Tempos de campanha eleitoral e imperfeições germânicas

Tempos de campanha eleitoral e imperfeições germânicas

Fátima Lacerda

28 Agosto 2017 | 18h52

Dia 24 de setembro, alemães serão convocados às urnas e isso, em tempos de avançada da mazela que o jargão chama de Politikverdrossenheit, caracterizada por quebra da convicção de que o voto pode mudar algo considerável em suas vidas para melhor. Do outro lado da tal famigerada estão os populistas de direita e racistas de plantão. Esses tem seus lemas de campanha midiaticamente requentados juntando o aumento de criminalidade com a “Crise dos Refugiados” e seu ápice em 2015 e usam como argumento os ataques que vem aterrorizando o mundo. Na manhã de segunda-feira (28) a imprensa estrangeira teve a chance de provar do veneno da candidata do partido reacionário, racista e populista de direita, “Alternativa para a Alemanha”(AfD, na sigla). Impecavelmente vestida, acompanhada de seu assessor de imprensa e muito bem preparada, a candidata respondia (ou não) as perguntas de 80 correspondentes.

O ápice do absurdo se deu quando ela, perguntada por uma jornalista americana, deu dicas para Trump parar de escrever no Twitter. Além disso, o partido que, segundo o atual prognóstico, irá fazer parte da nova constelação parlamentar.

Nesses dias, quem liga para o Departamento de Imprensa do governo alemão, um prédio localizado à beira do Rio Spree, rio que atravessa o centro de Berlim e pertinho da Estação Ferroviária Friedrichstraße, palco de momentos mais dolorosos da história alemã, irá ter que deixar chamar um bocado de tempo. Depois de umas 15 chamadas, uma voz em tom baixo atenderá. O timbre de voz, a fala pausada e com ar desconfiado remete a um quartinho dos fundos de qualquer lugar. Esse cenário me lembra o salão de beleza que minha avó mantinha no Largo de Marechal Hermes. Quando ela queria falar algo com as funcionárias ou algum assunto de família era para ser tratado, o lugar era no quartinho dos fundos do salão.

Eu gostaria de falar com o departamento para a imprensa estrangeira“, digo eu. Vale mencionar que existe também o departamento “imprensa alemã”, claro. “Qual é o assunto?§, pergunta a voz em tom desconfiado. “Credencial para o debate de TV dia 03 do 09”. “Seu nome, qual ´é?, pergunta o outro lado. Imediatamente me acomete a tal resignação corriqueira de que o outro lado da linha não irá entender o meu nome logo de primeira. Na melhor das hipóteses (e isso me salva da árdua tarefa de ter que soletrá-lo e em alemão existe um vocabulário especialmente para isso) ele irá fingir que entendeu e passar para o Chefe de Plantão no estilo “telefone sem fio” quando eu brincava com os filhos da Iara numa infância feliz e calorenta.

Quando finalmente o “Chefe de Plantão” atende, na maioria das vezes encontro resposta para meus anseios midiáticos e credenciais. Porém desta vez, querendo me credenciar para o único debate de TV entre a chanceler Merkel e seu adversário Martin Schulz, agendado para 03 de setembro. Quis saber se o local de envio para requerimento da credencial seria o Departamento de Imprensa do governo, eu, em águas de primeira viagem nesse quesito. “A Sra. liga lá pra sede do partido (CDU, partido de Merkel). Olho na página do partido e me surpreendo com as fotos dos responsáveis pela imprensa. Ligo pra lá. Imediatamente a ligação é atendida. Um voz de taquara rachada do outro lado da linha, me ensina: “Esse debate não tem nada a ver com o CDU. O pessoal do Departamento de Imprensa do Governo é que é responsável. “Esse foi o primeiro lugar onde eu fui tocar a campainha (usando um ditado popular) e eles me mandaram pra cá“. Senti um ar ainda mais taquara na voz da funcionária do CDU. “Isso é porque eles não tem ideia”, disse ela. “Então quem é responsável afinal? Já estou há 20 minutos na procura?”. “Liga pra lá (Departamento de Imprensa). Liguei de novo. Demora para atender e isso no meio do expediente. Enquanto o telefone toca é demolida a minha percepção de que, na Alemanha, tudo funciona perfeitamente ainda mais se for no âmbito governamental. Tento passar de fininho pelo primeiro obstáculo. Quando chego num outro “Chefe de Plantão”, esse muito competente, informa: “O requerimento de credencial é feito nas emissoras de TV“. Ao todo, são 4 emissoras e âncoras que participarão: O conglomerado de emissoras abertas ARD, a rede aberta ZDF, as TVs a cabo SAT 1 e RTL.

Receitas requentadas

Ao contrário da última campanha eleitoral, desta vez só averá um “duelo” na TV. Por fim, consegui achar o chefe de imprensa de TV ZDF, que respondeu meu Email avisando “a credencial já fechou há dois dias”. Depois que expliquei para ele a minha odisseia até chegar a ele, recebi a confirmação da credencial. Fim de novela. Por enquanto.

A equipe de 4 âncoras tentou mudar o formato do programa e a dramaturgia do programa, sugerindo um formato de perguntas e respostas como vimos no duelo entre Trump e Clinton. “Essa mudança possibilitaria mais espontaneidade e profundidade” declaram as emissoras envolvidas.

O ex-chefe redator da emissora ZDF, Brender, criticou a Chancelaria Federal afirmando que o acordo foi firmado “sob pressão”. Caso o formato fosse alterado, Merkel ameaçou não participar do debate que era para ser uma confrontação direta entre os dois e com menor intervenção dos âncoras.

Não se mexe em time que está ganhando e Merkel entra no debate com o “bônus do cargo” enquanto o social-democrata Martin Schulz precisa correr atrás do prejuízo. Schulz é o melhor candidato, um experiente no quesito “Europa”, mas seu partido não conseguiu gerar um clima de vontade de mudança política no país. Os alemães são por demais fetichistas da segurança para abdicarem da mãezinha, “Mutti” para “arriscar” um socialdemocrata. O paradoxo, é que Merkel é a protagonista da corrente da tal Politikverdrossenheit que se espalha pela país atravessando diversas classes sociais e faixas etárias. Só em seu partido ela foi, ao longo dos anos, neutralizando seus adversários. Um por um como numa tábua de xadrez.

Pesquisas

Atuais enquetes afirmam que 50% dos eleitores ainda estão indecisos em quem votar e essa é a esperança de Martin Schulz ao correr atrás do prejuízo na reta final, ou como ensina o jargão midiático “na fase quente da campanha”. Merkel toma parte no único debate só pra não dizer que não fez. A estratégia merkeliana de campanha é e sempre foi morna. Nunca mexer muito na m….para não feder mais. “A crise dos refugiados de 2015 não pode se repetir” declarou Merkel recentemente em entrevista á emissora Phoenix. Porém ela sabe, que esse “pacote” político e altamente questionável para deter os refugiados na ‘Turquia contra muitos milhões de euros junto à aperfeiçoada prática de deportação que protagoniza cenas dramáticas com crianças sendo retiradas das salas de aula por policiais federais e levada diretamente para o aeroporto.

Até maio passado, o governo de Merkel considerava o Afeganistão como “país de proveniência segura”. Somente depois de petições feitas nas redes juntadas à imagens do atentado em Cabul pressionaram o governo.

Merkel convida

A chanceler convocou para a terça-feira (29) a sua entrevista anual a imprensa. Tradicionalmente no final do verão berlinense. Segundo meteorologistas, a previsão é para 29 graus e quem acha que esse detalhe é pueril demais para um artigo sobre política, se engana redondamente. O clima, clima climático lá fora, especialmente em tempo de campanha, é usado como instrumento marqueteiro. Nenhum político gosta de dar uma coletiva com a chuva massacrando o asfalto lá fora e num lugar onde é frio durante 8 meses do ano, sol e calor são raridades.

Ao se apresentar à imprensa alemã e de correspondentes estrangeiros, a campanha eleitoral atinge seu ápice. Não se deve esperar nenhum perfil político, mas um discurso administrativo do curso de seu governo que fechou nesta segunda-feira em Paris, um acordo vergonhoso que, de fato, remarca a fronteira externa da UE para a África, lá, onde as câmeras de TV não chegam. Fechar acordo com Milícias da Líbia, país literalmente sem governo é sob o teto da ONU é resultado da determinação de Merkel de reduzir o número de refugiados, mesmo que esses agora, fiquem sob o domínino de tiranos africanos.

Mesmo que para a frustração de muitos, o comedimento merkeliano não permite a paralelidade com a campanha eleitoral entre Trump e Clinton. Quem amarga com esse fardo é o candidato Schulz que, recentemente, alegou: “Eu sou o chanceler ideal para a Alemanha“. O´über otimismo de Schulz é só uma gota d’água num trajeto perdido, mesmo antes das eleições.

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