Votação na Embaixada em Berlim: entre canções, conversas, saudades, euforia e paúra

Votação na Embaixada em Berlim: entre canções, conversas, saudades, euforia e paúra

Fátima Lacerda

28 de outubro de 2018 | 19h18

A votação do segundo turno pelas eleições presidenciais na Embaixada brasileira decorreu de forma bem mais organizada do que no primeiro turno. No dia 07/10 a média de espera para votar era de uma hora.

Cheguei no prédio que fica no centro de Berlim por volta das 13:00 horas (horário local) vi pessoas espalhadas pela calcada, membros de apoio dentro e fora do prédio, orientavam os eleitores. Os nomes dos eleitores aptos estavam pregados em listas na parte de dentro no vidro da embaixada. Antes de entrar, era preciso checar o número da zona eleitoral. Comparando com as eleições de 2014, as zonas sofreram reformulação. 

A zona 1711 tinha fila longa, enquanto as zonas vizinhas mostram uma marcação de fita branca no solo sem ninguém. Levei o meu RG e o meu Título de Eleitor com todos os comprovantes das últimas eleições. Fui gentilmente pedida para me deixar a minha bolsa na cadeira e não levá-la à cabine.

Não era possível delongas no espaço físico da sala. Seu João Eudes, um antigo funcionário da embaixada fazia o papel de Master of Cerimonies, desejando a cada eleitor e a cada eleitora em suas saídas do local um “Boa Tarde”. Berlim sempre foi um Underdog, sempre foi símbolo de desestruturação de códigos de comportamentos hierárquicos. Seu João, com sua essência paraibana e seu humor imperdível, quebrou o protocolo.

Na calçada de um domingo de ar gélido e primeiro dia depois do fim do horário de verão, brasucas tiravam fotos, discutiam sobre política, colocavam o radinho de pilha em cima do teto de um carro estacionado. Mais tarde alguém botou pra tocar a música do Geraldo Vandré. Ao contrário de outras ocasiões na embaixada como a festa do 07 de Setembro, por exemplo, neste domingo (28), não havia nenhum carro de polícia do outro lado da calçada. Por parte dos responsáveis por um andamento sem problemas, o clima era de grande atencão, por parte das eleitoras e eleitores, sentimentos e expressões das mais diversas. Muitos tiravam fotos segurando livros. 

O foco mais cobiçado para tirar fotos era a bicicleta da Gisele, carioca e com mestrado em roteiro de cinema Escuela Internacional de Cine y TV, EICTV, em Havanna.

Alguns grupos foram esticar na padaria alemã pertinho da Embaixada. Outros (incluindo a minha pessoa) ficamos desafiando o frio gélido até que fossem divulgados os resultados oficiais em forma tiras de papel, tipo nota de supermercado que foram colocados no vidro da porta da Embaixada. Entre a galera que havia “sobrado”, tinha um alemão e segundo o seu cachecol o revelava, ele é torcedor do FC Union Berlim, o time da segunda divisão e que tem um caráter Cult na capital.

Brasileiras davam verdadeiras aulas (para iniciantes) de política brasileira e como a coisa “lá” funciona.

Entre esperança e Paúra

Como brasileiro não desiste nunca, o clima em todo da votação em Berlim era de uma resistência alegre e nada sisuda como exercitam os alemães. Muitos usavam a cor vermelha. No final da tarde uma motocicleta passou em toda a velocidade na frente da embaixada. Nela, dois brasileiros vestidos de preto e enrolados na bandeira do Brasil. Quando passaram na frente do prédio da embaixada, gritaram o nome do candidato do PSL e foram vaiados na sequência.

Para descontrair, matar as saudades das iguarias e esquentar os corações por dentro e por fora, a Bia estava vendendo coxinhas e rissoles. Tudo bem que eles tinham sido fritos na manhã de domingo e estavam frios, mas o sorriso largo, sincero e despretensioso da Bia, faz até esquecer o valor salgado de 3,00 por uma coxinha ou por um rissole. O interesse era grande, medido na fila para comprar. Bia é conhecida no cenário brasileiro, não sô por ter um stande fixo no mercado turco todos os sábados no bairro de Kreuzberg. Um dos eleitores perguntou se a coxinha era 17. Eu mesma tomei as rédias e, sem pestanejar disse: “Se for coxinha 17 causa indisgestão! Ele, levou na esportiva, se revelou eleitor do candidato do PSL, mas declarou ter anulado o voto e ainda pediu para que não contássemos pra ninguém. Pegou a coxinha e foi embora.

Em conversar com brasucas que não conhecia, entrei numa roda de pessoas muito interessantes, de discurso de grande conteúdo e deparei com Rafael, um paulista que tem mestrado em Políticas Públicas cursado na escola de formação de elite, Hertie School of Government e trabalha numa ONG que faz pesquisa sobre campanhas eleitorais na internet, não só no Brasil, mas em muitos países.

Perguntei a Rafael o que, especialmente o segundo turno das eleições, significa para ele.

Nem as músicas, nem as conversas (algumas pseudo-descontraídas) escondem de fato a paúra que ali imperava que, desta vez, as pesquisas de intenção de voto tenham razão e o candidato imprevisível venha a ganhar as eleições. É uma questao cultural, o brasileiro nao perde a ternura, nem euforia nem um tanto de exagero de otimismo. Faz parte da arte de sobrevivência.

O outro lado da moeda é que em vários discursos se falava da importância da “resistência da sociedade civil” a partir de agora. Se num sistema de extrema-direita é factível, eu duvido, mas não importa em que âmbito: em questões pessoais, de trabalho ou políticas. é preciso seguir em frente.

Em todas as urnas da Embaixada em Berlim, o candidato do PT saiu vitorioso.

Segundo da Deutsche Welle (DW), o resultado em Berlim teve os seguintes números:

Haddad (PT) obteve 1.557 votos (73,7%)

Jair Bolsonaro (PSL), 557 (26,3%).

Votos brancos: 77

Votos nulos: 103

Twitter: FatimaRioBerlin

Instagram: rioberlin2018

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