Um museu de cadáveres em Alexanderplatz

Fátima Lacerda

18 de fevereiro de 2015 | 10h45

death_wideweb__470x3330.jpg©Sebastian Rischer

Gunther von Hagens é médico, anatomista e criou uma técnica batizada de “plastinação “, mas o que o mais caracteriza, é a teimosia, a obsessão em expor o seu trabalho. Ele mesmo se considera um artista.

Tudo começou em 1997 na cidade de Mannheim, sul do país.

A exposição “Mundo dos Corpos” (Körperwelten, em alemão), composta de cadáveres minuciosamente preparados, já percorreu o mundo, mas von Hagens queria de todo o jeito um museu para eternizar a sua “obra” e o quis no lugar mais prestigioso do páis, num espaço urbano com efeito magnético ímpar igualmente para quem vive e quem está visita na capital, um caldeirão urbano: Alexanderplatz.

Várias barreiras judiciais tiveram que ser vencidas até o dia de hoje, dia da inauguração do museu. Na tarde de terça-feira (17) foi a vez da imprensa inspecionar. A partir de hoje, os mortais tem acesso ao local que fica nos pés da torre de TV em Alexanderplatz.

Em sua sentença, o juiz do Tribunal Administrativo de Berlim argumentou: “O que von Hagens quer expor são cadáveres. Entretanto, se os mesmos servem para um esclarecimento científico, eles poderão, sim, ser exibidos já que não poderão ser enterrados. Esse veredito vai de encontro à legislação funerária berlinense e contra a vontade da prefeitura do bairro de Mitte (centro da cidade).

O que von Hagens quer exibir é cadáver? Não é cadáver depois de ter passado pelo processo de plastinação, processo que garante o não deteriorar do corpo? É comércio? Ciência? Exibicionismo escandaloso e antiético? É uma possibilidade relevante de conhecer o interior dos nossos corpos? Todas essas questões alimentaram a mídia mais e menos séria. A revista Stern publicou um artigo com a manchete: “Dança dos mortos em Alexanderplatz. Von Hagens abre seu show de horrores“.

SebastianRicher4082169_1_0830bo-krperwelten_40.jpgSebastianRischer4082152_1_0830bo-krperwelten_50.jpgSebastianRischer4082153_1_0830bo-krperwelten_49.jpg©Sebastian Rischer

O denominador comum quando se trata de von Hagens é a polêmica, o escândalo e a quebra de tabus. O próprio, que sofre do Mal de Parkinson em estado avançado, já declarou que doará seu corpo para estudos e, na sequência, para plastinação.

Von Hagens fez e faz uso oportunista da ciência para satisfazer seu voyeurismo macabro através da exposição de cadáver preparados e colocados em cena. Ou com uma arma na mão ou prestes à arremessar uma bola de basquete na rede ou de casais copulantes ou um grupo de cadáveres jogando baralho ou um cadáver goleiro.

A obcessão do anatomista é macabra, levanta inúmeras relevantes questões éticas, por ele não esclarecidas, mas tudo indica que expor cadáveres é a tarefa de sua vida. Em presença física, a figura de von Hagens não se difere em nada dos cadáveres em exposição, algo no intermezzo do real e macabro, memo homem meio fantasma. Um olhar que faz congelar a espinha!

No centro nevrálgico de Berlim, decerto que o museu será um sucesso de público e mais uma prova de que a determinação pode vencer barreiras jurídicas. Ponto para von Hagens pela teimosia prussiana. Entretanto, esclarecimento da anatomia humana através da ciência é bem outra coisa daquilo que von Hagens declara fazer.

Links relacionados:

http://www.memu.berlin/

www.koerperweltendertiere.de