Sobre a Copa do Mundo, o 7 x 1  e feridas que nunca cicatrizam

Sobre a Copa do Mundo, o 7 x 1 e feridas que nunca cicatrizam

Fátima Lacerda

12 Junho 2018 | 11h24

Até hoje, se sabe onde e com quem se estava quando recebemos a notícia da morte da princesa Diana ou quando assistíamos o ataque nas torres do World Trade Centrer em 11 setembro de 2001, quando o Ayrton Senna virava um mito naquela curva no Grand Prix de San Marino ou quando aquele que tinha tudo para ser o Mr. Right, um dia expressou dúvidas sobre “o nosso futuro”, logo depois fez a fila andar e, na sequência, se ferrou.

Experiências traumáticas, não se esquece. Nem mesmo quando constata que aquele cara que parecia o Mr. Right., se transformou em uma pessoa medíocre que agora “está na pista” e que a vida dele deu pra trás como resultado por falsas escolhas. Do Land Rover 4.4. “tinindo” ele desagou na plataforma da estação de trem e de metrô da periferia. É como Cinderela, só que ao contrário. Quando você constata que ele te bloqueou no Twitter, achando que iria te atingir, aí, definitivamente, cai a ficha. O rascunho não se transformou em Arte Final. Que desperdício! Como dizia o filósofo  “Nós somos o somatório de nossas decisões e suas consquências“. Isso vale para a “vida real” e também para o futebol. Oh, Yeah!

Momentos trágicos ou momentos que teriam desdobramentos delineando todo o resto, não se esquece, mesmo porque, se mostra a necessidade de trilhar outros caminhos. E como a paralelidade do futebol e da chamada “vida real” são, muitas vezes, surpreendentes, aquela ferida aberta no dia em que a Seleção Canarinho levou a maior surra da história do futebol mundial, não se esquece. Nunca!

Emoção e Marketing

No preâmbulo da Copa da Rússia, aproveitando o excelente desempenho da seleção, agora e gracas a Deus comandada por Tite, nos jogos de qualificação, os setores de Marketing de marcas de cerveja, pernil, banco e etc tentam ingerir na alma dos torcedores sofridos, uma renaissance de um sentimento de “resgate” de “recuperação”.

Os carinhas na propaganda da Sadia prometem “Só vai dar Brasa!”

A Anitta e o Thiaguinho e Fabio Brazza nos ensinam, em retórica pseudo-filosófica sobre “um sentimento que nos resume”, “um drible que ninguém pode perder” e avisando que é “antes de botar a mão na taça, é preciso botar a mão na massa” e uma frase perigosíssima que afirma: “Ninguém pode parar a gente” teimando em ratificar aquela uma premissa obsoleta, cego para os níveis de mutação pelo qual o futebol mundial passou: Em termos técnicos, políticos, financeiros.

Depois então o que casal #Brumar voltou, os marqueteiros estão em regozijo. O tabloide alemão Bild, em matéria sobre as “mulheres e namoradas dos jogadores” (Spielerfrauen, em alemão) já anunciou: “O Brasil inteiro está ansioso esperando Bruna Marquezine”. O Buzzers não deixa de espiar na conta do Instagram da personagem da implacável princesa  “Catarina”, do reinado de Artena, na novela “Deus Salve o Rei”.

O vídeo os pombinhos produzido para ser veiculado por volta do Dia dos Namorados, aquece ainda mais o ímpeto marqueteiro. A “irritação” de Bruna com a entrevista veiculada no Blog do jornal “O Globo” em 11/06 logo cairá em esquecimento quando a bola começar a rolar nos campos da Rússia.

A modelo Izabel Goulart (33), namorada do goleiro Kevin Trap (27), companheiro de equipe de Neymar no PSG como também reserva do time alemão, também já é forte presença nas mídias na Alemanha.

https://www.promiflash.de/news/2018/06/10/kevin-trapp-und-vs-model-izabel-goulart-heissestes-wm-paar.html

Brasil Sil S il

Apesar das estatísticas serem claras quanto ao papel do futebol brasileiro no mundo, entre outros como o único país pentacampeão e o único país a ter participado de todas as Copas. Mesmo assim, a predominância do Brasil nos últimos anos vem minguando, o que custou a posição de primeiro lugar na lista da FIFA.

O presidente da CBF, o coronel Antônio Carlos Nunes já chegou na Rússia botando banca. Em conversa informal com ninguém menos que o presidente da FIFA, o ítalo-suíço Giovanni Vincenzo Infantino, o coronel já foi avisando: “Pode preparar a taca para o Brasil“. Nessas posturas é que se constata como os cartolas estão fora da realidade. Como essa mentalidade o FC Bayern chegou em Berlim para disputar a Final da Copa da Alemanha em maio deste ano, confiando na supremacia bávara e saiu do campo humilhado pelo Underdog, o super zebra, o Eintracht Frankfurt.

A Federação Alemã de Futebol (DFB na sigla) não é muito diferente de outros cartolas e instituições de futebol. Na situação de conflitos,quando membros do time núcleo da seleção como Mesut Özil e Ilkay Gündogan jogam tudo no ventilador porque foram apertar as mãos de um ditador turco e ainda os chamaram de “Meu honrado presidente”, criaram um debate sobre integração e lealdade às valores regentes na Alemanha e a sociedade inteira discute. A DFB acha que “decretando” o fim da “novela” que já dura três semanas, a mídia irá sossegar e os torcedores irão tomar comprimidos para o avanço de amnésia temporária e oportunista e torcer, torcer, torcer sem medo de ser feliz e apoiar a Nationalelf no plano Marshall de, a todo o custo, defender o campeonato.

Dois anos de zoeira

Os dois primeiros anos consequentes da tragédia da Copa de 2014 que era para ser a glória total para todo um país, para gera coes que sonhavam em assistir o torneio em sua cidade, em sua vizinhança e para os que estiveram no Maracaná em 1950 e foram testemunhas de época da tragédia contra o Uruguai, como o meu Pai, um holandês pernambucano, foram os mais difíceis para brasileirXs que vivem na Alemanha.

Até mesmo quando de visita em ministérios ou encontros de políticos de alto escalão ou quando simplesmente o tema era futebol, na hora de falar de Brasil surgia aquele risinho mais ou menos espaçoso sobre aquele famigerado dia. “Um resultado de 7 x 1 não existe” ouvi há bem pouco tempo de um fotógrafo brasileiro por ocasião de sua visita a Berlim e essa frase me causou um impacto do tipo Eureca, como se nela tudo se resumisse: Não foi “somente” o resultado de um placar depois de 90 minutos de jogo, mas o desabamento no estilo de um castelo de cartas, resultante de décadas de decisões errôneas da CBF. Quando ao fomento de novos talentos, quanto à política de comunicação, quanto à transparência. Os Marco Polo da vida e, antes dele, Ricardos Teixeira, uso esses nomes conscientemente no plural já que a lista de vice-presidentes da instituição preenche quase uma folha de papel em formato A4.

O desabamento de toda uma estrutura falida se resumia no semblante desesperado de David Luiz e nas lágrimas dos torcedores nas arquibancadas. Uma experiência de tal simbologia mór, você não esquece. Tristeza ou um gosto amargo (ou os dois) te segue sempre. Vida que segue? Tem que seguir! Mas nada será como antes.

De volta para o futuro

O futuro está logo ali, no próximo fim de semana quando inicia o torneio que levará o foco midiático mundial para a Rússia que inicia no torneio jogando com a Arábia Saudita.

A Seleção Canarinho já se encontra no país governado pelo Hardliner Vladimir Putin e como não poderia ser diferente, a mentalidade festeira já se manifestou. Fotos dos jogadores curtindo uma praia e fazendo Selfies com russas de biquíni de design mais do que duvidoso já circulam pelas contas do Instagram. Essa insustentável leveza dos meninos brasucas da um frio na barriga de quem vive em solos prussianos, onde a disciplina, a seriedade e 100% concentração são ferramentas que garantem a existência e o sucesso. Simples assim.

Em nenhum momento o Brasil irá abdicar de suas características culturais como, por exemplo, aproveitar a viagem de ônibus do Hotel para o Estádio e ir fazendo um pagodinho para esquentar os ânimos e passar o tempo. As idiossincrasias culturais continuam as mesmas. Até rolou por parte da CBF a permissão para que esposas e namoradas visitem seus amados no hotel durante o torneio, ao contrário do time alemão.

Toda a insustentável leveza cultural não esconde o medo absurdo que todos tem de enfrentar a seleção da Alemanha. Quando esteve em Berlim, para o amistoso que aconteceu 27 de marco no Estádio Olímpico, o técnico Tite, a melhor coisa que poderia acontecer para o futebol brasileiro, angariou ainda mais respeito da imprensa alemã. Tite vem mostrando habilidade na dobradinha entre conciliar o autêntico com o comedido e capacidade ímpar no exercício de análises, sem retoques nem meias palavras, declarou: “O medo da Alemanha é como um pequeno fantasma que você carrega no bolso“.

Ir à praia, ficar de boa é a forma que os meninos têm para lidar com os fantasmas e os medos. Se isso será suficiente para enfrentar as seleções da Alemanha e da França, essa outra também representa um fantasma lá atrás em 1998 com o “Apagão” de Ronaldo, o Fenômeno, isso só Deus e os Orixás que sabem.

O Rei Pelé declarou há dias atrás: “A Seleção ainda não está pronta“. Em conversa com meu amigo que mora no sul, um ex-jogador de futebol e brilhante analista, comentei a declaração do Rei da seguinte forma. “Vocês tem um Kaiser (Beckenbauer) e nós temos um Rei e ele falou isso”. “Essas lendas tem sempre que dar o seu peteco antes de um torneio”, disse eu em tom de lamúria. Norbert, revidou: “Talvez isso seja um recadinho para a Seleção, para que ele fiquem espertos”. E não é que Norbert tem razão! Mesmo assim, ainda vale o argumento que rege como uma crença espiritual na Alemanha, para a seleção que já provou isso várias vezes: “Uma equipe cresce dentro do torneio”.

Que a injeção midiática das marcas nai implique a crença no absolutismo do futebol brasileiro, que é uma ilusão e quem teima em continuar a acreditar nisso, não está longe de acreditar em Papai Noel.

Torcendo para o Brasil

Surpreendentemente alguns relevantes analistas esportivos acreditam na vitória do Brasil. O ex-âncora da TV paga Sky, o sangue azual Fritz von Thun und Taxis declarou numa roda de futebol, com ousada firmeza na voz que “O Brasil será campeão”, o que lhe angariou várias vaias do público presente.

Norbert, o meu amigo lá do sul, acredita que a França será a vencedora do torneio, o que me faz ter que repensar a nossa amizade já que além desse agravante, tem ainda o “detalhe” dele torcer para o FC Bayern de Munique. Ninguém merece!

Já o jornalista Sebastian Stier, da revista 11 Freunde (11 amigos) acredita que o Brasil está num excelente “Flow”, ou seja, numa boa vibe, numa boa onda. Ele me confessou que vem acompanhando todos os jogos desde que Tite assumiu o comando da Canarinho. “Mas eu devo confessar que tenho um carinho grande pela seleção da Argentina. O Messi é meu ídolo“, disse ele em voz baixa, ciente da rixa que existe entre os dois país. “Esquece isso!” revidei, em exímio desempenho em empurrar para debaixo do tapete o que não se quer ouvir. Quando se trata de futebol, a prussiana em mim perde ou seja, a sensatez e o comedimento perdem, perdem feito.

Minha colega, Elisabeth Schlammerl, jornalista esportiva radicada em Munique e autora da biografia do jogador brasileiro-alemão Cacau, declarou: “Vocês irão ser campeões, como recompensa por 2014”. “Oi?” disse eu irritadíssima no telefone. “Recompensa não, queruuuuda! Se conquistar será por mérito!“. Ela aceitou meu recado. Tirando o tom de uma leve arrogância de Elisabeth, é visível que muitos na Alemanha, especialmente os que estão insatisfeitos com a própria seleção, envolvida em perrengues mais do que caracol, veem o Brasil como merecedor da vitória e seria leviano não constatar um percentual pelo fator histórico do Brasil nas Copas como também e pela derrota do 7 x 1. Uma dobradinha.

Esquecer o namorado que não fez a entrega, o 7 x1 e outras tragédias não é possível, já que não se pode mudar o passado, mas com diz o sábio Leão-do-Norte, digo, Lenine: “Quem vai transformar a perda, em nossa recompensa?”. De certo uma boa recompensa é a postura dos alemães para tirar capital dessa tragédia para financiar projetos sociais no Brasil.

Semanas atrás, uma aeronave da Lufthansa transportou a rede que “engoliu” 5 gols naquela famigerada partida, uma doação do Estádio do Mineirão para o Museu do Futebol localizado na cidade de Dortmund. 

 “Sua doacao, seu pedacinho do gol”

A Ong DAWH, que presta assistência a doentes de tuberculose e lepra está fazendo uma campanha no seu site com o lema        “7 x 1, seu”. Interessados podem comprar pedacos da rede que será “porcionada” em 8.150 pedaços. Cada pedacinho custa 71 euros e venha acompanhada de certificado (de autenticidade) e com o número respectivo do pedacinho tirado. Atualmente, a ONG está em atividade nos estados de Amazonas, Maranhão, Mato Grosso und Mato Grosso do Sul. Além disso, a ONG mantém cooperação para capacitação com o Instituto Lauro de Sozua Lima, Bauru/São Paulo e com a  Fundação Alfredo da Matta em Manaus. 

https://www.dahw.de/unsere-arbeit/einsatzlaender-projektkarte/brasilien.html

Se a Seleção Canarinho entrar no campo com a bagagem do aprendizado de 2014, somando ao time de alto nível que Tite formou e uma percepção de que só será possível ganhar em equipe, é bem factível que os meninos fiquem bastante tempo na Rússia tendo que encarar as praias de lá, mas por um bom motivo: para mudar o rumo da história do Brasil nas Copas do Mundo.