Spielberg, Hanks, Merkel e 3 dias um cenário de Guerra Fria

Fátima Lacerda

01 de dezembro de 2014 | 11h12

Handout-showing-Spielberg-speaking-with-Merkel-as-Hanks-at-a-set-at-Glienicke-B.jpg©Reuters

Quando o termômetro anuncia 3 graus negativos e Angela Merkel abdica de sua Feierabend (horário depois do expediente) é porque o motivo ou é sério ou tem repercussão mundial.

Durante 3 dias no final de semana, foram realizadas cenas externas de “St. James Place“, um thriller de espionagem dirigido por Steven Spielberg e protagonizado Tom Hanks. A assinatura do roteiro é dos irmãos Cohen, o financiamento bancado por inúmeras instituições de fomento da Alemanha, somando um valor de 3,7 milhões de Euros. “De quebra” a Medienboard Berlin Brandenburg adicionou 500.000 Euros. A Medienbord segue o objetivo de fortalecer cada vez mais as cidades vizinhas de Berlim e Brandemburgo como localidades propícias para grandes projetos cinematográficos além de oferecer a infraestrutura de Hollywood e por valores bem mais em conta.

As cenas internas do filme que está marcado para estrear em dezembro de 2015 estão sendo rodadas nos estúdios Babelsberg, o ateliê de filmagens mais antigo do mundo e o maior da Europa. Entre as últimas produções realizadas aqui, estão “Caçadores de Obras-Primas” , e o “Grand Budapest Hotel”, os dois exibidos na Berlinale deste ano.

Vocês são o melhor estúdio do mundo”, atestou certa vez, Matt Damon. “A cidade-cinema Berlim oferece todo o tipo de possibilidade de cenários originais e o estúdio Babelsberg é de fácil acesso”, atestou o cinegrafista Michael Ballhaus.

Quando o fomento da producao vem de Berlim, isto é acoplado à obrigatoriedade de que o filme seja rodado em 50% na cidade que proporcionou o fomento. Nesse caso, entretanto, a obrigatoriedade não se faz necessária.

A ponte dos agentes secretos – Glienicker Brücke

O Muro de Berlim, Spielberg mandou reconstruir na cidade polonesa de Breslau. Filmou na ex-prisão da polícia secreta da STASI no bairro com o nome quase impronunciável de Hohenschönhausen. Transformou a alameda Karl-Marx-Allee, objeto de prestígio arquitetônico de Berlim Oriental, na avenida Kurfürstendamm, no centro de Berlim Ocidental, o paraíso do consumismo e sonho de todo alemão oriental no tempo da Guerra Fria.

A principal cena do filme, a troca de agentes, foi filmada no lugar original, na Glienicker Brücke, impossível de ser construída como réplica. Até mesmo para um Spielberg. Efeito paralelo: a RDA voltou a exisitir por 3 dias.

Glienicker-Bruecke-Dreharbeiten-16-.jpg©DPA

No meio da ponte onde se dava a fronteira entre dois sistemas, se encontraram naquele 10 de fevereiro de 1962, o agente da CIA Joseph Murphy, seu advogado James Donovan (personagem vivida por Hanks) e Rudolf Abel o espião soviético que passou para o lado americano. Do outro lado da ponte, dois oficiais da KGB e Gary Powers, o piloto do avião “U2”. Donovan e o advogado Wolfgang Vogel, da Alemanha Oriental foram os arquitetos do plano de troca de agentes. Troca essa que se repetiu várias vezes depois.

O que Angela Merkel tem a ver com isso?

Fora que a biografia de Merkel passa, obrigatoriamente pela ponte Glienicker Brücke, a visitinha tinha uma janela temporária de 15 minutos, acabou durando uma hora e meia. Segundo o jornal berlinense Tagesspiegel, Merkel teve até a chance de assistir a gravação de uma cena que teria sido “preparada” especialmente para a ilustre visitante.

Sabendo da repercussão de sua foto em velocidade Blitz pelo mundo, Merkel abdicou, sim, de sua folga na noite de sexta-feira (28) e fez o trabalho de casa direitinho. Aquilo que os analistas alemães chamam de “boa imprensa”.


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