Viver sem tempos de terror é utopia. Paris é logo ali

Fátima Lacerda

10 Janeiro 2016 | 11h28

Esse seria o melhor voto para 2016. Porém o ano já iniciou com um arrastão super bem preparado e executado na cidade de Colônia.

Mulheres foram atacadas, molestadas, estupradas em volta da estação central ferroviária da cidade.

O efeito midiático depois do hibernar do final do ano foi se delineando ao longo da semana que hoje termina. Mas quando a mídia, como quarto poder no Estado começa, ela não para no meio do caminho. 10 dias depois do ocorrido foram registradas 379 queixas na polícia. 40% desse percentual é devido a assédio sexual.

Com o vazar de cada vez mais detalhes em ritmo de hora em hora sobre o fracasso da polícia de Colônia, o chefe da polícia, Wolfgang Albers, não teve como se manter no cargo. Na sexta-feira (08) foi “imediatamente afastado e já está no estágio de pré-aposentadoria, denominação usada de praxe, usando de um eufemismo, para não dizer, explicitamente, que a carreira está acabada. Nesse caso, de um jeito ou de outro.

A sua suspensão foi justificada com o imenso desafio que é a preparação das tradicionais festas carnavalescas de Colônia, que junto com a cidade de Mainz, perto de Frankfurt são os dois polos do carnaval do país, assim como a necessidade de “recuperar a confiança dos habitantes da cidade no aparato policial”, assim a declaração curta e grossa de Ralf Jaeger, secretário do Interior da Renânia do Norte-Vestfália (NRW), .

Entre as críticas mais severas da mídia e de políticos de todos os partidos é a postura de Albers não ter, logo de início, revelado a nacionalidade dos suspeitos de ataques às mulheres. Sua postura seria entendível, se a Alemanha não vivesse num outro momento, não no  momento insano em que é uma tarefa de Hércules separar alhos dos bugalhos, mais do que isso:manter a calma.

Tentar esclarecer os crimes realizados em Colônia colocando esse ocorrido em dependência direta com a questão do 1 milhão de refugiados que a Alemanha acolheu em 2015, seria se render à simplicidade oportunista e fornecer, de mão beijada, adubo político os populistas de direita na Europa e também para grupos neonazistas. Nisso Albers agiu corretamente, porém, no momento inoportuno.

Se é que se pode tirar algum aprendizado da noite de réveillon em Colônia é que a integração de refugiados será uma Força-Tarefa e que com a “Cultura de boas-vindas” e o “Yes, we can” da chanceler não será suficiente. Esse número de refugiados precisa ser integrado no país: ter acesso a cursos de alemão, à escolas e à universidades, obter a perspectiva de inclusão social. Muitos dos “novos alemães” serão um acréscimo para o país, outros trarão muitos problemas de ordem social e política e religiosa. O que já é fato, é que esse 1 milhão de pessoas vai transformar o país. Como, ninguém ainda pode saber.

A noite de caos e criminalidade de Colônia mostra claramente que os órgãos policiais, e não só os da cidade à beira do Rio Reno, não estão preparados como necessário e urgente. 

DPAMan-shot-dead-outside-Paris-police-station-prompting-terrorism-f.jpg©DPA

O homem morto em Paris no dia 07 em que completava um ano ao ataque a redação do jornal “Charlie Hebdo” usou várias nacionalidades em pedidos de asilo na Alemanha: a marroquina, a georgiana, a síria e argeliana. O fato dele ter desenhado a bandeira do chamado Estado Islâmico (EI) na parede do abrigo de refugiados, ter tirado foto com a bandeira do IS no jardim não ter chamado a atenção imediata dos responsáveis, mostra claramente a sobrecarga e insuficiência logística dos municípios. Apesar da polícia alemã ter tomado conhecimento do ocorrido no abrigo e, na sequência tê-lo classificado como “perigoso” e ter conhecimento de seus crimes, 2 pelos quais ele foi condenado, seus diversos registros dificultaram o trabalho da polícia, que por incrível que possar parecer, AINDA não possui uma software única para todo o país. 

Walid Salihi, assim o nome com o qual se apresentou na Alemanha foi registrado pela primeira vez no país em 01 de dezembro de 2013. Segundo o chefe da Agência Estadual de Investigaçoes, ele imigrou para a Alemanha depois de ter vivido cinco anos ilegal na França. A LDK (na sigla em alemao) também afirma que Salihi já cumpriu pena em presidiárias das cidades de Heinsberg, Iserloh e Bochum pelos crimes de porte ilegal de armas, agressão e contrabando de susbtâncias ilícitas. Em dezembro de 2015 Salihi desapareceu do abrigo de Recklinghausen sem deixar rastros.Não é preciso ter bola de cristal para saber que já nas primeiras horas da nova semana que inicia, as vozes criticando o fracasso da polícia irão dominar as manchetes e o desdobramento do debate político.

Lieberation841349-facelly_barbes_034jpg.jpg©Liberation/Albert Facelly

A polícia francesa só conseguiu desvendar o mistério porque o homem estava em posse de um chip alemão de telefone celular. Segundo declaração de um casal que se apresentou como seus pais, que segundo informações do jornal francês Libération o reconheceram através das imagens de vídeo divulgadas no portal da rádio Tunísia Sabra FM, afirmam que Tarek Belgacem é nascido na Tunísia e que ele queria adentrar delegacia em Paris “para regularizar o seu passaporte”.

Paris é logo ali

Com a notícia divulgada nas primeiras horas da manhã de hoje (10) que o homem que tentou invadir a delegacia em Paris foi refugiado na Alemanha na cidade de Recklinghausen vai aumentar ainda mais a histeria e a falta de discernimento para tomar as devidas providências. Com a intensificação do eco midiático associando, direta e indiretamente o ocorrido em Colônia na noite do réveillon com a “política de abertura de fronteiras de Merkel”, os políticos vão ficando nervosos e logo começam formar um menu de sugestões Blitz, pra entrarem em vigor ontem, como se fosse possível voltar o passado. “Leis de deportação mais duras” é um dos exemplos já vinculados pelo Twitter, pelo Ministro da Justiça, o socialdemocrata Heiko Maas que, geralmente, mostra postura comedida em momentos de crise e tensão, não conseguiu se render ao leilão de quem da mais e de quem chega primeiro na corrida atrás do prejuízo, não do das mulheres que foram vítimas na noite de revéillon, mas atrás do iminente prejuízo político .

Insana dinâmica dos fatos

Ainda no início desta semana, na cidade de Willibad Kreuth, o “Rei da Baviera”, Horst Seehofer exigiu o limite de 200.000 refugiados por ano. Com a notícia do homem morto em Paris, sua exigência ganha novo adubo e, pela dinâmica dos acontecimentos, pode até se tornar realidade.

Peter Gauweiler, um ex-do alto escalão do partido da Baviera (CSU), tentando tirar capital do momento propício e dar uma saidinha do seu ostracismo político, sugeriu ao seu partido que quebre a coalizão com o partido de Merkel em Berlim. A chanceler Merkel vai precisar de muita firmeza para aguentar a avalanche de sugestões que ainda vem por ai.