Um terremoto político e as entrelinhas sobre a nem tão grande vitória de Merkel

Um terremoto político e as entrelinhas sobre a nem tão grande vitória de Merkel

Fátima Lacerda

26 Setembro 2017 | 17h37

Nas eleições gerais de domingo (24) ultimo não há vencedores entre os dois grandes partidos. Mesmo que frente aos microfones, os chefes do CDU e do SPD teimem no imbromation ressaltando aspectos positivos que foram alcançados e empurrando para debaixo do tapete os objetivos não atingidos nos resultados das eleições, mesmo que o CDU, partido de Merkel, tenha conseguido defender a posição de bancada mais forte e, com isso ter  a incumbência (assim prescreve o sistema eleitoral) de formar um governo, todos sabem: os partidos populares não conseguiram convencer seus eleitores de carteirinha e não conseguiram impedir o êxodo” em massa e, com ele, um número avassalador de eleitores movidos pelo protesto: contra a falta de inclusão, a falta de justa distribuição social e os que sempre sonharam com um discurso nacionalista, xenofóbico e que culpa os imigrantes e refugiados pelo seu fracaso pessoal e profissional. Todos eles deram seu voto para o partido “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla).  

Na hora de mostrar serviço perante os eleitores grudados na telinha e/ou no Tablet, se esquece da menção do número de percentual que o CDU e o SPD, perderam e de forma vertiginosa e isso, muito além do “êxodo” dos eleitores do CDU que passaram para o lado do AfD. Foram 1.300,000 que debandaram só pro CDU. 1.119.000 para o partido dos Democratas Liberais. Ao todo, o partido de Merkel perdeu meio milhão de eleitores, assegura o instituto Infratest Dimap.

Foram os pequenos partidos como Os Verdes, que surpreendentemente tiveram resultado melhor do que o esperado e prognosticado pelos institutos de intenção de votos, os Liberais (FDP=, que depois de uma ausência de 4 anos voltam a ser representados no parlamento e o partido esquerdista Die Linke.

Em terra de cego…

Entre os vários desmembramentos que as eleições de domingo trouxeram, constata-se o fracasso total dos partidos estabelecidos. A teimosia, a vista grossa e a estratégia de tampar o sal com a peneira achando que ignorar o partido que se denominou “Alternativa para a Alemanha”, bastaria para levar o partido ao ostracismo e a insignificância. A fatura, não fechou.O partido soube usar estrategicamente a Crise de Refugiados de 2015 para tirar dela, capital político.

Capa do semanal “Der Spiegel” com o título: “Eles chegaram”.

Em 2014 o AfD já mostrava a que vinha: como partido anti-euro. Em 2015, porem, o partido se radicalizou, seu ex-chefe foi vitima de um golpe. Sua sucessora queria ocupar o centro-direita-conservador-reacionário. Como aqui se faz e aqui separa, Frauke Perry, sofreu também um golpe do”corredor” de extrema-direita do partido e foi massacrada ao vivo e em cores na convenção federal do partido em julho passado na cidade de Colônia. Depois disso, Petry sumiu do mapa, algo inusitado (para dizer ao mínimo) para uma co-chefe de um partido frente a eleições. Agora quem está no comando é Alice Weidel, economista e Alexander Gauland, ex-membro do CDU e que vem se radicalizando em velocidade Blitz além de nao esconder simpatia com membros do partido com visíveis e já provadas tendências e fetiches em falsificar a história. A própria Alice Weidel, que iniciou com uma imagem clean de expert na área de economia, escrachou em julho passado em Colônia: “O politicamente correto merece ser jogado no lixão da história”.

O Day after…

Na segunda-feira (25), a Alemanha acordava em estado de profunda ressaca depois da tragédia anunciada ter se tornado realidade.

Nunca na história do parlamento alemão depois de 1949 um partido de extrema-direita teve uma bancada e muito menos tão robusta como será nos próximos 4 anos. São ao todo 89 parlamentares que estarão presentes nas sessões do Bundestag.

Em conversa com a imprensa estrangeira na manhã de hoje (26), o ex-professor universitário e analista politico Hajo Funke resumiu:” Seria uma ingenuidade imperdoável não chamar o AfD de partido de extrema-direita”. Funke ainda declarou que, para o partido enebriado com o sucesso de 12,06% dos votos, o céu e o limite e não descogitou que, em breve, poderá ser classificado de “neonazista”.

A urgência e necessidade do bom senso

Em termos matemáticos, a maioria mais confortável seria dar segmento a “grande coalizão” com os social democrata. Entretanto, a chefia do partido decidiu, ainda na noite de domingo, que ira fazer parte da oposição. Merkel, como excelente estrategista gosta de deixar sempre portas abertas para não entrar numa situação de ficar com a corda no pescoço. Ignorando notoriamente a declaração dos social democratas, Merkel anunciou que ira “manter contato”. Ou seja. Não ira ligar somente para os chefes dos Verdes e dos Liberais para sondar uma coligação. Estrategicamente essa tacada e genial. Caso os antagonismos programáticos entre os Verdes, os Liberais e os do CSU da Baviera se tornem intransponíveis em ao o vês do bom senso, as vaidades pessoais tiverem vencido, Merkel ainda tera uma portinha dos fundos aberta para trazer os social-democrata “para o barco”. De uma for a ou de outra, essa barganha ira sair caro para o CDU Angela Merkel. Agora não e “somente” o chefe do partido da Baviera a verdadeira oposição a linha politica da chanceler. Agora a chanceler ira ter que colocar 3 partidos de diferentes a antagônicos numa mesa de negociações.