Vice do partido esquerdista é atacada por ativistas com torta na cara em sinal de protesto

Fátima Lacerda

28 Maio 2016 | 16h58

Na manhã de sábado (28) o partido esquerdista, Die Linke, herdeiro ideológico do partido da ex-Alemanha socialista, o SED, partido do Politburo, iniciava a sua convenção nacional. O lema era refletir sobre os tempos difícies atravessados pelo partido além de delinear o programa que será a base do “pacote programático” que será o carro-chefe na corrida nas eleições parlamentares que acontecem em setembro de 2017.

Sarah Wagenknecht

Nada é por acaso. O estilo do guarda-roupa, a maquiagem. A forma não da para negar que lembra a grande lutadora Rosa Luxemburgo (1871-1919). Sarah faz parte do “corredor” comunista do partido, com medidas obsoletas e que ainda relembram a época do SED, partido mãe e antecessor do que é hoje o Die Linke, partido que tem seu reduto eleitoral nos eleitores da parte leste do país.

Pela sua beleza e feminilidade, esse último quesito bem raro entre as alemãs com cargos de grande visibilidade midiática, Sarah é uma das mais frequentes convidadas para programas de auditório sobre política. Sempre com o estilo impecável é um alvo constante das câmeras de TV.

No início da convenção nacional na cidade de Magdeburgo Sarah se apresentou, como de praxe, com seu vestido vermelho, cabelos pretos lisos e presos atrás. De repente e numa tacada muito Blitz, um cara chegou nela e acertou em cheio o seu rosto com uma torta de chocolate. Um fotógrafo da DPA, Agência de Imprensa Alemã foi também blitz e pegou o exato momento em que Sarah parecia um personagem do filme The Rocky Horror Picture Show. Um tanto atrasados, os colegas a protegeram com casaco e guarda-costas a levaram para o hotel onde está hospedada. E como era de se esperar, Sarah com seu vasto guarda-roupas e na premissa de que seguro morreu de velho, algumas horas depois, ela reaparecia com um tailleur preto e com a elegância como se nada tivesse acontecido, mas não antes de postar no twitter: “Essa atitude foi de uma burrice fenomenal”.

A imprensa alemã ainda vinculou em seus portais digitais e redes sociais que a vice do partido cogita consequências jurídicas contra o autor do ataque. A polícia o autuou em flagrante e identificou a sua acompanhante no ato ativista. Logo depois, o vídeo já estava disponível no YouTube.

“Tortas para desumanos”

Assim é o lema da iniciativa antifacista. Sarah já foi a segunda vítima. A primeira foi a Beatrix von Storch, vice do partido de direita populista “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla) que vem ameaçando o espectro partidário da Alemanha, com grandes chances de angariar uma bancada na constituição do parlamento, o Bundestag. Dessa vez foi Sarah o alvo devido às suas declarações sobre a “necessidade de limitação de número de refugiados a entrarem na Alemanha” e argumentou com isso ” o limite de paciência de partes da população”. O posicionamento é de duas formas, infeliz: a primeira que aquela que incorpora a reminiscência do regime comunista, se mostrar tao pouco solidária com os refugiados, aqueles que não tem absolutamente nada. A outra, e essa é bem mais pérfida é que com esse discurso, Sarah ousa uma perigosa proximidade programática com o partido AfD, tentando assim “pescar” alguns dos seus eleitores. Há duas semanas, Sarah conversou com correspondentes estrangeiros radicados na Alemanha. Nesta ocasião ficou ainda mais cristalino que o partido não pode e nem, de fato, quer governar, mas prefere continuar na trilha daquilo que os analistas políticos denominam de “Partido de protesto”. “Tortas para os desumanos” é um dos poucos instrumentos de oposição fora do fora do parlamento e no âmbito ativista. Decerto que jogar torta na cara de alguém nunca é a melhor opção para conseguir qualquer coisa, mas o diálogo. Porém, se essa torta de chocolate teve algum efeito positivo, foi chacoalhar políticos de partidos estabelecidos tirando-os da zona de conforto e os obrigando a serem mais cuidadosos com suas estratégias eleitoreiras. Os comentários nas redes socias reagiram de imediato.

Entre solidariedade com a vice, muito zoeira: “Quem foi que teve que limpar aquela sujeira toda?”. O outro, mandou: “Se você pra jogar em mim, eu só quero se for Ferrero Rocher“, um bombom da produtora italiana Ferrero, a mesma que fabrica Nutella. A usuária Dota Joker, mandou: “A torta tem mais percentual do que o Die Linke“, alfinetando a fase ruim do partido. A emissora SWR, do sul do país, alfinetou: “Também os esquerdistas precisam comer. A sobremesa já está disponível“. Em 1999, também durante uma convenção nacional, mas na época do partido verde , Joschka Fischer foi atacado com sacos cheios de tina e teve a membrana do tímpano perfurada. Na época, o protesto era pela atuação da OTAN no Kosovo que Fischer como entao Ministro das Relações Exteriores, havia concordado.

Links relacionados:

https://www.youtube.com/watch?v=J4JhcjT7le4