Walter Salles e Wim Wenders juntos para celebrar a sétima arte

Fátima Lacerda

11 de fevereiro de 2015 | 21h53

São inúmeras as entrevistas que Walter Salles vem dando nos últimos dias em sua passagem pela capital para promover o filme “Jia Zhang-ke um homem de Fenyang“.

Equipes de TV da Itália, do Japão, Coréia, Alemanha e claro, do Brasil engarrafam os corredores e quando a sala reservada precisa ser desocupada porque o tempo de uso estrapolou, a entrevista é improvisada no corredor do quinto andar do prédio onde ficam os escritórios das mostras paralelas.

TVs chinesas com microfones colados em placas em formato de retângulo, com fundo branco, letras garrafais e (claro) vermelhas com dizeres que só os que dominam o mandarim podem desvendar, além de solicitar ao entrevistado que ele mesmo segure o microfone durante a entrevista. Quando se falava sobre o tal retângulo, Walter arriscou a ironia: “Será que é alguma contra o governo (chinês)?”

Depois de Berlim, a próxima estação é Paris, mas antes disso, existe algo pendente na capital, algo que será o ápice da estada em solos prussianos na noite de quinta-feira (12).

Tapete vermelho para a sétima arte

O diretor Wim Wenders, que está sendo homenageado com uma Retrospectiva nessa edição do fesitval, será condecorado com o Urso de Honra (Ehrenbär, em alemão), prêmio concedido pela contribuição ao cinema ao longo de uma carreira. Os americanos chamam isso de Lifetime Achievement.

Dieter Kosslick, diretor, mente, coração do festival e sempre com uma surpresa na cartola, escolheu o ganhador do Urso de Ouro em 1998 para fazer o discurso e entregar o premio a Wenders e como se essa dobradinha não fosse suficiente, na sequência da premiação que acontece às 22 horas (horário local), será exibido no Berlinale Palasst,  „O meu amigo americano” em copia restaurada pela Fundação Wim Wenders. O cartaz original do filme, em tamanho XXL, está exposto em Berlim.

201507267_1-300x110.jpg©Berlinale

A escolha de Walter Salles para entregar o Urso é mais do que procedente, já que com seu filme atual sobre o cineasta chinês Jia Zhang-ke , Walter ratifica, em definitivo, que bem antes do rótulo de sua origem geográfica, Walter é, acima de tudo, um cineasta e seu atual trabalho mostra de forma simples e orgânica que é um diretor em perfeita sintonia com o Zeitgeist, talvez no momento mais completo de sua carreira.

201507267_2.jpg©Berlinale

Quem acha que o filme “Um cara de Fenyang” é de temática inusitada devido à distância geográfica entre Brasil e China, vai esfregar os olhos, de novo e de novo. Vai se surpreender ao constatar o quanto de similaridade existe entre essas duas culturas. Os atropelos, a necessidade de resgate e de preservar a memória cultural e pessoal são temas globais e regionais em termos de espaço físico, que está presente em qualquer o lugar.

A propósito em fechar um ciclo…

Depois do triunfo com “Central do Brasil”, que arrebatou os Ursos de Ouro e de Prata, esse último como melhor atriz para a maravilhosa Fernanda Montenegro e mais algumas presenças de Walter em seções paralelas, o convite para a entrega do prêmio a Wenders o crava odefinitivamente no grupo dos cineastas contemporâneos de maior importância e o melhor de tudo isso: Walter permanece curioso com a supresa nos olhos como se tivesse vendo algo pela primeira vez. Sabe ouvir e preza (não só nos seus filmes) a pausa entre os diálogos, a reflexão do discurso. Todos esses ingredientes são imprescindíveis para que o sucesso não venha ofuscar a visão do que é cinema e no melhor estilo glauberiano, a capacidade de transformacao através dele. A frase legendária de Fassbinder, completa o cenário: “Filme liberta a mente”.

Certamente enriquecido pela dialética jiana, teimando no exercício de relativizar quando diz: “Eu acho que pode ser isso…”, Wenders ganha o Urso, mas é Walter que sai premiado de Berlim .

Para notícias do festival, acesse ou siga o Twitter: CinemaBerlin

 

 

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