Vento favorável para Angela Merkel no preâmbulo da visita de Emmanuel Macron a Berlim

Fátima Lacerda

14 Maio 2017 | 21h18

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Para a segunda-feira (15) os meteorologistas divulgaram o prognóstico de 21 graus com o céu berlinense variando entre claro e nublado. Para Angela Merkel, o clima em Berlim não poderia ser melhor.

No final da tarde de segunda-feira Merkel irá receber no prédio da Chancelaria Federal, o presidente francês Emmanuel Macron, que depois de tomar posse na manhã de domingo (14) inicia suas visitas de apresentação pelas capitais europeias.

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Paris-Berlim 

Berlim, como primeira estação, ratifica o discurso do centrista durante sua campanha eleitoral: “É meu intuito seguir uma estreita parceria com a Alemanha”. Era nessa hora que sua adversária, rosto e personificação da extrema-direita francesa, Marine Le Pen do partido Front National surtava o acusando ser “Garoto de Recados” ou “Vice-chanceler de Madame Merkel”.

Vislumbrando as imagens que serão, decerto, regadas de harmonia entre os dois Chefes de Governo quando estiverem frente aos jornalistas na coletiva que será acompanhada pelo Blog, Madame Le Pen estará, ao mínimo, roendo a beirada da mesa, como prescreve um ditado alemão ao ver seu adversário bater ponto na chancelaria onde trabalha a mulher mais poderosa da Europa e isso depois de ter atravessado turbulências e ter exibido sinais de esgotamento de influência política no âmbito interior.

Merkel-fênix!

Já nas primeiras horas da manhã do início da nova semana, a imprensa internacional estará veiculando mas um gol, o terceiro consecutivo da chanceler.

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Depois de 3 eleições de âmbito regional em Saarland (fronteira com a França), Schleswig-Holstein (costa norte do país) e na Renânia do Norte-Vestfália, onde seu partido, o CDU e seus respectivos pupilos e pupilas sairam vitoriosos (o de domingo foi Armin Laschet) Merkel estará sob a luz especialmente favorável de uma representante vitoriosa que, acaba de ser, mesmo que indiretamente, apoiada mais uma vez pelo eleitorado, excelente posição para, com ainda mais soberania do que de costume, dar as primeiras aulas para o iniciante Macron que com 39 anos desbanca Valéry Giscard d’ Estaing, hoje com 91anos, como o presidente mais jovem da Quinta República. Merkel já conhece pessoalmente o fundador do movimento “En Marche”, de um encontro no início deste ano em Berlim, mas agora o buraco é mais embaixo.

Da França e da Alemanha dependerá o futuro da “Casa Europa” e isso, apesar dos governos da Hungria, Eslovenia e Polônia que contradizem, todos os dias, a tese de Merkel que define a UE como “Uma comunidade de valores comuns“. Quando o ditador húngaro afirma que “a crise de refugiados é um problema da Alemanha e não da UE e continua sendo o país da UE que acolheu zero refugiados, não há como nao atentar para percepção antagônica que países membros exibem.

Esmagadora derrota dos social-democratas

Fazendo uso da linguagem futebolística, para o SPD é o terceiro jogo perdendo em casa. Seriam 9 pontos perdidos!

Hoje foi a terceira derrota consecutiva também de Martin Schulz. Há 4 meses ele foi votado chefe do partido com um percentual que relembra os tempos das “eleições” da Alemanha Oriental que só não divulgava 100% de apoio dos “eleitores” para não dar muito na vista, mas os resultados eram sempre lá pelos 96% ou 97,90.

Martin Schulz, o homem que parecia andar sobre as águas e que parecida gozar de atributos convincentes para desbancar Frau Doktor Merkel, agora aparece borocochô frente às câmeras de TV. No domingo passado (08/05), depois da derrota nas eleições da região de Schleswieg-Holstein, ele ainda tentou uma retórica do tipo: “Depois de um dia decepcionante, você acorda no dia seguinte, arregaça as mangas e segue na luta“, mas que a luta seria desse calibre, nem Schulz nem os mais céticos do partido poderiam imaginar.

Neste domingo (14), entretanto, o SPD teve uma queda do tipo avalanche com perda de 08% de intenção de votos, o que contabiliza o pior resultado da história do partido em seus mais de 150 anos de existência. August-Bebel, fundador da Social-democracia alemã deve estar dando cambalhotas no túmulo. O próprio Instituto infra dimap pesquisou com meticulosidade prussiana e constatou que o chamado “Êxodo eleitoral” (Wählerwanderung, no jargão) dos ex-simpatizantes com o SPD foi presente distribuído para todos os outros partidos. Só para o CDU de Merkel, debandaram 340.000 eleitores segundo a última estatística, no final da noite de 14/05 antes da publicação desse texto.

As outras debandadas foram

100.000 dos Verdes para o CDU

30.000 dos Neoliberais (FDP, na sigla). O partido que estava morto e saiu vitorioso nas duas últimas eleições em âmbito regional e tem ambições de retornar ao parlamento federal nas eleições gerais de 24 de setembro.

Somente o partido esquerdista Die Linke, nao fez parte do êxodo eleitoral para o partido de Merkel.

O mais impressionante dessa estatística é que 480.000 eleitores que estavam enferrujados no exercício de ir às urnas, levantaram do sofá, conseguiram se afastar da TV, deixaram a cerveja de lado e foram votar no partido de Merkel. Os alemães, tradicionalmente frios e unpassionate, não podem competir com o ímpeto que os franceses mostraram na recente eleição e nem mesmo em sua disposição em entrar em filas homéricas, seja Los Angeles, Montreal ou Londres para votar em embaixadas e consulados gerais.

Tirando todos os noves fora, sem contar as 3 vitórias consecutivas para o CDU de Merkel esse quase meio milhão que até bem pouco tempo se banhava na água parada do ócio em crônica aversão à política, ter interrompido seu domingo sagrado para se deslocar às urnas.

Não precisa ser marqueteiro para saber que, mais lá na frente, Merkel irá usar isso em seu discurso de campanha eleitoral.

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A melhor defesa é o ataque

Mesmo que políticos derrotados insistam na ladainha de que “eleiçoes regionais são regionais” e não tem desdobramento até Berlim, os analistas políticos e institutos de pesquisa garantem o contrário como por exemplo o Instituto Político de Pesquisas infratest dimap. No contexto da eleição deste domingo (14) na Renânia do Norte-Vestfália, o tema de âmbito regional que ocasionou o “êxodo eleitoral” foi a educação. Já o tema “Situação política no mundo”, um dos itens listados pelo Instituto nas pesquisas, foi um dos critérios dos eleitores que votaram, explicitamente, no governo Merkel. Tudo indica que os alemães, apesar de todos os atropelos, ainda consideram Merkel como a mais capaz para livrá-los do mal do mundo pós-globalizado em que vivemos.

Martina Schulz teve que aparecer, de novo, como derrotado frente as câmeras no curto período de uma semana, sendo que se a derrota das eleições da parte norte do país foram decepcionantes, a derrota estilo Tsunami em tradicional terreno social-democrata na região, incluindo a cidade natal de Schulz, além do cartao-vermelho para a coligação, entre os social-democratas e os Verdes foi a exibição de um fracasso total.

Queridos membros do partido,hoje é um dia muito difícil para o SPD e também pra mim. Eu nasci na região em que hoje tivemos que encarar uma derrota esmagadora. Nós ganhamos juntos. Nós perdemos juntos. Teremos que analisar essa nova situação. Tem muita coisa em jogo, que a Europa seja protegida do populismo, que asseguremos que esse país tao rico seja mais justo. As contas serão acertadas em 24 de setembro”,declarou Schulz já iniciando a campanha eleitoral, confirmando que a melhor defesa é o ataque.

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Na mesma hora da divulgação do resultado, Hannelore Kraft, a mulher-carro-chefe em posição de confiança dos social-democratas renunciou ao seu cargo de Ministra-Presidente assim como ao cargo de vice-diretora do partido. O SPD na Vestfália tem que iniciar do zero depois de um desabamento político e isso, quatro meses antes das eleições gerais. Faco uso do sarcasmo, instrumento imprescindível para quem quer sobreviver na Alemanha: já existiram ventos mais favoráveis para o SPD, para seu garoto-propaganda e o remédio para todos os males, Martin Schulz.

Mesmo sendo a fração I don’t like Mondays, meu otimismo de que a segunda-feira será um bom dia para a Europa sublinhado pelo encontro de Macron e Merkel.

Inegável que os dois tem tarefas de Hércules pela frente: Merkel, agora com o apoio de Macron, reorganizar a “Casa Europa” e Macron, cumprir a promessa de reverter o grau de divisão que a França mostrou estar profundamente dividida, com Le Pen recebendo 34% dos votos.

Para Merkel, a segunda-feira não poderia de vento mais favorável, independente do prognóstico dos meteorologistas.