Tudo novo de novo

Fátima Lacerda

07 Janeiro 2016 | 15h02

O final do ano em solos alemães foi, para dizer ao mínimo, conturbado…

Poucos minutos antes do final de um, em todos os níveis, fatídico e catastrófico 2015, pipocavam nas redes sociais e nos portais de mídia a iminente ameaça de um ataque terrorista na cidade de Munique. 10 minutos para meia-noite, o Twitter da polícia bávara já informava que a Estação Central já teria sido evacuada. Como festejar o início de um novo ano com uma mensagem dessas?

Em Berlim, na Festa em frente ao Portão de Brandemburgo, pessoas de todas as partes do mundo já tomavam conhecimento da notícia através das redes sociais. De forma irresponsável, a prefeitura de Berlim teimou em manter o festão que, ano após ano, trava uma competição de números com o Réveillon de Copacabana. Porém, até agora, sem obter sucesso.

Manter a liberdade de ir e vir e não se deixar intimidar é uma coisa. Outra coisa é ter inúmeros de feridos e mortos para contabilizar quando o pior aconteceu. Felizmente não aconteceu nada, mas o massacre de Paris em 07 de janeiro e 13 de novembro, a crise dos refugiados e um subestimado engodo político chamado ISIS, mudaram a percepção em vários países da Europa, que tanto em 2015 e no início de 2016 é um continente desabando em suas convicções, suas ideias de países debaixo de um teto de valores comuns: Polônia, Hungria, Dinamarca, são alguns dos exemplos.

Berlinenses estão acostumados com guerra, revoluções e com renascer dos escombros, por isso, são mestres em dissimular preocupações, medos, colocando-os, com maestria, para debaixo do tapete. Porém, em rodas de discussão entre amigos e colegas, a percepção é unânime: que Berlim, até agora, não foi foco de ataque terrorista, é só uma questão de tempo.

Em comunicado divulgado pela Administração Jurídica do Senado de Berlim, enquanto no início de 2015, o número de salafistas na cidade era de 620, 330 dispostos e preparados para usar de violência. No final do ano, o Senado de Berlim e o Serviço Secreto Alemão (BND) já contabilizavam 670 Salafistas, 350 deles, radicais dispostos a fazer uso de violência.

A surpresa

Somente no dia 01/01 foram divulgadas notícias sobre o ataque sofrido por mulheres na noite anterior na Estação Central da cidade de Colônia. Mulheres prestaram queixa alegando terem sido atacadas, roubadas, molestas numa noite em que a polícia de Colônia fracassou por completo. O Ministro do Interior, Thomas de Mazière, adepto sempre de um discurso morno e vazio, saiu do armário e criticou severamente “o fracasso” da corporação na cidade.

Aos poucos foram “vazando” notícias sobre algo semelhante acontecido na cidade Hanseática de Hamburgo e com 4 dias de “atraso”, a mídia berlinense divulgou que mulheres também teriam sofrido ataque na noite de Réveillon.

Esses casos, mesmo em intensidades diversas foram reais. Logo depois da notícia do ocorrido em Colônia, que tem todo o perfil de um arrastão, mas ao contrário dos que acontecem no Arpoador em solos cariocas, foi muito bem planejado e concebido. Heiko Maas, o socialdemocrata Ministro da Justiça fala de “um novo patamar de criminalidade”.

Um bode expiatório

Logo os partidos populistas saíram do armário para reprovar a política de refugiados da chanceler Merkel. Desde a avalanche da imigração de refugiados, muitos deles homens solteiros, jovens e supostamente no auge de sua potência sexual (assim a paúra geral), a direita populista vinha alertando sobre “o perigo para mulheres alemães” serem alvo de canibais.

Esse oportunismo durou pouco. Logo a polícia descobriu o aspecto filigrano da logística na preparação do arrastão em várias cidades. Há 3 dias a imprensa se debate em formato de histeria cada vez que mais detalhes vão surgindo. Até mesmo um “código de comportamento” para mulheres, sugerido pela prefeita da cidade de Colônia, causou indignação nas redes sociais, incluindo Manuela Schleswig, Ministra da pasta da família e para assuntos infantis: “O tempo em que as mulheres não podiam mais usar mini saia, acabou”. Outras usuárias zoaram com a sugestão da prefeita em manter a distância do comprimento de um braço ao homem a chegar mais perto. “Já me sinto mais segura nas ruas, só por andar com o braço esticado”, disse uma delas. O chefe do partido Os Verdes, Cem Özdemir, divulgou na sua conta no Twitter: “Mulheres devem poder se sentir seguras onde quer que estejam”. Os dados até o final de quinta-feira (07), horário local, é que existem muitos roubos, 2 vítimas de estupro, 6 suspeitos e 121 queixas feitas à polícia. 4 dos suspeitos já ficaram conhecidos da polícia na própria noite de Réveillon pelo crime de roubo.

979485748-horst-seehofer-angela-merkel-csu-cdu-klausurtagung-wildbad-kreuth-3kY7zEexRYNG.jpg©Merkur

Tudo novo de novo

No início de 2016 a Alemanha continua no mesmo estado de convulsão política e social em que se encontrava no fatídico 2015. Como se nada disso tivesse importância, o partido bávaro, o CSU, realiza o seu showzinho anual na linda cidade de Willibad Kreuth à beira do lago Tegernsee. Anualmente, o encontro com as cabeças do partido e o chamado “Grupo CSU”, que representa o partido na câmara baixa do parlamento, o Reichstag, serve para um circo midiático e para análises sobre as próximas trilhas do partido que já mostra pânico frente à ida as urnas no país em 5 regiões durante 2016. Claro que a chanceler, convidada de honra, é um upgrade midiático para o encontro, que acontece logo depois que ainda na noite de Réveillon, o autodenominado “Rei da Baviera”, exigiu , de novo, a famigerada “Obergrenze”, o limite que ele estipulou entre 100.000 e 200.000 refugiados por ano. O que fazer com o refugiado número 200.001 (?) se perguntavam usuários nas redes sociais. Merkel foi a Kreuth, disse que não vai ter o número limite, continua teimando numa “solução europeia”. Tudo continua como Dantes no quartel de Abrantes, mas o comparecer da chanceler, mesmo que ele tenha ratificado ainda mais a distância político-programática entre os dois, valeu o regozijo midiático para egocêntrico da Baviera, que por razões que só mesmo a dialética bávara explica, consegue, em pleno 2016, governar sozinho com o respaldo de uma maioria absoluta na região no sul do país.

Brasil descobre a Alemanha

Não somente a cidade de Berlim tem sido tema frequente em novelas globais como “Império” e recentemente em “A Regra do Jogo“, quando a Nora, vivida por Renata Sorrah inventou uma mentira de “uma amiga de Berlim” que a teria chamado para tomar um drinque. “Ah, aquela chata Renata de Berlim!”, retrucou o invocado Gibson.

Hoje, na primeira hora, horário de Brasília, a Alemanha fez parte da edição do simplório “informativo” da rádio carioca MPB Fm, melhor destino quando se trata do melhor da música brasileira. Contrariando toda a praxe no perfil das notícias, que vai de algum escândalo envolvendo o Lava-jato ou algum arrastão acontecido no domingo anterior ou a notícia que que no contexto da próxima campanha eleitoral, não poderão ser usados desenhos animados, ou seja, algo que reflita diretamente na realidade dos ouvintes, hoje (07) o ÚNICO conteúdo do “informativo” de primeira hora foi o seguinte: “De acordo com informações do Ministério do Interior, a Alemanha recebeu um milhão de refugiados no país em 2015. Em sua maioria são sírios seguidos por iraquianos”. KRAK! A MPB Fm coloca em sua pauta, informações divulgadas pelo Ministério Alemão do Interior. Mistério sempre há de pintar por ai!

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PS: Esse artigo era para ser vinculado no início da manhã, horário de Brasília. Entretanto, o WordPress tinha outros planos…Bloqueou minha senha, até que eu fizesse malabarismo e precisasse de horas para liberá-la.