Uma instituição da ex-Berlim Ocidental desaparece do cenário urbano

Fátima Lacerda

06 de maio de 2015 | 16h52

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Um feliz acaso possibilitou que eu fosse testemunha presencial do demolir de uma parte especialmente relevante da ex-Berlim Ocidental.

O que você vê nas fotos e no vídeo é o trabalho de demolição do prédio. A Leineweber Haus era onde ficava o Sex Shop Beate Uhse, uma mulher pioneira no setor de comercio de artigos para incrementar a vida dos alemães do período pós-guerra. O empreendimento que iniciou com entrega de Camisinhas de Vênus pela própria Beate no volante do seu Volkswagen, ratificando as vantagens possibilitadas pelo milagre econômico, viria a se transformar num Império.

O prédio, localizado na Kantstrasse, que, ao contrário do cunho filosófico sugerido pelo nome, era O point mundano da Berlim ocidental. No corredor que culminava na porta do Sex Shop, se acumulavam bares, lojas de cambio, fast-food chinês, loja de flores, boite de quinta somado a um um burburinho 24 horas por dia. Mais tarde, a rede de fast-food Burger King, na boca da saída do metrô “Jardim Zoológico” também se juntou a todo o resto. Ali se misturavam tudo e todos: Turistas, homens de negócios, prostitutas, os que as contratavam e vigiavam e recém-chegados, como eu, que ainda me espantava em inusitado terreno, ainda mais se falando de uma tijucana crescida e socializada em solos burgueses.

Logo ali pertinho se encontrava a maior estação de trem da cidade. Jardim Zoológico, Bahnhof Zoo, aquela que se tornou mundialmente famosa com o filme Christiane F.

Entre todo esse caos urbano, o local mais cobiçado e o que mais instigava a espiar era a porta de entrada do Sex Shop.. Olhares 43 e não pouco temerosos de clientes ao penetrar o recantos dos prazeres carnais e (na época) proibidos, checavam se o terreno estava limpo. Ai de quem fosse pego em flagrante! O resultado seria uma reputação destruída.

BeateUhse708x398.jpg©Momi

Menos corajosos se contentavam com o observar das vitrines que ficavam, estrategicamente, em frente ao ponto de ônibus. Modelos vestidas com lingerie de cores e estilos diferentes, instigavam a fantasia de quem ali nunca havia entrado.

Bem mais tarde, em 1995, na tentativa de atingir e facilitar o acesso ao publico alvo, foi inaugurado o Museu do Erotismo (Das Erotik Museum). Mais uma tacada genial da visionária e ambiciosa Beate. Afinal, contra as artes, não há argumento!!! A fatura fechou. Depois da inauguração do museu, as vendas aumentaram consideravelmente, o público se diversificou e saiu da ilegalidade moral..

Tempos modernos

Ao invés daquele centro minúsculo por volta da Igreja da Memória, depois da queda do muro, os terrenos dali passaram a ser ignorados por construtores e especuladores imobiliários. Mitte, o ex-centro de Berlim Oriental, cidade antiga que abriga os 5 da Ilha dos Museus e parte menos destruída pelos bombardeios da II Guerra Mundial, era o objeto mor de investimento de quem queria ganhar muito dinheiro em solo tornado tão fértil. Ver e ser visto. Morar e trabalhar, o lugar era Mitte.

Depois da saturação do bairro que foi apossado pelos turistas, os arquitetos, engenheiros e urbanistas decidiram: Vamos recuperar a West-City! Falava-se em “Renascença” e com ela muita coisa deixou de fazer parte do cenário urbano. Cinemas históricos como o Marmorhaus uma construção toda de mármore branco e que até 2001 era o cinema mais antigo na alameda das alamedas, a Kurfürstendamm. Hoje, o ex-cinema abriga uma loja de roupas de grife. Entre todas as pilastras do cenário urbano, o mais significativo e também mais famoso era o prédio que abrigava o Sex Shop. Hoje (06) , iniciou sua demolição. Vários pedestres, de todas as idades vislumbravam, assim como eu, o fim de uma época de nossas vidas, uma parte de nossa memória urbana. Não é raro ver pedestres vislumbrando tratores em ato de demolição. Para alguns isso deve lembrar a infância ou simplesmente espareicer as idéias. Entretanto, hoje foi diferente. Uma nostalgia pairava no ar.

Esse prédio foi um dos primeiros que, ao vislumbrar, me certificara que estava realmente no centro da Europa, num período em que Glasnost e Perestroica eram palavras da hora e que em Gorbachev se depositavam todas as esperanças dos alemães dos dois lados, de um dia demolir o Muro da Vergonha. Entre os anúncios de neon, exibiam-se em letras garrafais: Vodca Gorbatschow. Pra mim, todas aquelas informações e impressões me desvendava um admirável mundo novo.

A West-City, hoje rodeada pelo shopping que prometia um conceito de maior emancipação do consumidor, o Bikinihaus, pelo gosto super duvidoso em forma de um hotel 5 estrelas ali do lado (veja no vídeo), o Waldorf Astoria e o ainda persistente (e que acaba de completar 50 anos), o Europa Center, terá em breve outro edifício concebido pela construtora americana, Heines, que seguirá a mesma cartilha de todas as outras: Uma mistura de apartamentos para alugar, salas de escritórios, comércio de lojas.

Como queria que fosse o acaso, eu presenciei a morte de um símbolo de urbanidade da Berlim Ocidental.

Quem chega tarde demais é punido pela vida”, diz uma frase de Michael Gorbatchev.

Se eu não tivesse presenciado, uma parte da minha fase de inicio em Berlim teria ido embora sem que pudesse nem mesmo dizer Adeus.

https://www.youtube.com/my_videos_annotate?v=QDcXGfAfbIs