Um novo prefeito e uma perspectiva de abertura do Aeroporto Internacional BER

Fátima Lacerda

12 de dezembro de 2014 | 18h31

Desde quinta-feira (11) Berlim tem um novo prefeito. Michael Müller. O homem magrelo, de óculos e até dois dias atrás, Senador para Assuntos de Desenvolvimento Urbano, assumiu o cargo com toda a pompa e circunstância no prédio da prefeitura de Berlim, localizado no coração da cidade, em Alexanderplatz.

Quem pensa que Müller irá continuar a tradição festeira de seu antecessor, Klaus Wowereit, se engana. O socialdemocrata é o que o jargão chama de “ativista de escrivaninha”, um burocrata, tarefa que faz com grande competência e meticulosidade.

2877879629670305dmFlashTeaserRes2014101963.jpg ©Berliner Zeitung/Benjamin Pritzkuleit

 Um novo estilo de governo

Müller chega no governo com um confortável número de 87 votos, que somam mais do que a bancada dos maiores partidos do parlamento regional de Berlim que, em coalizão, formam o atual governo: o CDU (União Democrática Cristã) e o SPD, ao qual Müller pertence. Se alguém da bancada dos Verdes ou dos Piratas votou em Müller ninguém sabe, mas também, tanto faz. Fato é que o simpático e novo prefeito promete um novo estilo de governo. O jargão midiático alemão chama de “Neue Sachlichkeit“, um estilo focado naquilo que interessa.

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O primeiro dia de Müller no cargo da prefeitura não poderia ter caráter mais simbólico. O dia de hoje deixou vislumbrar uma perspectiva, bem mínima, mas uma perspectiva num projeto que estava parado e não fosse a teimosia da imprensa, quase esquecido.

BER2-format530.jpg©DPA

A obra de igreja

Klaus Wowereit batizou o projeto BER, do novo Aeroporto Internacional da região de Berlim e Brandemburgo como “objeto de prestígio” do seu governo e garantiu “acoplar o sucesso de sua administração à conclusão do mega projeto”. Mesmo não sendo engenheiro, Wowereit era membro da direção da Flughafen Holding, empresa fundada especificamente para a execução do projeto. Hoje se sabe, que Wowereit, várias vezes, fez vista grossa frente aos problemas que os eram reportados pelo então engenheiro. O projeto prestígio acabou sendo a sentença de morte política de Wowereit.

A Holding e formada pelo governo alemão, representado pelo Ministério dos Transportes (com 26%) e a cidade de Berlim e a de Brandemburgo (37% cada). Wowereit saiu do governo e deixou um elefante branco como herança.

Surreal

A novela em volta da demissão de Rainer Schwarz, ex-engenheiro do projeto se assemelha aos capítulos finais de um novelão, com direito a 100% de suspense no que diz respeito à forca tarefa para a entrega oficial de sua carta de demissão. O advogado da Holding, assim como o oficial de justiça, imprimiram 10 cartas em original. Ao chegarem no suposto local de residência do engenheiro, encontraram várias caixas de correio presas somente por um barbante. Somente em 1 delas constava o nome Schwarz. Por via das dúvidas, o advogado colocou em casa caixa postal disponível, uma original da carta de demissão. No dia seguinte, em viajem de controle, o oficial de justiça constatou que a caixa postal com o nome Schwarz estava vazia. Em todas as outras, ainda estavam as cartas, mas todas com o envelope aberto. Viagens e envio s pelo correio com AR nada adiantaram. No final de tudo, a justiça declarou a demissão de Schwarz como ilegal. Em notícia divulgada hoje na imprensa berlinense, a Holding abdica de recorrer a essa decisão.

O que os berlinenses não entendem é que depois de muito fracasso no projeto, Schwarz ainda terá uma pensão robusta pela quebra do contrato, que, seguindo a tradição do feltro berlinense (que vem desde o escândalo dos anos 80 que arruinou com as finanças da cidade), não estava acoplado a nenhum percentual de êxito no empreendimento BER.

O dia seguinte

Sintomático no segundo dia seguinte da posse de Müller, a reunião da direção da Holding ousou anunciar, no final da tarde de hoje (12) “uma fita temporária” para a abertura do BER- Aeroporto Internacional Willy Brandt. “Segundo ou terceiro trimestre de 2017”, foi a notícia do dia.

Hartmut Mehdorn (72) ex-chefe da Companhia Ferroviária Federal (DB) e da companhia aérea Air Berlin, é o (mais ou menos poderoso) chefão que entrou como o salvador da pátria, entretanto hoje a percepção que impera é: Ruim com ele, pior sem ele. Mehdorn expressou na reuniao-maratona de hoje o plano de aumentar o aeroporto (que já se mostra pequenos demais mesmo antes de ficar pronto) com a construção do pier na parte norte do terreno.

A principal mazela na construção do BER é o sistema de proteção contra incêndio, mas também vários escândalos, envolvendo operários do leste Europeu contratados por firmas terceirizadas e tratados de forma indigna e não compatível com as leis de trabalho vigentes no território da UE, além da descoberta, pelo tabloide Bild, de que um funcionário muçulmano e membro do núcleo de Salafistas em Berlim, trabalhava no controle da área de acesso ao aeroporto para entregas de material de construção. O funcionário foi descoberto por um controle de rotina.

As histórias, mais e menos trágicas do BER, são inúmeras. O volume de verba desperdiçado, incomensurável.

A reunião-maratona tem o efeito paralelo de suprir a sede da imprensa em poder divulgar uma nova data de inauguração e se banhar no caldo da especulação do que pode ser ou será. Entretanto, acostumados com a imperfeição de grandes projetos, os berlinenses estão céticos. Muitos deles duvidam que o aeroporto será aberto algum dia. No Facebook existe um grupo que pleiteia a permanência do Aeroporto de Tegel, construído na Berlim da época do muro e que, contra todos os prognósticos, vem topando o desafio. Em 2013, 20 milhões de passageiros embarcaram no aeroporto por vezes atestado morto.

A novela continua

Mesmo com o novo prefeito, que promete um estilo “focado no que importa”, a “Novela BER” ainda promete vários capítulos. Por exemplo: A previsão de abertura é para 2017. O contrato de Hartmut Mehdorn vai até fevereiro de 2016. Porém, até fevereiro de 2015, ou seja, em breve, Mehrdorn deve informar a diretoria da Holding se quer ter o contrato prolongado. Fontes do jornal berlinense Tagesspiegel afirmam que a diretoria não deseja o prolongamento. O possível cenário é o início da procura de um novo chefe já no início do ano que está pra chegar. Até a abertura do BER, novos capítulos virão.e muitas cabeças ainda vão rolar.

Alguns comentários tirados  referentes à exigência de Mehdorn de construir mais um terminal em artigo publicado no portal  do noticiário mais importante do país, o Tagesschau.

Pete Eimerding: “Vocês tem que frear esse pequeno homem”

Ingo Wölbern: “O que importa o tamanho do aeroporto se ninguém sabe se ele será aberto algum dia?”

Andy Besthorn: “Sugiro que todo o dinheiro seja queimado em praca pública. O efeito é o mesmo e ainda evita que o dinheiro caia nas mãos de corruptos e interessados somente no lucro. Isso seria um ótimo exemplo para a decadência viva e no mínimo de igual impacto midiático como a cerimônia de inauguração em 3015. Mesmo nessa data, nao se deve considerar o sistema de protecao contra incêndio, senão nem  assim rola a inauguração”.