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A amizade de Kerry e Assad pode ajudar a Síria

gustavochacra

18 de fevereiro de 2013 | 11h50

Apesar das críticas que vem recebendo normalmente de pessoas incapazes de apontarem Damasco em um mapa, o presidente Barack Obama tem lidado bem com a crise Síria ao não se envolver diretamente com a oposição. Embora corretamente condene a violência do regime, o líder americano fez bem ao não armar os opositores, especialmente alas mais radicais ligadas à Al Qaeda, e insistir em uma saída diplomática. Afinal, ambos os lados são acusados de crimes de guerra pela ONU.

No fundo, Obama sabe que não existe solução para a crise síria e vê com ceticismo propostas para armamento dos grupos opositores, feitas pela sua ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, e o senador republicano, Joh McCain, a favor de ações neste sentido.

Agora, além de sua própria visão, Obama contará com os conselhos de John Kerry. De todos os líderes ocidentais, o novo secretário de Estado é o que mais bem conhece Bashar al Assad. Os dois eram praticamente amigos até dois anos atrás e ele tem sim a capacidade de servir como um mediador sério.

Kerry afirmou que usará esta sua relação com Assad para tentar convencer o líder sírio a deixar o poder, possivelmente em uma transição incluindo integrantes do atual regime, que  aindadesfruta de relevante apoio popular, e também membros da oposição. “Eu entendo seus cálculos (de Assad) e acredito que existem métodos que possam alterá-los”, afirmou.

Além disso, em algo raro no Ocidente que dá erroneamente Assad como derrotado, o novo secretário de Estado americano conhece bem a equação da guerra civil síria – “Neste momento, o presidente Assad não acha que está perdendo. E a oposição pensa que está vencendo”. Perfeito. É exatamente isso o que ocorre. Na prática, um não consegue derrotar o outro.

Sendo realista, a Síria não terá paz nem no médio prazo. Milhares de mortes ainda acontecerão e há uma forte probabilidade de o conflito se agravar. Isso independe da queda ou não de Assad. Afinal, se ele cair de repente, haverá um vácuo de poder, a não ser que o regime consiga se manter aos trancos e barrancos mesmo sem seu líder.

Kerry pode, com calma, ir tentando negociar a saída menos péssima para a crise síria. Esta envolveria a tentativa de afastar os radicais islâmicos do futuro governo, não eliminar com a burocracia de estado e as Forças Armadas mesmo se cair o regime, evitando o erro no Iraque, e garantir a segurança das minorias cristãs e alauítas que podem ser alvo de represálias por apoiarem Assad (sim, a maioria absoluta dos cristãos sírios, que são 10% da população, apoia o regime de Assad). Se possível, que eleições democráticas sejam realizadas em 2014 e o país não se desmembre, com a costa mediterrânea ficando um Estado a parte liderado por alauítas e cristãos.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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