Socialdemocratas alemães: o desespero e a última carta na manga

Fátima Lacerda

25 de novembro de 2016 | 01h49

O ex-chanceler Willy Brandt (1913-1992) e Herbert Wehner (1906-1990) esse memorável chefe de bancada dos socialdemocratas, assim como o também ex-chanceler Helmut Schmidt devem estar dando cambalhotas na sepultura.

O partido que escreveu história na Alemanha e que, até pouco tempo, ainda se podia auto-definir como “Partido popular”, vem caindo, vertiginosamente, nas pesquisas de intenção de votos em âmbito federal. Em maio deste ano, em pesquisa o SPD atingiu a marca de 20% de intenção de votos, caso no “próximo domingo” os alemães fossem convocados às urnas.

Era uma vez…

Nas primeiras décadas do estado alemão, fundado em 1949, a dicotomia programática e o antagonismo de perfil e filosofia entre a União Democrática Cristã (CDU) e os socialdemocratas (SPD) era similar ao antagonismo hoje ainda existente entre democratas e republicanos nos EUA.

Tempos memoráveis os debates acalorados entre Helmut Kohl, que encorporava a classe média e, impreterivelmente, Willy Brandt, o intelectual exilado na Noruega, adepto das Belas Artes e de belas mulheres. Nesse time, também jogava o cabrão, o Patron da Baviera, Franz-Josef Strauss da União Social Cristã (CSU). O perfil desses expoentes políticos e figuras-chave da Alemanha do pós-guerra é o que falta hoje nos dois mais populares partidos: no CDU de Merkel e o SPD chefiado pelo Vice-Chanceler Sigmar Gabriel, pejorativamente chamado de “Siggi” e personagem constante nos programas de sátira política.

Falta de Perfil

Bem antes de Merkel, no contexto da política de imigração “escorregar” para a esquerda e deixar o centro político (Mitte) emburacado ao mesmo tempo que “roubava” itens que até então faziam parte da espinha dorsal da política socialdemocrata, o SPD já sofria de um problema crônico de recursos humanos. O que mais incomoda os eleitores em tempos do terceiro mandato de Angela Merkel é a falta de diferença, a falta de perfil dos partidos. O atual governo, onde o CDU governa com o SPD como “parceiro júnior” é a melhor prova de tinhosa tendência.

O SPD e o Labour – Schroeder & Blair

A penúria em que o SPD hoje se encontra, começou lá atrás durante o governo de Gerhard Schroeder (1998-2005) em coalizão com os Verdes.

Em 1999, o então chanceler Schroeder e o ex-premiê Blair divulgaram um pronunciamento conjunto sobre “A nova Socialdemocracia europeia”, onde os dois chefes de estado expressaram suas percepções sobre o “British Third Way” e da parte alemã, o “Neue Mitte”, (o “Novo centro”, pleiteando o “pragmatismo livre de ideologias” e ousando tons “neo liberais”, onde o Estado deveria ser menos solicitado. Depois disso, Schroeder, com a maioria nas bancadas do parlamento, aprovou uma histórica reforma social que carrega, até hoje, o nome de “Agenda 2010”, onde privilégios do Estado Social foram radicalmente cortados. O pacote continha inúmeros itens, porém o mais doloroso deles foi a junção do seguro desemprego e do seguro social, para pessoas com rendimento baixíssimo. Essa medida causou um êxodo, sem precedentes, em toda a história de mais de 100 anos do partido.

A penúria de hoje

O chefão do SPD, Sigmar Gabriel acumula também o cargo de Vice-Chanceler e de Ministro da Economia jogou no ventilador premissas, até então, sagradas dos socialdemocratas que pregavam a justiça social como a sua maior bandeira. Gabriel, sem medo de ser feliz viaja para a Arábia Saudita, para o Irã, senta na mesa com ditadores para fechar contratos milionários entre a Alemanha e esses países, tudo isso com o aval da chanceler. Mais um indício para os efeitos claros de “pasteurização” dos socialdemocratas.

Merkel não dorme no ponto

Há meses o SPD não consegue decidir quem será o candidato a chanceler nas eleições em setembro de 2017. Gabrie? Além de ser o político de fama de trocar de posicionamento como troca de roupa e se detentor de um percentual de empatia no nível de Ground Zero ele é odiado pelos alemães e não teria nenhuma chance de ser eleito.

Às beiras do quarto mandato, a chanceler exibe claros sinais de “cansaço de governar” no preâmbulo da campanha eleitoral que será acirrada como a Alemanha só conhece da época de Kohl e Brandt. Ainda há o agravante causado pela ameaça da partido populista de direita, Alternativa para a Alemanha (AfD), que atualmente contabiliza 15% de intenção de votos, estar representada no parlamento; o que, com certeza, irá mudar a constelação partidária na Alemanha expressado com relevante “escorrego” para a direita.

O vento que sopra lá de Bruxelas e o “Mr. Europa”. 

Lá do centro burocrático da UE, o SPD tem o seu último coringa: o atual presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz. Depois de muitos anos atuante em Bruxelas, dando vários tiros no pé e tendo que aguentar o presidente da comissão e o ex-premiê do paraíso fiscal, Luxemburgo.

A última carta na manga

Depois da declaração da chanceler em querer pagar pra ver uma quarta vez, e com o teimoso protelar de Gabriel se ele mesmo vai se candidatar, Martin Schulz optou pela estratégia de que a melhor defesa é o ataque. Na noite de quarta-feira (23) as agências de notícias divulgavam “o intuito” de Schulz de deixar o circo político europeu e ir para “República de Berlim”. Schulz, que em Janeiro deixa o parlamento europeu e muda para Berlim, irá se candidatar pela região da Renânia do Norte Vestfália e será o número 1 da lista do partido.

A tábua de xadrez

Com a candidatura do também socialdemocrata Frank-Walter Steinmeier na Assembleia Nacional Constituinte que vota o Presidente da República, sua vitória considerada certeira, é o primeiro adubo para a continuação da coalizão CDU, SPD. Assim o plano. Com a ida de Schulz para Berlim com sérias e indubitáveis intenções de se tornar Ministro das Relações Exteriores na “nova edição” da coalizão, só resta Gabriel abdicar de suas vaidades incontidas e abrir caminho para Schulz para ser o candidato oficial do partido e adversário de Angela Merkel.

O que o SPD não cogitou naquilo que a imprensa crítica alemã denomina de “distribuição recíproca de cargos” é que Martin Schulz é a personificação da autarquia e do “aparato burocrático”, como muitos alemães percebem a UE: como algo muito longínquo que decreta medidas que influenciam diretamente suas vidas.

Reações nas redes sociais .

Uma das mais procedentes foi a do usuário Jürgen Tißen no Twitter: “Schulz quer se candidatar para o Bundestag (o parlamento alemão). O desespero do SPD chegou ao ápice”, alfinetou.

Já o usuário Ronald Lässig, fazendo uso do #Hashtag Schulz, repetiu uma declaração de Beatrix von Storck, representante da AfD no parlamento europeu e dama-de-ferro do partido: “Martin Schulz irá trazer mais eleitores para a AfD; ele encorpora a arrogância da UE“.

O que sobrou para Gabriel?

Para o chefe dos socialdemocratas só resta mesmo angariar um percentual dos delegados na próxima convenção nacional do partido com o respaldo suficiente para conduzir o partido durante a, provavelmente, mais difícil campanha de sua recente história além de, mesmo contrariado, ter que seguir a premissa do hardliner Herbert Wehner: “Primeiro vem o partido. Depois a pessoa”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: