Visita ao Parlamento: a vértebra política

Fátima Lacerda

07 de agosto de 2015 | 08h05

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Nesta semana, Bangu é aqui! Com temperaturas entre 28 e 38 graus (as apostas que sexta-feira o termômetro vai chegar à marca dos 40, já correm de vento em popa).

Por que cargas d’água foi escolhida essa agenda em dias que só se procura uma forma de fugir do calor? A Associação de Correspondentes na Alemanha (VAP), aproveitou as férias parlamentares e a baixa safra de pautas para convidar correspondentes radicados em Berlim para uma visita-guiada pelo Parlamento.

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O Reichstag é o  prédio que, antes de assumir em 1999 a função que preserva até hoje, presenciou e foi, por inúmeras vezes, protagonista e testemunha da historia da Alemanha:

Quando em 30 de janeiro de 1933, Hitler era votado “Chanceler do Reich”

Quando as tropas russas, em 1945, ocuparam Berlim, divulgaram o fim do imperialismo e o soldado russo ficou a bandeira da ex-União Soviética no teto.

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Quando durante a época da Guerra Fria, e da cidade divida, o prédio localizado no lado ocidental a beira do Rio Spree (o Rio que atravessa o centro de Berlim), e colado na linha de demarcação do muro, funcionada como lugar de exposição sobre a “História alemã”.

Foi nessa época, em excursão com a turma da escola, adentrei pela primeira vez o prédio que, anos mais tarde, seria o esqueleto da “Berliner Republik (A República de Berlim) batizada no contexto da transferência da capital de Bonn (a beira do Rio Reno).

Na seção inaugural do parlamento sobre o teto do Reichstag 19.04.1999 , eu estava presente na banca de jornalistas mesmo que ainda cursando a faculdade de Gestão Cultural e de Mídia.. Ao meu lado, Klaus-Peter Siegloch então âncora do principal noticiário da TV aberta, ZDF, e que logo depois foi promovido a correspondente internacional em Washington D.C.

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Christo & Jean-Claude e a teimosia prussiana

Durante muitos anos, o casal de artistas lutou para conseguir fazer uma instalação no prédio. Decerto que o casal já havia sido protagonista de vários projetos de cunho igualmente espetacular e de impacto midiático, mas ainda não haviam empacotado algo de  testemunha histórica tão única. Finalmente no verão de 1995, durante semanas, o prédio se tornou domínio urbano e a maior atração turística da capital (antes de Berlim sediar a final da Copa de 2006). A Banda Oludum, em turnê pela capital, se eternizou na grama com uma deliciosa batucada frente a este cenário.

Nem mesmo o fato da cúpula ter sido interditada no inicio da semana devido a temperatura lá em cima ter atingido a marca dos 50 graus, os correspondentes não amarelaram.

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Contrariando a tradição que brasileiros chegam sempre atrasados, eu fui a segunda a chegar de um grupo de 25 jornalistas. Carteira, controle de segurança. Na cadeira, uma jornalista da Malásia com uma burca rosa lendo um jornal alemão. Depois chegou um jornalista turco, seguido do espanhol que já se revelou de imediato pelo forte sotaque

Fomos o primeiro de ao todo 4 grupos a sermos levados a uma sala com uma vista deslumbrante do Rio Spree. ‘Igualzinho como na minha casa” disse em tom brincalhão o correspondente polonês. Na mesa, suco, água e café e uma bolsa de papel com o logotipo do Reichstag, recheada de material de informação.

O anfitrião e chefe da imprensa em âmbito administrativo, Horst Hebecker, chegou atrasado e protelou o inicio mais do que deveria. “Espero que vocês já tenham se servido de sucos e café”, entoou em tom burocrático enquanto segurava um dos livretos que informam sobre as diversas legislaturas desde 1949. “Quem tiver dificuldade em ler em alemão, temos também nas versões em inglês e francês”, como esse esse comentário contribuísse para um melhor clima.

Ao redor da mesa, entre outros, jovens chinesas que pelo deslumbre exibido, ainda não perceberam pra que vieram.  O jovem radialista holandês, o representante de uma agência de notícias e o simpático espanhol ao meu lado. A jornalista da Malásia queria saber da minha proveniência. Precisou o espanhol repetir 3 vezes para que ela entendesse: Brasil. O “Ahhh!” é sempre certeiro, como se o Brasil ainda fosse o país desconhecido que era quando eu cheguei aqui em 1988.

De repente, um senhor bem idoso saiu da parte de trás da sala e sentou exatamente bem na frente, ao lado do anfitrião, que para não perder a pose, se mostrou excepcionalmente solícito. Foi nesse momento que ele sorriu pela primeira vez. “Eu esqueci o meu aparelho de ouvido!”, disse o correspondente da Rádio Damascos e angariou risos em dose média e politicamente correta, pela sua espontaneidade e por quebrar o gelo, algo que o anfitrião, até o momento, ficara devendo. O jornalista sírio ainda aproveitou a proximidade do anfitrião, que nunca atende os jornalistas ao telefone, e disse: “Eu estou aqui para fazer uma reclamação!”. Silêncio mortal na sala. “No passado, a gente tinha uma credencial que valia por anos!. Agora, o procedimento é muito burocrático”, disse ele em voz de poucos amigos. “Me envie um email que eu vou ver o que posso ajudar”, disse Hebeker para desestruturar a saia justa em que acabara de ser colocado.

Tarefas de um chefe de imprensa

Enquanto discursava sobre o relevante cargo que ocupa e delineando toda a importância que é em ocupá-lo, Hebecker elogiou a constituição alemã como sendo “um dos melhores bens do país”. Mencionou o artigo número 5, que garante a liberdade de imprensa e atribui a ela um “papel central na democracia”. Entretanto mencionou as restrições perante aos seus colegas jornalistas.

Estranha ironia

Foi o mesmo Horst Hebecker, que ano passado proibiu a equipe do Heute show, o programa de sátira política e líder de audiência, de filmar nas dependências do parlamento colhendo uma tempestade virtual imediata que chegou até aos jornais de horário nobre. Falando indiretamente desse conflito, mas sem que os novatos entendessem do que se tratava, ele afirmou: “No exercício da liberdade de imprensa, há diferentes percepções, ai o pessoal já levanta a bandeira e afirma que a liberdade está ameaçada”, disse tom de ironia.

Os Custos

Jornalistas na Alemanha estão sempre interessados nos custos dos parlamentares”, afirmou Hebecker, angariando risos. Enchendo linguiça e tentando uma malemolência, delineou durante sentidas horas o fato de que a cúpula do Reichstag tem sido interditada nesses dias, devido à temperatura sentida de 50 graus. Ainda esclareceu que funcionários medem a temperatura de hora em hora: “É importante essa medida, por questões de saúde”, disse em tom cuidadoso e pecando por perder tempo com temas fúteis. 

Com a intenção de explicar para os correspondentes, em sua maioria recém-chegados, ele ratificou a dialética alemã de um discurso que te explica como funciona o mundo, sendo que o mundo, nesse caso, é o trabalho do parlamento e pelo cunho do discurso, as explicações foram de cunho subjetivo, sem a neutralidade necessária.

“Existe um âmbito de trabalho de imprensa que é responsabilidade das bancadas. Outro âmbito, é o da administração e esse é nosso trabalho. Além disso, nosso setor é o único responsável por requerimento de entrevistas do presidente do parlamento, Norbert Lammert“. Viajando na maionese, ele discursou sobre o incessável impetuoso de trabalho do presidente que “às vezes à noite de lembra que esqueceu de comer, com o excesso de uma maçã”. A voz de piedade chegaou a instigar compaixão com a magreza do presidente e a preocupacao se a proveniência da fruta era de agricultura local porque se não for, téra que ser aberta uma CPI. No mínimo!

O correspondente do jornal turco, Hürriyet, e com nada com a cara de bons amigos, focou suas perguntas teimosamente no fator custo. Queria saber se os parlamentares frequentam a cantina, se pagam por isso e quanto. As duas meninas chinesas eram as primeiras a ensaiarem as risadinhas, mas o radialista holandês tinha dificuldade em esconder seu entretenimento.  Quis também saber se os jornalistas podem convidar Hebeker para almoçar e se isso seria procedente em aceitar. “Nós nos revezamos”, uma dia fulano convida, no outro, eu que pago. “Vocês também podem comer na cantina. A comida é ótima e os valores são bem em conta e a cantina é um ótimo lugar para aumentar os contatos”, disse fazendo a propaganda. Que esses custos de alimentação são subsidiados pelo contribuiente, Hebeker não esclareceu.

O representante do Hürriyet também queria saber qual é o valor teto estipulado para presentes dados a parlamentares tendo na mente o controle da corrupção. “Não há um valor-teto” disse Hebeker, um tanto inseguro e mandou uma frase que exibiu o seu despreparo para perguntas de correspondentes que já vivem há anos na capital: “Eles só não podem ser descobertos e precisam tomar cuidado para a imprensa não tomar conhecimento.” O jornalista ainda queria saber. “Quantos funcionários os parlamentares podem contratar?” Hebeker foi indeciso na resposta. Num outro item, do qual não me lembro, o porta-voz também não tinha a resposta e mandou: “Você pode achar tudo isso na página do setor de imprensa do parlamento”. O turco não deixou barato: “Já que temos a sua presença física, achei que poderíamos ter essa informação diretamente do Senhor” enquanto exibia um sorriso de caráter fuliminante. Xeque Mate!

As minhas perguntas foram bem específicas. Por exemplo, como se dá o âmbito logístico de uma votação no plenário como no caso da que votava o início das negociações com a Grécia. Na segunda-feira de manha foi feito o aviso do acordo, na quarta seguinte o parlamento grego votou e dois dias depois, na sexta-feira, o parlamento alemão deveria votar. Quis saber como funciona o processo de informação interna. Quem manda e-mail pra quem? Esse procedimento exige horas de reunião entre as bancadas, que precisam fixar os itens da ordem do dia, precisam concordar sobre o tempo de discurso para cada representante, etc. Enfim, uma tarefa de Hércules. Sobre a minha pergunta se o departamento de imprensa está envolvido na concepção da revista mensal “O Parlamento”, ele desviou e não respondeu. As outras perguntas foram de âmbito tao específico que me renderam, na saída, perguntas como: “Você já está em Berlim há muito tempo né?”, afirmou com olhos arregalados a jornalista da Malásia. “Você fez um monte de fotos. Vai fazer matéria?”, pergunto o simpático espanhol que disse ser freelance para 10 jornais espanhóis. “El País”, também? Perguntei: “Não, o El País já tem 2 correspondentes fixos aqui. Não precisa mais de um”, disse em voz de pesar.

Entre os fatos mais interessantes nos plenários do parlamento e o entre e sai de Estenógrafos. Para mim foi novo o fato de que os discursos feitos nas seções são protocolados por estenógrafos e não gravados em áudio ou vídeo. Hebecker explicou: “O que muita gente não sabe, é que os estenógrafos conhecem todos os membros do parlamento, atualmente 641. Ele não protocolam somente os discursos, mas todo o tipo de manifestação. Do tipo assim: fulano está no microfone, alguém láaaaa de trás grita: “isso é maior cascata!”, o estenógrafo escreve: “Fulano de tal, bancada X, disse: “é a maior cascata!” Na sequência, os próprios parlamentares precisam dar o sinal verde para a publicação na internet. Hebecker acrescentou que no pós-globalizado em que vivemos, é muito difícil encontrar funcionários que ainda trabalham com estenografia. Essa prática, além de ter sido justificada como tradição, é no mínimo, instigante a teimosia de preservá-la.

Na sequência da palestra, o guia Dr. Wirth, formado em Ciências Políticas, nos guiou pelo Parlamento. Mesmo já tendo estado inúmeras vezes em plenários e cerimônias de votação para Presidente, descobri detalhes instigantes, detalhes esses explicados com simpatia e competência pelo senhor de cabelos brancos. Quem senta aonde, em que fileira e que fora os lugares dos chefes de bancada, os parlamentares tem escolha livre de seus assentos. Brincando ele disse: claro que tem uns que procuram um lugar estratégico, o que a gente batizou de “efeito Mallorca”, para estar sempre na lente da TV e com isso, angariar simpatia dos eleitores. Durante o percuso, deparamos com a maquete, concebida pelo Star-Arquiteto inglês, Sir Norman Foster.

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O ápice da visita 

Mesmo com a cúpula fechada, o grupo foi conduzido para o terraço. A vista é, para dizer ao mínimo, deslumbrante. Sobre um sol de 36 graus e umidade relativa do ar no ground zero, me deslumbrei com as diversas perspectivas. Espanhóis faziam Selfis, grupos polonês, russos e todo mundo ali encarando o sol de Bangu no coração de Berlim, no terraço da vértebra da República de Berlim. A saída foi pela porta principal, aquela com as colunas e o escrito “Ao povo alemão” (Dem Deutschen Volke). Descer as escadas pela porta da frente foi pra mim, uma première, que será inesquecível por vários motivos e o calor de Bangú, decerto, será um deles.

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Outro fato até então inusitado, é o muro dentro do prédio que ainda mostra as pichações do soldados russos ao tomarem Berlim em 1945.


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