Solidariedade preenchida com conteúdo: Livros para todos!

Fátima Lacerda

27 de julho de 2016 | 07h17

Para quem é socializado abaixo da Linha do Equador pode ser tornar um verdadeiro choque cultural a obsessão que os alemães tem por livros, não primeiramente como possibilitade de adquirir conhecimento, mas de se “esconder” do mundo. De poder ficar quieto.

Na época pré-globalização, quando os androids e os iPhones ainda não haviam tomado conta de todos os âmbitos da relações pessoais e corporativas, o metrô de Berlim parecia uma sala de biblioteca. Pessoas “escondidas” através de jornais, então em forma de papel ou livros, livros, livros. De todos os tamanhos, capas, temas, cores. Um sobre filosofia, outro um romance daqueles comprados nas bancas de jornais ou mesmo livro de auto-ajuda.

Na minha época de faculdade, na qual inevitavelmente andava todos os dias de metrô, era muito deprimente. Nada daquela interação que existe nos metrôs de Paris e da capital carioca: Via-se um povo já um povo sisudo (especialmente nos meses de frio que não se reduzem ao calendário do inverno) e “escondidos” com a cara atrás de um jornal ou de uma revista.

Quantos casamentos já não foram por água abaixo, porque o companheiro inseparável do marido na mesa do café da manhã era a revista “Der Spiegel”, antes do período pós-globalizado, um ritual religioso em comprá-la nas primeiras horas de segundas-feiras. Quando ela começou a sair no domingo, a tragédia se fez completa. Nem o (em terras alemães) sagrado ritual do café da manhã de domingo estava salvo. Quantas DRs foram adiadas devido ao livro que, obrigatoriamente, se precisaria terminar? Quando indóssil e impaciente, reclamando de estar sofrendo de monotonia, Christian dizia: “Vai ler um livro!”, o que, nas entrelinhas significa: “Pra sossegar e também me dar sossego”. Nessas horas ele me lembrava. Aha. “O meu marido é alemão”. Em recente passagem pelo Rio, na Orla marítima, sempre no mesmo Quiosque, uma criatura com a cara enfiada no livro, muchila ao lado da cadeira de plástico e um ursinho de pelúcia pendurado na mochila. Logo de primeira, a minha antena já fisgou o fenômeno ao mesmo tempo que, com ele, se vislumbrava um abisco turístico-cultural. O cara era alemão. O dono do Quiosque me confirmou. Só um extra-terrestre é que atravessa o Atlântico e frente à beleza estonteante da maravilha carioca, enfia a cara num livro!

Não faz muito tempo, a mídia alemã divulgava lista de livros para quem fosse sair de férias e essa é uma característica que mostra o quando a Alemanha é, culturalmente, muito antagônica ao Brasil. Quem, em sã consciência leva livros para ler nas férias? Quem faz isso com uma disciplina prussiana? Os alemães! Agora os livros podem ter formas de E-Books, Tabletts ou o escambau, mas a leitura é a forma dos alemães, assim minha constatação de caráter empírico, de mandar o mundo às favas ou não ter que se relacionar com ele. “Ler é como sair de férias” ensina um provérbio popular.  Nada contra ler um bom livro. Eu mesma, numa das visitas no Brasil, fui presenteada pela Creuzette com a obra-prima “O Xangô de Baker Street” de autoria de Jô Soares. Não conseguia tirar o livro da mão, até mesmo no metrô, mas fazer da leitura um fator de exclusão no espaço urbano pode te provir de muitas experiências surpreendentes e enriquecedoras. Mesmo em tempos de terror e de ódio. Não há nada mais interessante e instigante do que interargir com seres humanos. 

WP_20160726_19_21_03_Pro

Solidariedade

A solidariedade é uma palavra que precisa ser preenchida com conteúdo. Com vida. Foi em Berlim que eu aprendi o real significado dessa palavra, apesar de todas as mazelas que Berlim tem, solidariedade é um posicionamento político. Poder ser recheado de alarde, gritos irados com o governo alemão sobre a política de refugiados de Angela Merkel ou simplesmente aquilo que eu chamaria de “solidariedade silenciosa” no exemplo de uma cabine telefônica contendo livros de diversos temas para quem quiser pegar, levar, devolver ou não.

WP_20160726_19_21_20_Pro

Não tem aviso e nem recadinho como fazer. Fica a critério da auto-responsabilidade, a auto-censura. Livros como instrumento de participação, inclusão para quem não pode passar na livraria e comprar uma pilha. Tem solidariedade também em forma de geladeira pública. Quem tiver alimentos a doar, os coloca ali e quem precisar, abre a geladeira e pega o que quiser, o que precisar.

A loja de alimentos de agricultura sustentável na minha rua, por exemplo, também exercita a solidariedade silenciosa, sem alardes, mas certeira. Todo o final do expediente, às 19 horas, as funcionárias deixam empacotados em alguns sacos, algo que restou dos alimentos. Para não jogar fora, o que na Alemanha ainda é de número absurdamente alto, elas deixam o que não foi vendido, para quem precisa. E só pega quem realmente precisa. Mesmo porque ninguém quer ser visto como “pedinte” e “ladrão de necessitados”.

WP_20160726_19_21_31_Pro

Essa cabine telefônica (veja foto) transformada em biblioteca pública fica na Leipziger Strasse, na ex-partde oriental da cidade e pertinho de Alexanderplatz.