Uma chuva torrencial, uma convulsão política e a crônica falta de soberania de uma presidente

Fátima Lacerda

19 de março de 2016 | 12h14

Quando, com um olhar primeiramente jornalístico, tive na passeata de domingo na Av. Atlântica, achei que o ápice da crise política, mais do que isso, da crise de identidade e de valores que pela qual passa o Brasil, teria alcançado o seu ápice na sua dramaticidade. Quando um jipe que desfilava pela avenida com soldados empalhados e com faixas pedindo a volta do militares foi aplaudido por muitos presentes, eu, ali em presença física, me dei conta de como a situação politica é delicada, mostrando um abismo também pelo perigoso fluxo de reacionários pedindo a volta de um regime militar que deixou tantas sequelas na percepção política do país e na vida de tantas famílias.

Um dos espelhos da convulsão política que acomete o Brasil, todo mundo luta contra todo mundo, onde todos são inimigos e membros do PT podem ser linchados nas ruas por expressarem suas opiniões. Amigos travam lutas ferrenhas pelas redes sociais e cortam laços depois de anos de amizade! Já os adeptos da política petista pregam suas ideologia de forma como se fosse uma verdade eterna, absoluta e irrevogável. Se deixam seduzir pela radicalidade, exibindo imensa imaturidade política, aquela que diz que o seu voto é emprestados durante 4 ou 5 anos e que, lá na frente, você pode revogar a sua premissa, pode ceder seu voto a outro partido e que, como dizia o sábio Richard von Weizsäcker (1920-2015), ex-Presidente da República e ex-Prefeito de Berlim: “A Democracia tem que ser conquistada todos os dias“.

Na quarta-feira (16), a chuva torrencial que fez da minha viagem da Av. Atlântica para o Aeroporto do Galeão, algo de um suspense e terror e, até então, em minhas viagens, sem precedentes. No fim, deu tudo certo no trajeto que durou duas horas com o Aterro do Flamengo parado. Quando chove no RJ fica tudo impraticável. Para tudo. O Aterro do Flamengo vira um rio. Por mais potente que seja um carro, ele pode enguiçar quando atravessa um valão. Carro enguiçado a caminho do aeroporto com o trânsito parado ali na ruia Primeiro de Março quase em frente à igreja do Santa Cruz dos Milagres, é motivo de estresse e tensão ainda maior do que fazer check-in no guichê da pior linha aérea que existe: a Air France ou tirar dinheiro no caixa eletrônico do Banco do Brasil, onde o sistema te pede, os 3 digitos inciais do teu CPF, o primeiro nome da tua mãe ou do teu pai.

Na quinta-feira (17), já no Aeroporto de Madrid, que agora oferece Wi-Fi grátis e ilimitado e uma infraestrutura bem melhor do que presenciei há dois anos atrás, quando da última vez que passei por lá, mostrava imagens da posse do ex-presidente Lula, com “super poderes” na pasta da Casa Civil. No avião para Berlim, ao meu lado, um espanhol lia a edição impressa do “El Pais“. Na manchete da página 3, o título era: “Lula se esquiva da justiça assumindo o cargo de Ministro da Casa Civil“.

Ao chegar em Berlim, já bem tarde da noite de quinta-feira (17), ao tomar conhecimento de que a posse do ex-presidente havia sido anulada, entendi que essa ebulição, essa convulsão tem uma dinâmica imprevisível até para o mais astuto e experiente dos analistas políticos. Nesse meio tempo em eu que estava no ar, Gilmar Mendes havia se pronunciado contra a posse de Lula e os grampos feitos pela PF estavam sendo divulgados mostrando de quanta podridão está impregnado, de forma natural, o discurso político de coxia. A sexta-feira (18) um dia de grande importância na história da Alemanha, trouxe, num formato de dominó, uma manchete de catástrofe atrás da outra.

O ex-Ministro das Relações Exteriores, o liberal, Guido Westerwelle, a face do neoliberalismo e da frieza social na Alemanha, aos 54 anos, perdeu a luta contra a leucemia. Westerwelle diferenciava entre a relevância de quem trabalhava e ganhava seu próprio sustento e quem “sugava nas testas do Estado”. Um outro político, importante durante a chamada “República de Bonn”, também morreu no mesmo dia. Ai veio a notícia da prisão do coautor do massacre de Paris e do estado de alerta em Bruxelas, país pequeno e escondido, terreno frequentemente escolhido por terroristas “à espera de sua missão”. No finalzinho da noite, o desastre do avião Boeing 737 proveniente de Dubai e que contabiliza a morte de todos os passageiros. É nesse hora que você abençoa o piloto como no trajeto Rio Madrid, que teve um avião superlotado, com uma performance impecável durante todo o tempo, inclusive na aterrissagem filigrana no aeroporto de Barajas, depois de 10 horas e 30 minutos no ar.

Repercussão na mídia de língua alemã

Não há um jornal, nem portal, nem estação de rádio dos países de língua alemã incluindo Áustria e Suiça, que não tenham como manchete o período de convulsão que o Brasil atravessa, dinâmica essa levada ao extremo pela teimosia de um político obsoleto e, o que ainda é mais trágico, a falta de soberania de uma presidente, que mesmo tendo sido eleita pelo voto direto com 54,5 milhões de votos, não conseguiu se emancipar do seu antecessor, que, pelos fatos que agora vem a tona, nunca esteve realmente longe de mexer os pauzinhos no centro do poder, em Brasília. Em seu discurso na Bahia, onde a presidente foi entregar unidades do projeto “Minha Casa, Minha Vida“, onde mostrou o grau de desespero da situação que já foge totalmente do seu controle.

http://g1.globocéfalo/bahia/noticia/2016/03/dilma-diz-que-programas-serao-mantidos-e-inflacao-reduzida.html

O crônico complexo de inferioridade frente aos EUA se mostrou nua e crua no discurso da presidente, comparando o grampear de países como o Brasil e os EUA: “Grampeia o presidente dos Estados Unidos para ver o que acontece com quem grampear“. A ex-guerrilheira que tinha como inimigo número 1 os EUA, continua, em vários de seus discursos, viajando numa maionese de uma ordem mundial que não mais existe e isso desde a vitoriosa trajetória de “Revolução Pacífica” que resultou na queda do Muro de Berlim.

O que a presidente não mencionou é que, igualmente como a chanceler alemã, ela foi grampeada durante anos pela Agência de Segurança Nacional (NSA) e que a postura da presidenta foi, alguns comentários de caráter cosmético à parte, deixar por isso mesmo. Porém a pior parte do discurso de Dilma Rousseff foi cada vez que ela se referiu a Luiz Inácio Lula da Silva como “o presidente”. Quem é eleita com 54,5 milhões de votos, tem a obrigação de ser soberana e ter pulso frente aos eleitores que optaram por sua política. Isso é o mínimo que pode se exigir de um Chefe de Estado eleito pelo voto livre e direto. Continuar se referindo a Lula como “Presidente” é a maior demonstração de falta de percepção sobre o cargo de ocupa” e não é digno dele.

“Quando vocês estão enfrentando alguma dificuldade, vocês não chamam um parente ou um amigo par ajudar? Por isso eu chamei um grande amigo meu e de vocês para me ajudar. Eu chamei o presidente Lula”.

A partir de agora, empossado ou não, com o aval de Gilmar Mendes ou não, isso agora é o de menos, Lula saiu da coxia. Sua volta à política é um fato e isso gera no Brasil um dos mais abstrusos momentos de sua história política: vemos um ministro querendo ocupar a pasta da Casa Civil para escapar das acusações de corrupcal, fugir da justiça. Além disso, em maratonas de conversas e reuniões com aliados, o astuto político assegurou obter competências de gestão na área da economia e ocupará um lugar no gabinete de um governo para o qual ele não é legitimado por sequer um voto dos eleitores. Com o barulhento e desesperado pedido de socorro a Lula, a presidente Dilma não “só” terminou de cavar a sua própria sepultura política, como ratificam várias matérias da imprensa de língua alemã: “Agora, para Dilma, é a sua sobrevivência política que está em jogo“. Mais do que essa demonstração de total falta de livre arbítrio sobre o próprio governo, infiltrando Lula no cargo, a presidente deu um chute naquilo que é mais valioso num país: a constituição. A prova disso é que até a OAB quer aderir ao processo de Impeachment contra a presidente. A partir do dia em que Lula sentar no gabinete e, de fato, com competências de um Primeiro-Ministro, o sistema de presidencialismo que vigorava no Brasil terá suas pernas cortadas e o plano Marshal para fugir da, por ele, tao temida “justiça de Curitiba”, terá vingado. Até isso se concretizar, a corda bamba no circo de transferência de responsabilidades jurídicas ainda nos trará muito suspense e muita preocupação com a fragilidade da democracia no Brasil.

O que pensará sobre esse terremoto político e de valores, o ex-Minisitro do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, em seus dias de repentina aposentadoria?

Angela Merkel também passa por um momento crucial em sua trajetória política. Mesmo estando permanentemente sob a linha de fogo, especialmente pelas correntes populistas de direita que vem emergindo de forma ameaçadora na Europa e até mesmo do seu companheiro de governo, o bávaro Seehofer, do partido CSU, Merkel, treinada em somar e manter o poder, não deixa que ninguém tire o bastão do seu comando. Ela é Multitasker, está sempre bolando um plano, uma sugestão, como se comportar no próximo desafio e o faz, sem alarde, sem desespero, sem escândalo e com a cabeça fria que só uma adepta das ciências naturais pode ter. Bem ao contrário de Dilma, Merkel tem nervos de aco para ficar na moita até a tempestade passar. Sabe alinhavar com meticulosidade e excelente equipe que é fiel a ela até os dentes, até que o plano seja divulgado para a “arquibancada” do circo político, por exemplo, de Bruxelas. Merkel chega sempre com o dever de casa feito sob a premissa de uma disciplina prussiana e, não raramente, chega com uma carta na mão, surpreendendo seus adversários pela meticulosidade e habilidade persuasiva. Soberania é isso: é manter a postura até mesmo nos momentos mais delicados, saber segurar a barra durante um terremoto político.

O que a presidente Dilma está fazendo é jogar a toalha por não ter cacife para dizer “Não” à um antigo companheiro de luta. Que não fosse pelos brasileiros vivendo numa sociedade dividida entre “coxinhas” e os “vermelhos”, mas pelo respeito a quem optou por lhe dar apoio nas duas últimas eleições a colocando no cargo no qual ela se mostrou inúmeras vezes incapaz de representar o Brasil de forma coerente, digna e soberana.

O Brasil na pauta germânica

O jornal do comércio titula: “Juiz impede o caminho de Lula de volta ao governo“.

A revista Focus, titula: “Depois do veredito, está ameaçada a volta de Lula como Chefe de Gabinete“.

O conservador “Frankfurter Allgemeine Zeitung” anuncia erroneamente: “Pausa na linha de tiro para a presidente Dilma. Lula poderá assumir o cargo de Ministro”. O jornal também comenta sobre a abertura do processo de Impeachment contra a presidente. “Ela luta contra o círculo cada vez maior no escândalo de corrupção e com a maior recessão das últimas décadas”. O Portal também exibe imagens de protesto contra a posse do ex-presidente Lula como Ministro da Casa Civil.

O Portal Spiegel Online na edição de sábado (19), titula: “Juiz de âmbito federal impede a posse de Lula no gabinete” e ainda vincula: “O ex-presidente Lula estava bem perto de se tornar Ministro no governo de Dilma Rousseff. Porém um juiz de âmbito federal suspendeu a posse. O contestado político pode ir para a cadeia“.

Links relacionados:

http://www.watson.ch/!541829858

http://www.handelszeitung.ch/politik/brasilien-richter-versperrt-lula-weg-die-regierung-1025569

http://www.focus.de/finanzen/news/wirtschaftsticker/regierungskrise-in-brasilien-lula-droht-nach-urteil-das-aus-als-kabinettschef_id_5370774.html

http://www.faz.net/aktuell/politik/ausland/amerika/lula-darf-nun-doch-rousseffs-stabschef-in-brasiliens-regierung-werden-14134156.html

https://telebasel.ch/2016/03/17/richter-vereitelt-lula-als-kabinettschef/

http://www.fnp.de/nachrichten/politik/Fast-eine-Million-Brasilianer-demonstrieren-gegen-Rousseff;art46560,1905175

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