Livro “Tipicamente alemão?” revela perspectiva de jornalistas estrangeiros atuantes em Berlim

Fátima Lacerda

25 de novembro de 2016 | 17h02

O que o pós-globalizado fez com a hermética cultura alemã, país com incontestável fetiche de rituais? Ainda existem e persisten os rituais “tipicamente alemães?”

O café da manhã dos domingos, o dia de São Martin, o feriadão da Páscoa, o feriadão do Natal, esses que exigem meticulosa logística e cuidadosa preparação no cumprimento de inúmeros rituais. Nesses dias é preciso, digo, obrigatório, deixar as divergências de lado e cumprir o protocolo. 

A família do Christian, que é imensa com, ao todo, 5 filhos homens e os netos tem, todos os anos, um encontro de verão, um encontro no primeiro (ou segundo domingo do Advento) além do aniversário do pai (em fevereiro) e o da mãe, em maio. Depois do almoço de domingo no encontro antes do Natal e antes dos filhos debandarem para os 4 cantos da Alemanha, tem a ida obrigatória ao mercado de natal da vizinhança para comprar tortas que acompanham o café das cinco. Esse ritual é de cunho social e gastronômico; primeiro para mostrar pra toda a vizinhança a família muito famosa (o pai do Christian, socialdemocrata da velha escola foi prefeito de um distrito pertencente à região da Baixa-Saxônia, da qual a capital é Hanôver) e que faz juz à sua fama socialdemocrata e, apesar de há mais de 10 anos aposentado organiza, aula de alemão para refugiados, organiaza ajuda para os recém-chegados na ida às repartições além de alugar um quarto da casa para estrangeiros. Além de todas essas qualidades, é preciso mostrar para a vizinhança a família reunida. É um código que todos conhecem, aprovam, mas ninguém fala sobre isso ou ousa question´-lo, principalmente no âmbito de Natal. Esse ritual me pareceu procedente para ratificar o fetiche dos alemães pelos costumes e rituais.

Outros países, outros costumes

A editora Travel House Media, de Munique, se interessou em publicar um livro que exibisse impressões de correspondentes alemães no exterior e como eles lidam com as mazelas, idiossincrasias em solo estrangeiro com mais e menos intensidade.

O primeiro projeto foi formado por um grupo de correspondentes da emissora de TV, Deutsche Welle respectivamente de Londres, Tel Aviv, Marrocos e Moscou. As entrevistas am áudio foram gravadas e a equipe da editora subtraiu as declarações temáticas e criou o primeiro livro daquilo que, devido ao sucesso, viraria um projeto.”Outros países, outros costumes”.

Mathias Baxmann, jornalista atuante para a emissora de rádio Deutschlandradio Kultur e os editores de Munique se encontraram para delinear um novo projeto. Chegaram a conclusão de inverter o jogo e entrevistar uma galera de 25 correspondentes estrangeiros que atuam em Berlim.

Berlim chamando

Em março, recém-chegada da praia, ainda com as havaianas cheias de areia, fui no tablet para tomar conhecimento do que acontecia no mundo. Na minha caixa postal encontrei um email de Mathias que expressava o desejo de me entrevistar.

Depois de muito treinamento mental e disciplina prussiana, consegui implementar que, quando estou no Rio, Berlim  não existe. Isso mesmo. Não existe. Ahhhhh não ser quando o acaso mostra seu humor bem peculiar, como no dia em que  eu encontrei, na porta do meu prédio no Leme na Av. Atlântica, uma pessoa de Berlim que eu não gostaria de encontrar nem na própria cidade, quanto mais a 14.000 km de distância e ainda mais nos últimos e sempre dolorosos dias em solos cariocas. O mundo é pequeno!

No dia em que o email chegou foi o sinal que sempre vem quando faltam poucos dias para voltar para Berlim. Os chamados começam a se concretizarem em forma de telefonemas, encontros inesperados, “fantasmas berlinenses” que começam a me chamar de volta. Quando isso acontece, e pode-se apostar que acontece, eu sei que não demora muito e a ida para o Galeão será uma dolorosa realidade: seja no dia em que o Fluminense se torna o vencedor do Brasileirao, ou seja poucos dias antes do show de Mr. Stevie – Superticious – Wonder na Praia de Copa no Reveillon de  2012. Berlim calls. E Berlim é implacável. 

Quantas vezes eu já desejei chegar ao aeroporto e a moça do Check-in da Lufthansa me dizer que o voo pra Frankfurt foi cancelado e que só vai sar 2 dias depois. Dois dias a mais no Rio! Super! Ao contrário da minha Fata Morgana, a moça não menciona nada desse texto e desta cena que eu já decorei em sílabas e tons. 

A chegada do Email de Matthias me fez rir internamente por , mais uma vez ser obrigada a constatar, que o despertador prussiano é, mesmo infalível.

Duas semanas depois, a entrevista de áudio foi realizada. Ao todo 25 temas ele escolheu e queria saber minha opinião sobre: Carros, Receptividade Raiva, Paquera, Nudez, Café da Manhã, Dias de Domingo, Repartições, Pontualidade, Paquerar, algo que o alemão não aprende e por isso, não sabe fazer.

Sobre o tema nudez eu contei o maior choque cultural que tive, quando cheguei na Alemanha. Era verão de 1988, o sol a pino e eu, crescida na praia, precisava mergulhar. Como diz João, meu amigo vascaíno e ex-nadador profissiona e certa vez, disse: „Tem uma hora em que o corpo pede água!“. Mesmo sem balbuciar essas palavras, o sentimento era claro: eu precisava mergulhar, mergulhar, mergulhar!

Naquele domingo de verão e sol à pino, fui a um lago no bairro onde morava, no bairro de Charlottenburg. Os alemães deitados na grama, na companhia de amigos, cachorros e cerveja no isopor, se exercitavam na adoração do Deus Sol.

De repetente vejo de longe, uma mulher de cabelos vermelhos, e um cachorro na coleira, descendo a ladeira completamente nua, só de chinelo. O cérebro, impregnado com a percepção carioca do biquíni cavadão e tanga, entrou em conflito com aquilo que a retina teimava em exibir. Para piorar, ninguém chamou a viatura da polícia e ninguém atacou a mulher. Parou tudo!

Entre os entrevistados para o livro estão correspondentes do Irã, dos EUA, da Hungria, do México, do Taiwan, da Irlânda, do Brasil. 

O Oliver, do Irã, mas que está há bastante tempo em Berlim e que toda a vez que me vê e o tema é futebol, ela zoa sobre o 7×1 e desde então, não é me é tao simpático assim. Porém, sua observação sobre a capacidade dos alemães em receber em suas casas, foi sim, muito procedente e divertida:

Forma de receber convidados

Eu acho que os iranianos são o povo que melhor sabe receber no mundo. Comparando os iranianos, os alemães não são muito bons nesse quesito. Quando você chega na casa deles (os alemães) recebe um copo de água da torneira. Na melhor das hipóteses, uma xícara de café. O iraniano, por sua vez, iria comprar a metade da padaria para ter o que servir para os convidados“.

Ratificando o seu exemplo resultado de observação empírica, Oliver, desnuda a alma fria dos alemães: „Certa vez eu estive na casa de um colega em Nurembergue. Ele me botou pra dormir num sofá muito velho que estava na sala. Ao meu lado, dormia o cachorro da casa. Ao contrário de mim, ele tinha um travesseiro debaixo da cabeça. Eu tive que usar a minha jaqueta de couro como travesseiro. No dia seguinte eu tinha tanta dor nas costas que não pude andar direito durante 2 dias. No Irã, ao convidado teria sido oferecido a melhor cama da casa“.

Gentileza

Na página 81 do livro, ressaltei a diferença que existe entre os berlinenses e os bávaros, aqueles habitantes no sul do país. Peguei esse exemplo exatamente porque não há na Alemanha inteira tal intransponível dicotomia, cultura, política e o escanbal entre as duas regiões.

Patriotismo

A finlandesa, Tiina Rajamäki declarou: „ O tema patriotismo é muito segregado na Alemanha. Existe o patriotismo exacerbado que chega até ao racismo. Por outro lado, pessoas que não se importam nada com seu país. A experiência da II Guerra Mundial ainda está muito arraigada na mente dos alemães“.

Pontualidade

A correspondente norueguesa, Asbjorn Svarstad, declara: „Eu gostaria que o mundo todo fosse tao pontual quanto os alemães! Isso é muito agradável e te possibilita planejar bem o dia. Ser pontual é também ser ético. Quando você passa, por exemplo 3 horas na cozinha preparando o jantar para convidados. Se eles chegam atrasados, todo o esforço foi em vão. Isso não acontece, se você convida alemães!

Em contrapartida, quado você recebe convite para ir a um churrasco no Rio de Janeiro, o horário divulgado é somente uma informação, sem nenhum compromisso. Quem chegar na hora marcada, irá ser condenado a colocar a mesa e ficar de assistente na churrasqueira.

Dias de Domingo

O suíço Benedict Neff declarou: „Nos dias de domingo eu sinto uma sensação estranha. Os lugares estão vazios! Antes das 10 horas da manha você não encontra ninguém na rua. Somente durante a janela temporária entre 12 e 18 horas. Já ouvi de vários alemães que dize que não gostam de estar na rua após as 18 horas. Nisso, eles são parecidos com os suíços“.

Os alemães e seus canhões

O verso na canção do fenomenal Chico Buarque, ainda mantém sua atualidade.

O Ike, lá do Balneário de Camboriú, diz que os alemães „colocaram os canhões na garagem“, mas eu discordo. Os canhões agora tem outras embalagens: são mais sofisticados, por vezes pérfidos. Ao mesmo tempo que mais escondidos, provam grande eficiência.

O livro foi lançado em outubro. A festa de comemoração de lançamento, na terça-feira (22.11.) foi num Café no bairro de Prenzlauer Berg, o solo de diversidade cultural do leste de Berlim.

O evento, repleto de alemães se deliciando em ouvir a percepção de estrangeiros sobre si, debateram sobre a falta de capacidade dos alemães em flertar, os cariocas chamam de azarar, cantar. Um tema desse imenso teor pueríl pode ocupar pessoas durante horas. Em nenhum outro país as pessoas queimam pestanas sobre isso. Em outros solos essa capacidade é trazida no DNA cultural e passado de geração a geração.

Tatiana Firsova, correspondente russa, mostrando todo o seu desagrado para essa penúria, alfinetou na página 52: “Meu Deus, eu nem sei como as famílias se formam na Alemanha. Através da paquera é que não é. Na Alemanha, quando você, como mulher, é  parquerada por um cara é por um louco varrido ou por um velhote“, reclama.

Desde 10/11, sempre as quintas-feiras às 17:50 hs (horário local), os áudios das entrevistas, editados por temas, podem ser ouvidos, ao vivo ou, na sequência no Podcast no site na emissora de rádio, Deuschlandradio Kultur.

PS: Ratificando a penúria de ter o nome exótico de Fátima, na Alemanha, o meu nome saiu publicado como “Fatíma”, com o acento no lugar errado.

http://travejável-house-media.de/

http://www.buecher.de/shop/buecher/holiday-reisebuch-typisch-deutsch/broschiertes-buch/products_products/detail/prod_id/45551927/

http://www.deutschlandradiokultur.de/suchergebnisse.2544.de.html?search%5Bword%5D=typisch+deutsch%3F&search%5Bsubmit%5D=1

Segundo Podecast: Tema “Cafés” na Alemanha:

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.