“Trem do amor” convoca berlinenses para as ruas

Fátima Lacerda

25 de julho de 2015 | 07h38

“Não existe amor em SP”, diz a música eternizada pelo paulista, Criolo. Em Berlim, também não, assim a minha observação, de caráter empírico, mesmo porque, para “quem vem de outro sonho feliz de cidade”, é difícil desestruturar a percepção para algo ateu e totalmente adogmático como a percepção do amor nessas terras fincadas na Europa Central.

Porém, o que Berlim tem de sobra e também por motivos históricos, é solidariedade, consciência social e a premissa de que o particular é político, o político influencia o particular e que “Não existe nada de bom, se você mesmo não arregaçar as mangas “. Esse é o subtítulo da manifestação que acontece em primeira edição neste sábado (25) do verão berlinense. O terreno político se mostra propício e a passeata de protesto, necessária.

Segundo estatística divulgada recentemente pelo Ministério do Interior, os delitos “clássicos” como roubo de carros, assaltos em apartamento, diminuíram em percentual. Entretanto, o número de delitos de conflitos interpessoais de brigas que iniciam no metro por algum motivo bobo e acabam em morte,  aumentaram consideravelmente. A “tragédia grega” e todo a lamaçal midiático em torno dela,  o aumento de números de refugiados chegando na Alemanha e o tratamento que isso vem recebendo da classe política, criaram um clima de hostilidade assustador, clima esse que vem sendo cultivado com igual intensidade nas redes sociais.

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Quem faz?

Um conglomerado de promotores, músicos, profissionais da mídia que juntamente decidiu que “é preciso ir pra rua pelo amor”, assim a apresentação no portal, que acrescenta a necessidade de tomar posição frente à tantas manifestações de ódio que vem se espelhando pela sociedade. Como exemplo, eles citam o clima de ódio frente aos refugiados e requerentes de asilo político, também o movimento racista, Pegida de “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente” que até obteve a adesão de Rosalinda Pessoa Lindner (59), uma brasileira capixaba, casada com alemão e radicada na região da Saxônia e figura sempre presente nas passeatas de segundas-feiras na cidade de Dresden, berço do movimento racista.

Na coletiva de imprensa, concedida na quinta-feira (23), os organizadores fizeram questão de ratificar que “O trem do amor” (Zug der Liebe) é uma manifestação política por maior solidariedade social e pela tolerância sexual, porem não tem nada a ver com a concepção da “Parada do Amor”, um megaevento regado à música eletrônica, que durante muitos anos deu a Berlim a imagem a “Cidade da Balada”. Depois de muitas queixas sobre o volume de lixo produzido e deixados nas ruas e os transtornos causados pelo evento que de fato durava um fim de semana inteiro, em 2003 o evento teve seu fim decretado pelo Senado de Berlim.

Ao anunciar a primeira edição do “Trem do Amor” as especulações sobre similaridades entre os dois eventos, não tardaram.

Ao contrário da “Love Parade”, que tinha como ponto de chegada o parque Tiergarten, pulmão de Berlim, o percurso do “Trem do Amor” é pelas ruas da parte leste da cidade. O único aspecto que iguala ao mega eventos dos anos 90 é que os melhores DJ’s de música eletrônica do país vão garantir som para balançar.

Ao contrário da „Love Parade“ que instigava comemorar como se não houvesse o amanhã o „Trem do Amor“ não abdica do divertimento, mas foca na sustentabilidade e no questionamento sobre em que sociedade queremos viver. Agora e no futuro. “Trem do amor” tem um crédito de autenticidade. Hoje é o início, a intensidade e a forma serão avaliado, mas os organizadores prometem crescer no próximo ano e levar mais gente pra rua. Pela solidariedade, pela liberdade de ser e estar. Isso e o que Berlim realmente ama.

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