7 de setembro: um dia cívico em Berlim e Varsóvia. E Nova Iorque?

Fátima Lacerda

08 Setembro 2015 | 17h54

Com a crise político-econômica que, há meses, acomete o Brasil, ficou difícil encontrar o tom adequado para comemorar o aniversário da Independência sem promover über-festa, o que, no momento, não seria aconselhável e nem apropriado.

A capital da Europa 

Berlim representa a dialética do menos que é mais, do Understatement. Aqui, políticos abdicam do motorista com carro blindado e vão para o parlamento ou para seus escritórios, de bicicleta. Apresentadores famosos entram no metrô, pagam passagem assim como qualquer outro berlinense. Famosos do mundo da música se mudam para Berlim para curtir o anonimato  e a tranquilidade de um cotidiano simples. Charlie Watts, dos Rolling Stones, adora vir para Berlim e sair sozinho para fazer compras nas ruas de boutiques de grife na Rua Friedrichstraße. Mas também David Bowie, no final dos anos 70 e iníco dos anos 80 curtiu anonimidade na Berlim que gozava de um status de ilha.

Anualmente, a cerimônia de comemoração na Embaixada é um Highlight pra quem vive em “Terra Estrangeira”. Apesar das idiossincrasias (e elas são muitas!) dos brasileiros e brasileiras residentes aqui, seus graus de simpatia, de diferenças geográficas trazidas de um pais de dimensão continental; Nesse dia cívico somos brasucas.

Bem na eficiência alemã, a encarregada de âmbitos protocolorares da Embaixada coordena a lista e envia os convites com bastante antecedência para que haja tempo hábil de confirmar a ida e assim, planejar a logística.

Um “pulinho no Brasil”

Falar o idioma brasileiro, tomar guaraná, rever brasucas sumidos ou “escondidos”, pode ser muito simpático e divertido. Fazer contatos, ouvir histórias do ano que passou, agendar encontros ou passeios de bicicleta que, especialmente forem organizados por cariocas, nunca se tornarão realidade… Tudo isso, faz parte em poucas horas de um “pulinho” no Brasil. 

Ao ser perguntada quantos anos já estou em Berlim, depois da minha resposta, eu ouvi: “Ah, então você já é alemã!” A melhor resposta que já ouvi de um estrangeiro exatamente frente à essa pergunta, foi: “O meu coração é tão grande que tem lugar até para dois países”. Todavia, o rótulo disso ou aquilo não pode ser o que se almeja, mesmo porque, o rótulo nunca teve importância assim como também a cor do passaporte. Ser uma mistura de tudo o que se viveu e se sentir em casa em vários lugares do mundo e quando não, se surpreender como as culturas podem ser diferentes das nossas referências “de origem”, como dizem os franceses.

Para quem curte, a caipirinha é presença certa. Pode faltar tudo, menos caipirinha, que no quesito produto-brasil-exportação, infelizmente desbancou dois ícones culinários: o brigadeiro e a coxinha de galinha. Protesto!

Em tempos de marés boas, podia-se, além do clima de confraternização e poder cantar o hino brasuca sem ter que enfrentar uma partida de futebol na sequência, podia-se degustar a riquíssima gastronomia brasileira, que deixa saudades quando se vive no exterior.

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Esse ano, entretanto, o suspense era todo voltado para o cunho discurso que a Embaixadora Maria-Luiza Ribeiro Viotti daria num evento que acontece num momento tão difícil e de verbas cortadas pelo Itamaraty. O discurso não poderia ter sido mais procedente e adequado. De duração não mais de 10 minutos e num alemão de responsa, a Embaixadora provou sua inconstestável habilidade diplomática. Nada como alguns anos trabalhando nas Organização das Nações Unidas como enviada do Itamaraty, a melhor escola, onde volta e meia, a casa cai e a rixa entre países adversários apresentam sempre novos desafios para diplomatas.

O discurso foi sério, autêntico, não tentou botar panos quentes e muito menos tampar o sol com a peneira, mas não deixou de ilustrar a recém-visita de Angela Merkel ao Brasil, que apesar de estar em missão de cunho estritamente econômico, a visita da mulher mais poderosa do mundo pode e deve ser mencionada.

Mesmo que na agenda não tenha constado nenhuma conversa em cunho político entre Dilma e Merkel, isso não importa. Como dizia o pai do Euro, Theo Waigel, ex-ministro das finanças e do partido da Baviera, o CSU: “Depois que passarem os anos, ninguém mais vai falar de quanto custou a Unificação, mas sim louvar um grande feito histórico“. Guardando as devidas proporções geo-políticas: Merkel não fez história, mas sua visita veio a calhar para o governo Dilma, assim como livrou o Brasil de uma iminente isolação econômica devido ao ceticismo dos potenciais investidores.  Uma diplomata com a experiência da Embaixadora Viotti, não vai deixar de inserir isso num discurso.

Em pouco mais de um ano depois do fim da Copa da Mundo, estamos novamente nos preparando para receber o mundo. No ano que vem, no Rio de Janeiro, haverá os Jogos Olímpicos e uma expedição recente do COI constatou que a capital carioca tem todo o potencial para usufruir das construções depois dos jogos“, embarcando no efeito “Barcelona 1992“. Durante o discurso, não se ouvia um só mosquito (mesmo se houvessem alguns) na sala. Vários representantes das áreas de Indústria & Comércio, assim como políticos estavam ansiosos para ouvir o pronunciamento da Embaixadora como termômetro para novas investidas econômicas no Brasil.

landtagswahl-schleswig-holstein-torsten-albig-spd.jpg©Albig/Twitter

Ao meu lado, Torsten Albig, Ministro Presidente do estado de Schleswieg-Holstein, da qual a capital e sede do governo é a cidade portuária de Kiel (norte do país) e, na hierarquia, o convidado mais importante do evento. Aproveitei a ocasião para indagá-lo sobre qual seria seu interesse no Brasil. “Estamos sempre em contato com as Câmaras de Indústria e Comércio de vários estados”. Perguntei se o contexto da crise o faz relutante em iniciar agora os investimentos no Brasil. “Quanto maior o risco, menor são os investimentos. É assim que funciona. Mas estamos atentos ao desenvolvimento no Brasil. Além do mais, nós como cidade portuária, nos entenderemos fácil com as cidades portuárias brasileiras“, finalizou otimista.

Minha amiga, uma brasuca que vive há 47 anos em Berlim ficou encantada com o discurso da embaixadora, expressando um “Bravo!” e calorosos aplausos no final do mesmo. É isso que a gente espera: que a embaixada reflita o Brasil no exterior. Porém, nem tudo é Brasil na embaixada em Berlim. Com seu discurso e com a redução radical do número de convidados, com a redução da janela temporária para entre meio-dia e 14:30 horas, a Embaixada, coerente com a atual situação e se mostrou disciplinada no corte de custos e, de quebra, sublinhou a dialética berlinense. Encontrar uma festa de arromba e um buffet gigantesco, teria causado irritação e possivelmente grande desconforto para os convidados. São nas horas difíceis, que é colocada à prova a habilidade de “Empresariar crises”. A Embaixadora Viotti tem, como possibilidade de referência, a melhor delas: Angela Merkel. E como não aprender com aquela que agora é imbatível?

Outros países…outros costumes…

Em Varsóvia, a festa foi de arromba, não no prédio da embaixada, mas no Hotel Hyatt. No Buffet havia vtapá, feijoada e todas as iguarias doces que fazem parte da nossa memória cultural. Entre os convidados, 25 casais de brasileiros fazendo turismo na capital polonesa. A festa de arromba agradou, mesmo porque. Varsóvia tem outra cultura, outra história e uma percepção bem menos política do que um evento nesse âmbito pode representar. não é pra menos: Anos condenada ao ostracismo atrás da cortina de ferro e amordaçada pelo Pacto de Varsóvia e sua doutrina de um abdicar permanente, gera a ânsia da fartura e de pegar o que vier, principalmente se for grátis e se tratando de Brasil, o percentual de atratividade, só o céu e o limite. Assim como em Varsóvia, em Berlim foram cantados os hinos brasileiros e dos respectivos países.

Um rolé em Nova Iorque

O show de vários artistas brasileiros tinha o intuito proporcionar aos brasucas longe de casa, ver ao vivo e em cores, seus artistas preferidos ou quase, mesmo porque, quando você está longe de casa, qualquer show tá valendo, quando a saudade aperta e for god’s sake por que não o Fábio Júnior. Quando a saudade aperta no peito, a gente releva muita coisa, até mesmo um duvidoso gosto musical e até mesmo que já passou dos 20 e poucos anos..

Um mar amarelo vinha do uso mais do que inflacionário da camisa da Seleção Brasileira na esquina famosa de Big Papel. Entre uma canção e outra, Fábio Júnior pega de um brasuca na plateia uma bandeira, se enrola nela como se estivesse morrendo de frio. Vai ao microfone que se encontra em cima do banco, o pega e joga tudo no ventilador. Se deixou seduzir pela polêmica, pecou pelos palavrões (e não só por eles), mas o pior de tudo, foi fazer parte do coro e instigar à plateia a ofender em caráter imperdoável a presidenta do Brasil, a chefe de Estado.

https://www.youtube.com/watch?v=iMKXFb2vQzM

Que esse governo não vem mostrando falta crônica de soberania e vem capitulando frente ao desenvolvimento econômico é um lado da moeda. Mas também esse governo goza da legitimidade do voto secreto e livre então é com esse governo que é preciso dialogar. Que se pode reclamar e xingar o governo entre amigos e pessoas de confiança num âmbito particular, é claro. Assim como é jogar pérolas aos porcos, petistas ferrenhos que ficam em guerra e na fissura nas redes sociais, se declarando lulistas e petistas, defendendo-os como se tratasse de uma seita rígida, se auto-mutilam da possibilidade de, num outro momento, questionar suas convições ou até mesmo ousar em mudar de opinião. Aparentado com o Fábio Júnior é o Lobão, que não poupa nenhuma polêmica como se o mundo fosse acabar amanhã. Vamos combinar nessa Vida louca vida”: se ele for acabar, não é você que vai fazer o aviso prévio!!!

Fábio Júnior foi leviano, se deixou levar pela insatisfação de âmbito pessoal, polemizou, instigou a vergonha alheia e (talvez) o pior de tudo: não contribuiu em nada para um questionamento saudável, desses que uma jovem democracia possibilita e exige. Elogiou Obama: “Se eu morasse aqui, eu votaria nele”. Só faltou ele dizer que “tudo o que é bom para os EUA, é bom pro Brasil”. Assim, o complexo de inferioridade de apenas um rapaz latino-americano, teria sido por completo.

Que fosse uma frase, um comentário, mas fazer uso de palavrão, de ofensas e dizer que a “Dilma e o Dirceu deveriam procurar o que fazer” é pueril, é conversa de porta de padaria. FJ não entendeu ou não teve responsabilidade de refletir que, como pessoa pública ele é, em potencial, formador de opinião e isso pode ser muito perigoso e não aconselhável, mesmo porque quem vai tomar como referencial uma pessoa que já foi casada 6 vezes, o que não é necessariamente um atestado de tomar decisões certas. Não valeu nem a travessia do Atlântico, FJ! Se fosse o Milton, o escolhido para comemorar em Big Apple, ele teria esbravejado: “Eu sou da América do Sul e sei vocês não vão saber, mas agora sou cowboy, sou do ouro eu sou vocês, sou do mundo eu sou Minas Gerais”. Isso sim, é ser audaciosamente antropofágico e soberano, além de ter alegrado de forma leve e descompromissada, a galera presente, morrendo de saudades por cultura brasileira.