Berlim Underground à procura da essência

Fátima Lacerda

16 Março 2015 | 11h46

Anjos sobre Berlim, o mundo desde o fim”, já constatou o baiano Caetano. “Clima de final dos tempos” é o título que o Blog do jornal “Die Zeit” concede à arte fotográfica que mostra o cotidiano berlinense.

Vamos por partes…

Quem visita Berlim, e anda de metrô, vai constatar duas coisas: a primeira é que dentro de um só vagão podem haver pessoas/ET’s de todas as partes do mundo. Até mesmo os berlinenses, os nascidos e também os chegados, podem ser observados, estudados em toda a sua diversidade, em seu minimalismo e no exercício do  “Foucinho berlinense”, o Berliner Schauze que é muito mais do que “somente” um característico, mas seu modo igualmente azedo e direto de encarar a vida.

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Andar de metrô quando você visita(r) Berlim é imprescindível. Mesmo que para “o grosso” do transporte de A até B, seja feito de outra forma. Nem que seja para um laboratório sociológico. Andar de metrô em Berlim te oferece possibilidade sentir o pulsar inquieto e irritado dessa cidade. Sem falar da possibilidade de constatar o “amor” dos berlinenses pelos 4 patas, mas isso é (também) outra história…

Entre o metrô de Paris e Berlim, a diferença é imensa e isso não se atribui ao fato de que o metrô de Paris é o único, provalmente no mundo, onde você precisa validar o bilhete também para sair da estação.

Não podia ser diferente já que o clima (em seu sentido mais abranjente e filosófico) das duas cidades não poderia ser mais antagônico. Enquanto Paris, mesmo estressada, ainda exibe alguns sinais do Joir Vivre (Alegria de viver), o berlinense opta pelo menos ao mais e vai firme e forte nessa dialética econômica, até mesmo quando ela não convém… Mas isso, também é outra história…

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À busca da essência do que nos une 

Adam Magyar nasceu em 1972 na Hungria, fronteira com a Romênia. A mãe era dentista e o pai decorador de interiores para bares e restaurantes estatais. Quando a cortina de ferro foi derrubada pela “Revolução Pacífica”, Adam viu seu sonho prestes a ser realizado: “Desde que eu me entendo por gente, eu queria viajar pelo mundo”, declara em entrevista ao jornalista americano Joshua Hammer.

Apesar de morar em Berlim (num apartamento de 1 quarto no bairro leste de Friedrichshain), Adam não fala alemão. É fotógrafo, autodidata, técnico e obcecado pelo aprimoramento da técnica para fazer suas fotos ainda mais especiais, para podermos captar aquilo que nos passa despercebido.

Com o meu trabalho, eu procuro eternizar momentos que são impossíveis de perceber. Apesar de vermos as coisas mudando, estamos sempre com o olhar no futuro. Não me interessam os aspectos que nos separam, mas o que temos em comum. Claro que a pessoas tem aparência X no metrô de Paris e Y no metrô de Berlim, mas o meu foco vai no essencial da nossa humanidade“, declarou em entrevista no programa “Metropolis” na TV franco-alemã, ARTE.

Para o trabalho titulado “Stainless” com imagens dos metrôs de Berlim, Nova Iorque e Tóquio, ele usou uma câmera industrial de alta velocidade, capaz de fazer 100.000 imagens por segundo. A software para minimizaro barulho causado pela câmera de alta velocidade foi desenvolvida por ele próprio num período de 2 anos. Com a capacidade de fazer 56 imagens mais do que uma câmera de vídeo convencional, Adam conseguiu através do scanner acoplado à câmera, o efeito de fisgar o rosto estático dos passageiros na plataforma ao mesmo tempo em que a câmera documenta em slow motion o vagão do metrô entrando na estação. O resultado que surge no computador é o resultado de um trabalho filigrano e meticuloso.Pela sua recheada mochila, escondendo cabos, um laptop e a própria câmera, ele já foi abordado por policiais no metrô, que queriam saber “para quem trabalhava”. Somente depois de horas e de confirmar a sua atividade como artista fotográfico através do exibir de sua homepage, ele foi liberado, mas não sem pagar uma multa em dinheiro pela “infração de usar um tripé na plataforma do metrô”. Depois do 11 de setembro, qualquer um com uma muchila é suspeito.

Joshua define o trabalho de Adam da seguinte forma: “O trabalho de Adam Magyar representa uma frutífera sinergia entre a tecnologia e a arte, duas disciplinas – uma objetiva e matemática, a outra totalmente subjetiva- mas que nem sempre harmonizaram ou foram compatíveis”.

Links relacionados:

Berlim/Alexanderplatz

https://vimeo.com/83663312

Nova Iorque/42nd Street

https://vimeo.com/83664407

Xidan – Beijing

https://vimeo.com/120860407

http://www.magyaradam.com/


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