Berlinale: Unicórnio traz sensações, descobertas, ausências e uma surpresa Bárbara

Fátima Lacerda

06 Março 2018 | 07h03

©Berlinale

A mostra „Generation“ na Berlinale, é dedicada à garotada e aos adolescentes. Uma das joias da mostra neste ano foi o filme „Unicórnio“ de Eduardo Nunes, o mesmo que dirigiu „Sudoeste“ (seu primeiro longa-metragem). Eduardo faz parte da maravilhosa  e instigante safra de cineastas formados na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Seus filmes, “Terral“(1995), “A Infância da Mulher Barbada” (1996), “Tropel” (2000) e “Reminiscência” (2001) juntos, ganharam mais de 40 prêmios e foram exibidos em importantes festivais como Biarritz, Rotterdam e Berlim.

Seu atual trabalho, “Unicórnio”, é baseado na prosa da escritora paulista Hilda Hilst (1930-2004), teve sua estreia no Festival do Rio e seguiu para Berlim, para a mostra „Generation“. A estreia em circuito nacional será durante a FLIP que acontece entre 25 e 29 de julho e onde a homenageada em 2018 será Hilst. Mas até lá o filme já tem um roteiro geográfico de responsa na Suíça (Freiburg), depois Uruguai, Portugal e Bélgica entre o março e o início de abril.

©Berlinale

Os pontos altos do filme são as próprias locações, segundo Eduardo declarou em conversa exclusiva com o Blog durante a passagem por Berlim. Entre Teresópolis e Friburgo (Parque Estadual dos 3 Picos) ele conseguiu uma imagem bucólica impressionante. A minha primeira associação durante a primeira letárgica cena do Unicórnio foi a de uma cenário, ao mesmo tempo bucólico ao mesmo tempo sobrenatural que eu certa vez presenciei na região da Masúria, nordeste da Polônia.

A fotografia de “Unicornio” assinada por Mauro Pinheiro Júnior é um deslumbre antes mesmo que se delineie o argumento, muito bem alinhavado, se revelar em dois tempos narrativos com Patrícia Pillar e a jovem atriz Bárbara Luz, que vive a filha, nos papéis principais. As cores vivas da floresta formam um crasso contraponto com as imagens estéreis e vegetativas das paredes brancas, onde se encontra o pai da menina.

Ao saber da vinda do filme para Berlim, vibrei na possibilidade de encontrar, pessoalmente, Patrícia Pillar, aquela que eu vejo ser uma das mais instigantes atrizes que o Brasil já teve. Noveleira de carteirinha, mesmo vivendo em terras alemães onde novelas sao pra jogar fora no lixo, por nenhuma coincidência, a minha novela preferida é aquela em que João Emmanuel Carneiro, o David Cronnenberg da teledramaturgia brasileira, mostrou em „Flora“, brilhante e inesquecivelmente vivida por Patrícia, o mais íngreme e vertiginoso dos abismos femininos de uma psicopata. 

Problemas pessoais, como também compromissos determinados pela sua agenda. (Patrícia Pillar está filmando no sertão nordestino “Onde Nascem Os Fortes” que tem estreia marcada para 23 de Abril às 23 horas na Rede Globo), a atriz não pode estar em Berlim, onde sua ausência foi, dolorosamente, sentida por muitos que ali esperavam vê-la.

Ao chegar na hora marcada da entrevista, antes de iniciar a conversa com Eduardo, encontrei Bárbara Luz, uma jovem atriz e protagonista do filme, e da qual eu logo perceberia uma maturidade absurda para seus tenros 15 anos. Vestida com um lindo casacão vermelho combinando com a cor do festival, ela, pacientemente, esperava a hora de ir para a sessão, que aconteceria no Cinemax 3. Enquanto Eduardo conversava com outras pessoas, entrei num papo com Bárbara já mencionando o frio na espinha que eu sinti na cena em que ela prepara o doce de sobremesa para um jantar que ela nunca quis que acontecesse. Hitchcock não é nada, comparado ao suspense desta cena! O silencioso, só quebrado pelo barulho da panela cozinhando as frutas é aterrorizante sem, e qualquer momento, precisar ser espaçosa por isso. Tem algo de deliciosamente emancipatório na narrativa de Hilst e interpretada nesse filme: jovens mulheres que decidem, em total solidão, o traçar de seus próprios destinos, serem protagonistas de suas próprias histórias. Por nenhuma coincidência, a pauta determinante do Zeitgeist, especialmente na área da indústrica cinematográfica.

© Kansuke Yamamoto

Durante a passagem por Belrim, Barbara Luz e Eduardo Nunes conversaram, exclusivo, com o Blog:

Com a voz numa surpreendente mistura entre consciência e serenidade, sem qualquer deslumbre e com uma retórica muito orgânica e autêntica, mas sim, surpreendente para uma jovem de 15 anos.

Qual a sua expectativa nesses dias em Berlim?

Não é bem uma expectativa. É só uma mistura de sentimentos, sabe. Eu não estou esperando nada. Estou muito feliz de já estar aqui. É muito grande a dimensão.

Quantos anos você tem?

15.

E quando você fez o filme?

Eu tinha 14.

A experiência de você tomar parte num filme, se vê na tela e a coisa tomar uma dimensão de âmbito nacional e, no caso da Berlinale, internacional. Isso mexeu muito com você?

BL: Mexeu, bastante (risos). Na primeira vez que eu vi o filme, que foi no Festival do Rio, eu sai da sessão e estava super tocada. É muito intenso, se ver de maneira tão crua, uma história que é muito do silêncio e isso faz cada pequeno detalhe, muito importante. Também a telona! Foi muito especial. Eu acho que fui me acostumando aos poucos com essa loucura de se ver.

Como foi trabalhar ao lado da Patrícia Pillar? Deu muito frio na barriga?

Não, porque ela é tão doce! Eu a conheci, antes, para passarmos o texto. Ela é uma querida! Sempre me tratou super bem. A gente foi se conhecendo antes de gravar, para tentarmos criar o laco de mãe e filha. Eu fiquei super à vontade, ao lado dela. Não deu frio na barriga, mas eu fiquei muito animada de estar jundo dela. É uma honra!


FL: Como você se sentiu quando soube que o filme havia sido escolhido em Berlim?

EN: Esse tipo de cinema que a gente faz, mais autoral, o filme só sobrevive se tiver uma carreira em festivais. Ele precisa da mídia espontânea. Esse tipo de filme apresenta o Brasil no exterior, faz pensar cinema. Só de pensar que a mostra teve 3.000 inscrições e nós ficamos entre os 16 é uma peneira muito fina! O Eduardo Valente faz, aindano Brasil, uma pré-seleção e envia a sugestão para Berlim.

E na hora em que chegou a notícia?

Eu estava comendo um hambúrguer (risos soltos). Eu tenho péssima mania de atender telefone (risos) e vi que o Eduardo ligou e eu não atendi. Só vi depois. A Isabela (minha produtora) mandou mensagem escrevendo, „Atende, atende!“ A partir daquele momento eu sabia que já podia pensar no próximo filme. Agora as coisas estão muito bem encaminhadas através da FiGa Filmes através do Sandro Fiorini que mora nos EUA e que já distribuiu muitos filmes chilenos e argentinos.

Como você vê a situação de um cineasta vivendo no Brasil hoje?

São dificuldades comuns de quem faz filme autoral e eu acho que isso existe em todo o mundo. Nos últimos anos, a ANCINE conseguiu uma forma interessante de dividir o orçamento para mais comerciais e filmes mais autorais. Não é a toa que o Brasil é um dos países mais ativos na Berlinale, mostrando uma representatividade bem grande.

Como você encontrou a Barbara para fazer o papel da filha?

A gente tem uma amiga em comum, a Luciana Buarque, que também trabalhou com a mãe da Bárbara no grupo Balcão nas primeiras peças. Ela comentou comigo: “Olha, a Inês tem uma filha nesta idade, com 14 anos“. Foi o primeiro vídeo que recebemos. No processo de seleção, eu fui a BH. Quando restou uma lista de 5, ela foi ao Rio. Quando ela foi selecionada, a Inês chorou e ela disse “Nossa, Mãe, que mico!” (risos).

No início do projeto das filmagens, Eduardo me contou que Barbara diziar querer ser atriz “somente durante este filme”, mas agora ela quer pagar pra ver. Quer ser atriz. Sem deslumbre, síndrome de ter que ser global. Que Bárbaro!

Nada como ser criada na coxia de um teatro. O melhor alicerce para uma, mais do que uma atividade, um exercício. O delinear e aprimorar de uma vocação,.