Ministério Público abre inquérito contra Martin Winterkorn, ex-CEO da Volkswagen

Fátima Lacerda

28 Setembro 2015 | 10h09

abgasuntersuchung-bei-einem.jpg©DPA

Volkswagen, símbolo mór de tecnologia de ponta, eficiência e qualidade alemães, vive um terremoto econômico e corporativo. Aquilo que era o sinônimo de qualidade de produto feito em “West Germany” e depois da Unificação, “Germany”, sofre um escândalo de gravidade comparável com  de 2007. Na época, vazou a informação que o Chefe do Conselho de Funcionários (Betriebsrat) da empresa fazia, regularmente, viagens de Sexo Turismo pela Europa e que incluía visitas a bordéis em Madri e Praga. Presentes caros e visitas a estabelecimentos com regalias e status de “preferência” assm como viagens para concubinas eram pagos com dinheiro da VW.

Há poucos dias, o escândalo envolvendo uma software manipulada e, por consequência, ilegal, vem transmitindo maior quantidade de poluentes do que o permitido pelo Departamento Alemão de Veículos Motorizados. A Marca das Marcas e que eternizou o Fusquinha em todo o mundo ganha, mais uma vez, um tremendo arranhão em sua imagem construída durante décadas. Analistas consideram esse escândalo envolvendo a software usada de forma ilegal como “a maior crise corporativa do pós-guerra”.

Aberto inquérito

As agências de notícias divulgaram no início da tarde, horário local, que o Ministério Público abriu inquérito contra Martin Winterkorn, ex- CEO da Volskwagem e que, somente depois de massiva pressão midiática, teve que renunciar, mesmo depois de, muito afoito, ter primeiramente declarado “não ver motivo para abdicar do cargo”.

Segundo fontes do Ministério Público, a decisão de abrir inquérito se deve a inúmeras queixas policiais vindas de todo o país, incluindo uma da própria Volkswagen, entretanto sem mencionar qualquer suspeito, o que juridicamente é chamado de “Queixa policial contra desconhecido”. Ainda segundo ao MP, o foco é “esclarecer as responsabilidades”. Ao todo, é estimado o número de 11 milhões de automóveis que estejam com a software ilegal. Por ironia, toda a mazela foi divulgada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. Logo os americanos, um povo de quase inexistente preocupação com fatores ambientais, ou seja, bem diferentes dos eco fanáticos, os alemães. A dica para EPA foi dada por Peter Mock, diretor do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT). A ONG fornece aos órgãos ambientais, análises científicas e testa, regularmente, o nível de emissão de gases poluentes em vários modelos de automóveis. Já nos testes realizados em 2014, Mock já constatou “irregularidades em modelos de carros europeus movidos a Diesel”. Instigado ele passou a bola para o seu colega americano, que por ironia do destino, se chama John German, para que fizesse os mesmos testes com carros da Volkswagen nos EUA. “Na realidade, não tinhamos quaisquer motivos para testar os carros da VW, já que tinhamos certeza que os carros na Europa são “mais limpos” do que nos EUA, já que lá, os regulamentos se mostram mais rígidos nesse âmbito“, declarou German à Agência de Notícias Bloomberg.

A Tese das Forças Ocultas

Em programa em horário nobre da TV Aberta, ARD, Axel Friedrich, experto em assuntos de trânsito e meio ambiente, perguntado pelo apresentador se a VW “não teria dormido no ponto”, ele foi taxativo: “De jeito nenhum, eles dormiram no ponto. Porém os testes, na Alemanha, em geral são feitos pra inglês ver. No caso específico da montadora de Wolfsburg, o que pesou foi o fator custo que, numa empresa guiada da forma autoritária como a VW, o cambalacho e atos de ma fé acabam se tornando obrigatórios. Em forma alguma a VW está sozinha nesse mar de falcatruas”, explicou. Em um país onde entre 6 e 10 vagas e trabalho, uma delas está ligada direta ou indiretamente à indústria automobilística, um escândalo desses causa grande desdobramento de tentáculos e pessimismo no setor econômico.

Anja Kohl, economista e analista do principal noticiário de TV trouxe à baila uma ousada tese, polemizando uma roda de convidados de segunda linha, daqueles que também ouviram falar e não estão diretamente envolvidos. O desfalque foi também resultante do fato que o Ministro dos Transportes, Alexander Dobrindt, do partido CSU, da Baviera, recusou à ida ao programa na noite de domingo (27).

Quem tem interesse em enfraquecer o Diesel? Desde 2009, na onda da crise econômica, com a quebra de vários mercados, na sequência veio a competição na indústria automobilística que se mostrou muito agressiva”, polemizou Anja. . Axel Friedrich contesta a tese e afirma “que não é hora de teorias mirabolantes” e para alfinetar ainda acrescentou que o próprio CEO da VW americana usa um carro fabricado e montado na cidade de Wolfsburg. Para completar o cenário cada vez mais abrangente do escândalo, cadernos de economia já desenham o apocalíptico para a cidade de Wolfsburg: “Sem a Volkswagen, Wolfsburg não existe”.

O escândalo envolvendo a ex- Marca Exemplo da eficiência e confiança na qualidade de produtos alemães, movimentará setores jurídicos, econômicos e corporativos, mas com esse escândalo, a freguesia alemã que, em posse de um VW se mostra cada dia mais insegura se “o melhor amigo do homem”, o que para os alemães é (sem qualquer dúvida) o carro, está em porte de uma software ilegal e fora dos conformes na emissão de gases poluentes.

Um artigo publicado no jornal Bild am Sonntag (27) se diz em posse de um documento emitido pela Bosch (que disponibilizou a software) em 2007, alertando à montadora “sobre o uso ilegal de sua tecnologia com vista ao pós-tratamento de gases poluentes“. Ainda na carta emitida pela Bosch foi alertado sobre o perigo de “usar a software fora do âmbito somente de testes“. Em suma: Não foi falta de aviso. Tudo indica que o fator custo e a ex-chefia da VW sob o comando de Martin Winterkorn, apostou alto demais numa perigosíssima jogada de poker que deveria ter custos enxutos somados à uma operação de grande risco de manchar de forma irreparável a imagem da empresa que precisará de muito tempo para se recuperar dessa “mancha corporativa”.