Tentando passar a borracha na história, ministro austríaco decide demolir prédio onde nasceu Hitler

Fátima Lacerda

19 de outubro de 2016 | 13h51

Há meses, o Blog noticiou sobre o bairro de Braunau Inn na Áustria onde nasceu Adolf Hitler, mais especificamente sobre o perrengue envolvendo a casa, o prédio onde nasceu o ditador.

A pauta voltou à baila no momento em que Wolfgang Sobotka, Ministro austríaco da pasta do Interior declarou ao jornal “Die Presse” (A imprensa) que vai demolir o prédio.

O ministro se respalda em “sugestão” de uma “Comissão de Expertos”, da qual um dos membros é o historiador Oliver Rathkolb. Sobotka declarou que teria sido a comissão a ter se pronunciado a favor da demolição do prédio onde Klara Hitler deu a luz ao seu terceiro filho.

Depois de acirrada reação de historiadores e da repercussão na mídia de língua alemã como também nas redes sociais, o ministro austríaco tentou desacelerar: “Se você chama isso de demolição ou não, podemos discutir“, acrescentou que a “casa não deve de forma alguma permanecer da forma atual”. Em tom justificativo alegou querer “evitar que o local se torne ponto turístico para neonazistas” que, no passado já foram ao local somente para se deixarem fotografar em frente ao prédio.

Passado sombrio

Entre a anexação da Áustria pela Alemanha em 1938 e o estourar da II Guerra Mundial em 1939 havia, de fato, um turismo hitleriano e subvencionado para viagens a cidade de Braunau. Em frente ao prédio, nazistas colocavam flores e bandeiras e isso já també,  em 1934 durante o período do regime austrofascita.

A preocupação do ministro Sobotka é que haja um Vale a Pena Ver de Novo de “turismo marrom”* se a casa ainda permanecer como está e sem uma mudança de conteúdo e medida de desmistificação e pelo esclarecimento e conhecimento histórico, uma responsabilidade não “só” da cidade de Braunau, mas de todo um país.

O outro lado da moeda é que ninguém quer ter neonazistas na sua cidade e ter “manchado” o nome do país, mas Sobotka peca pela opção radical em querer demolir o prédio ao invés de seguir as recomendações da comissão em “desmistificar” seu caráter no interior, mas preservar a arquitetura, que é de importância incomensurável para as futuras gerações.

Exemplo a não ser seguido

Berlim cometeu exatamente o erro em se livrar rápido demais do Muro como espaço físico. Da perspectiva de hoje, a cidade vê a medida como um erro. As gerações que não viveram com o Muro e nem mesmo ouviram falar dele, tem imensa dificuldade em imaginar uma cidade dividida em espaço físico urbano.

Meias verdades

Membros da “Comissão de Expertos” contestam a versão do ministro Sobotka alegando que sugeriram várias formas de “desmitificação do prédio” como exemplo usá-lo como local para trâmites administrativos ou para fins sociais. Até mesmo foi sugerido uma nova concepção para a fachada. Especialmente o historiador Oliver Rathkolb declarou que a “demolição seria uma negação histórica da Áustria concernente ao nacional-socialismo“.

Hitler e sua cidade natal

Mesmo que a família já tenha se mudado dali poucas semanas depois do nascimento para a Rua Linzer Str. que era bem mais central, o ditador prestou homenagem ao lugar onde nasceu.

Em 1938, ele ordenou ao seu secretário particular criar um “Centro Cultural” no porão, centro esse que incluía também uma biblioteca. A escrita “Biblioteca Popular Branau” ainda permanece até hoje. Também em 1938 o ditador marcou ponto na cidade, desta vez já sendo calorosamente recebido por seus conterrâneos, logo depois da anexação da Áustria pela Alemanha.

Desde 1989 uma pedra de granito postada em frente ao prédio,ensina: „Pela paz, pela democracia. Fascismo nunca mais. Os milhões de mortos nos fazem lembrar“ (em tradução livre)

 Resquícios de Hitler em Berlim

A cidade de Berlim, a parte Oriental e Ocidental conseguiram um meio-termo aceitável para o Bunker, onde Hitler passou suas últimas horas de vida, magistralmente delineadas no filme “As últimas horas de Hitler” do diretor alemão Oliver Hirschbiegel e com um Bruno Ganz ao mesmo tempo brilhante, amedrontador e certamente o ator que melhor interpretou no âmbito da cinematografia contemporanea.

Somente uma placa nada espetacular exibindo a planilha do Bunker e os respectivos aposentos se mantém como memória. O lugar que é cercado por um estacionamento de moradores de prédios ali vizinhos evita um caráter sensacional do local que por grande ironia da história urbana que, por iniciativa do socialdemocrata e ex-chanceler Gerhard Schröder e que se cristalizou em 2005, fica atrás do memorial do Holocausto construído e homenagem e em lembrança aos judeus exterminados na Europa.

O prédio que atualmente ainda se encontra sob propriedade particular será desapropriado em breve para que o governo austríaco possa ter total autonomia para determinar o uso. O ministro Sobotka tem a chance única de procurar o consenso, fazer uso de um claro discernimento, da responsabilidade e da obrigação de não cometer o erro de tentar passar a borracha na história.

*(No jargão alemão a cor marrom é a cor que simboliza a ideologia nazista).