Tiros na Basílica de Berlim exibem um Zeitgeist de quebra de premissas e certezas

Tiros na Basílica de Berlim exibem um Zeitgeist de quebra de premissas e certezas

Fátima Lacerda

03 Junho 2018 | 17h35

©Fabrizio Bensch/Reuters

O domingo (03) na Alemanha foi surpreendentemente conturbado. A chamada Sternfahrt em Berlim (passeata que vai até o monumento com a Deusa Vitória  no topo e conhecido através do filme “Asas da Liberdade”), é a maior passeata de bicicleta do mundo e que acontece anualmente desde 1977 é um evento ansiosamente esperado no calendário de fim de primavera.

Na edição de 2018, o lema, além do moti “Andar de bicicleta nao causa poluição” (em tradução livre) pleiteava mais segurança e mais tolerância para ciclistas na capital, que cada vez mais se torna cenário do ódio entre os motoristas de carro e os ciclistas no dia a dia. O número de participantes foi aproximadamente de 20.000, como informou o promotor do evento, o Clube de Ciclistas da Alemanha (ADFC, na sigla).

Os ciclistas se encontram, em diferentes horas e lugares anteriormente divulgados no mapa do percursos. Eles vem de todas as partes de Berlim e de adjacências, algumas delas já localizadas em Brandemburgo, cidade vizinha. Nada como atravessar o túnel, que de praxe é reduto de automóveis e pedalar pela roddovia A100! Esses formam os dois Highlights dessa passeata curtido por gente de todo o tipo, proveniência, idade e gostos. Uma linda manifestação de Freiheit, liberdade em cima de duas rodas em Berlim.

No aeroporto de Hamburgo (norte do país), houve um apagão que durou horas e resultou, além de uma #Hashtag entre os temas mais discutidos, no Twitter, muito transtorno para quem queria chegar em Hamburgo e embarcar para voltar para casa.

Mobilidade urbana

Ao redor do Portão de Brandenburgo, o “Festival Meio Ambiente” arredondava o domingo de confraternização e conscientização sobre mobilidade urbana, bicicletas de material reciclável e venda de acessórios para ciclistas.

Tudo indicava que o domingo de primavera fosse sem atropelos, mas no Zeitgeist pós-globalizado a gente nunca sabe o que vem. Como diz a música do Lenine: “Ninguém faz ideia de quem vem lá”. No final de uma tarde até então, sem atropelos, as agências de notícias começaram a divulgar notas sobre tiros dentro da Basílica de Berlim e já se juntada a #Hashtag do Aeroporto de Hamburgo, Berliner Dom.

Ao ouvir as primeiras notícias, até que se prove o contrário, o medo de um ataque terrorista é o primeiro pensamento a queimar as pestanas. De novo faço uso da sabedoria leniniana, que procedentemente  constata que “O medo é uma linha que separa o mundo”.

Aproximadamente às 16 horas (horário local) os funcionários da Catedral de Berlim notaram um homem perto do altar, armado de uma faca e constrangindo os presentes. Em tom agressivo, ele aterrorizou quem ali estava, assim declarou o porta-voz da polícia berlinense, Windfrid Wenzel. Entre fiéis que procuram a igreja construída entre 1894 e 1905 pelo arquiteto Julius Carl Raschdorff no estilo da Alta Renascença e do Barroco, são também muitos turistas de outras cidades da Alemanha e de todas as partes do mundo que ali chegam para visitar uma das mais importantes construcoes de Berlim.

A basílica que foi primeiramente idealizada como uma igreja católica, passou por várias reformas ao longo dos anos sendo reformada e passado por vários estilos arquitetônicos e hoje é o centro do luteranismo na Alemanha e a mais importante igreja de Berlim. Em seu subsolo se encontra o mais importante túmulo de dinastias passadas. Entre o fim do século XVI e início do século XX, 94 membros da Casa dos Hohenzollern (Dinastia de reis, príncipes e imperadores), encontraram no subsolo da igreja, a sua última morada.

Tiros no altar

Mesmo antes do reforco policial chegar, aproximadamente 100 presentesforam evacuados do local. A Berliner Dom não é “somente” a casa de Deus, mas também palco para eventos de cunho político e é também palco para espetáculos de teatro com cunho religioso.

https://www.youtube.com/watch?v=uzn-xbVPrkw

Depois dos presentes terem sido evacuados, ficaram somente dois policiais (anteriormente chamados) com o austríaco que surtava, enquanto o reforço pedido, não chegava. Como os policiais não tiveram sucesso em acalmar o homem, um dos policiais fez uso da arma de fogo e atirou na perna do austríaco. Um dos policiais (até o final desse artigo ainda não haviam sido divulgadas informações mais concretas) foi atingido por uma bala. Os dois feridos foram levados para o hospital e não correm perigo de vida.

Motivos

Logo depois que a notícia vazou e antes que os ultradireitistas e populistas de plantão criassem uma #Hashtag e a temática dos refugiados viesse à tona como tentativa de explicação para todo o mal que acontece no país, a polícia berlinense mostrou bom senso avisando que a Polícia Regional (LDK, na sigla) está encarregada no esclarecimento do caso, afirmou que “até o momento não há nenhum indício de motivo terroristas” e pediu para “evitar especulações”.

Quebra de paradigmas

O pós-globalizado, esses tempos vampirísticos e insanos vem desafiando nossas percepções e nossa capacidade de entender e perceber fatos resultantes de uma dinâmica incontrolável.

Nem mesmo numa tarde de domingo, a igreja pode ser tida como um lugar seguro onde, como na Basílica, pode-se vislumbrar o teto que, por um milagre, não foi todo destruído durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, admirar o órgão com 113 registros e 7269 tubos em toda a sua beleza austera, simplesmente sentar para descansar da caminhada turística ou mesmo para quem está a procura de paz e sossego para digerir a semana que acaba de terminar e somar forças para os desafios que a próxima semana, decerto, irá trazer. A premissa do domingo como dia de sossego (e só Deus sabe como na Alemanha isso até bem pouco tempo era uma religião) se vê num processo de relativização igualmente imprescindível e obrigatório.

A estatística de 2018 realizada pela concernente à Berlim mostra que os roubos de apartamentos diminuirão consideravelmente assim como o número geral de delitos, o que desbanca Berlim do pouco honrado lugar de cidade mais perigosa da Alemanha. A partir de agora, Frankfurt é a cidade mais perigosa do país.

20.437 delitos tiveram Boletins de Ocorrência realizados em Berlim, 8,5% menos em comparação com o ano de 2016, o que coloca a capital em terceiro lugar, atrás de Frankfurt e Hanôver como a terceira cidade mais perigosa do país. Entretanto as estatísticas mostram que os delitos decorrentes de brigas, barracos e provocações aumentaram um terço a mais do que a última pesquisa. Em estações de metrô, ônibus e estações de trem, Berlim se mostra uma cidade a cada dia mais áspera, arredia e, sim, violenta no dia-a-dia. 

Depois desse domingo, na minha percepção, aquele altar nunca mais será o mesmo. É isso que o Zeitgeist do pós-globalizado exige o exercício constante na quebra tabus civilizatórios. Como digerir tiros dados no altar de uma igreja cravada no coração de Berlim e com toda a simbologia que ela adquiriu ao longo da atropelada trajetoria de uma cidade que foi fundada como uma cidade mercantil e tem, até hoje, em cada esquina, feridas mais ou menos cicatrizadas e ainda feridas abertas. Tudo isso junto e a quebra de tabus como tiroteiro no altar de uma igreja revelam de forma crassa, o deserto em forma de Zeitgeist, que temos que atravessar. 

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