã. A sua ficha, entretanto, fala uma outra língua.

A ascensão em formato cometa e a queda vertiginosa é típica para políticos e auto-batizados representantes sem a habilidade do comedimento e que, seduzidos pela polêmica e no caso do PEGIDA pelo ódio e na carona do massacre de Paris, vão com muita sede ao pote. A queda era inevitável, mas que ela viesse tao rapidamente depois do “triunfo midiático” na tarde da segunda-feira, ninguém esperava.

Os Paradoxos

É através da “imprensa mentirosa” que Bachmann teve que divulgar sua derrota.

É através do direito de manifestação como um dos valores mór no país, que ele pode, durante 8 semanas, demonstrar livremente, espalhar o combustível, a pólvora intelectual da sua ideologia marrom. Sao pelas leis do Estado de Direito, que Bachmann obtêm às custas do contribuinte, proteção policial.

O paradoxo mór do PEGIDA é que, no centro político na cidade de Dresden, o percentual de estrangeiros é de 1% da população.

Como diz o artigo do redator do jornal berlinense “Tagesspiegel” (Espelho do dia):

Muitas pessoas se perguntam porque o PEGIDA é tão forte na cidade de Dresden. PEGIDA luta contra a islamização do ocidente, mas na Saxônia quase não mora nenhum muçulmano!  É tão fácil você encontrar estrangeiros na Saxônia quanto lojas de vinho na Arábia Saudita. Nesse caso, poderia se fazer lá passeata contra o abuso do álcool no oriente.”

Pode ser a que polêmica do PEGIDA continue depois da Era-Bachmann. Um argumento sólido para virar realmente uma tendência política, é improvável, também pelo movimento contra-PEGIDA estar crescendo e se espelhando nas ruas das cidades, inclusive de Dresden.

A figura de Hitler ainda é tao emblemática na Alemanha, que nao importa quantos chutes no pé algum político de durante anos. Bastou o nome de Hitler ou uma comparação com ele ou mesmo um elogio, é suficiente para o político cair no dia seguinte. A história da classe política da Alemanha está cheia de casos. O nome de Hitler é o limite. Até mesmo no movimento anti-democrático e racista do PEGIDA. Não foi o apelo de Angela Merkel para que os alemães não seguissem o movimento “movido pelo ódio”, mas a própria imaturidade política dos cabeças do movimento e isso, já é uma vitória para a democracia.

 

 

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