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A Guerra Fria do Oriente Médio

gustavochacra

10 de abril de 2009 | 20h52

Em uma espécie de guerra fria que já se prolonga por alguns anos, países árabes capitaneados pelo Egito e aliados dos EUA têm disputado com o Irã a influência política sobre a região.

Os egípcios e jordanianos têm acordos de paz com Israel. O presidente do Egito, Hosni Mubarak, recebeu a ministra das Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni, no Cairo, menos de um dia antes do início dos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza. Nesta semana, o Egito prendeu supostos agentes do Hezbollah que estariam envolvidos em um plano iraniano para cometer atentados no Sinai. A ação egípcia teria sido coordenada com Israel.

A Arábia Saudita patrocina a proposta de paz para os israelenses em troca da retirada dos territórios palestinos. Riad, Amã e o Cairo desfrutam de boas relações com o Fatah, grupo do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que governa a Cisjordânia. Do outro lado, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmedinejad, propaga um discurso anti-Israel e dá apoio ao Hamas e ao Hezbollah. Seu único aliado na região é a Síria, pelo menos por enquanto.

O primeiro grupo, próximo aos EUA, é composto por regimes ditatoriais ou monarquias majoritariamente sunitas e árabes, mas alguns desses países, como o Egito, têm governos seculares. O Irã é persa e xiita, religião minoritária em todos os países árabes com a exceção do Iraque e do Bahrein (cuja monarquia é sunita), além de ser a pluralidade mais expressiva no Líbano. A Síria tem maioria sunita, mas o presidente Bashar Al Assad é alauíta e lidera um regime abertamente secular. Dessa forma, a divisão entre os países não se dá exatamente entre xiitas de um lado e sunitas do outro. Mas sim na maneira como eles enxergam o futuro do Oriente Médio.

São três os principais pontos de divergências entre os dois campos – o Iraque, o Líbano e os palestinos. No primeiro, há a disputa para saber quem exercerá mais influência neste país após a retirada americana. O Iraque é majoritariamente xiita, o que, em teoria, o aproximaria de Teerã. Mas é árabe, o que o aproximaria dos outros vizinhos. Portanto, não se trata de uma questão simples de se resolver. Sem esquecer que xiitas iraquianos lutaram contra o Irã na guerra dos anos 1980. E árabes iraquianos (sunitas e xiitas) invadiram o Kuwait no início dos anos 1990.

No Líbano, o Irã e a Síria apóiam o Hezbollah, que é xiita e já travou uma guerra contra Israel. Os outros países são aliados da coalizão 14 de Março, controlada por sunitas não religiosos (cristãos e drusos estão divididos entre os dois lados). Em junho, haverá eleição colocando os dois lados frente a frente. Será uma espécie de termômetro para ver quem sairá mais forte.

O Hamas, mesmo sunita, está próximo do Irã, especialmente pela ajuda financeira e o discurso comum sobre Israel. O Fatah, apesar de divergências históricas com nações árabes, tem se aproximado do Egito e da Jordânia, que enxergam o partido como mais moderado. Além disso, o Hamas foi criado com inspiração na Irmandade Muçulmana, principal grupo opositor tanto no Egito como Jordânia. Neste caso, a ironia coloca lado a lado o Hamas, que é sunita e árabe, com o Irã, persa e xiita. Algo inimaginável para quem enxerga a região através apenas de questões étnicas e religiosas.

A Síria , apesar de estar do lado iraniano, vinha negociando indiretamente um acordo de paz com Israel. O conflito em Gaza congelou o diálogo. Mas deve ser reaberto com o envolvimento mais forte da administração de Barack Obama. Neste caso, o lado “pró-EUA” do conflito ganharia um aliado de peso e alteraria a balança de poder na região. O problema é que, no Líbano, os aliados americanos da 14 de Março se sentiriam traídos. E Bashar al Assad não garante que a paz com Israel significará o rompimento com Teerã.

Um dos motivos para a Guerra Fria é que o Irã passou a oferecer os mesmos riscos que Saddam Hussein quando governava o Iraque, desenvolvendo um programa nuclear e – no caso iraquiano – invadindo o Kuwait. Os países pró-EUA temem que o regime iraniano possa provocar instabilidade em toda a região. Para o professor da Universidade Columbia, Rachid Khalidi, os regimes árabes temem mais o Irã do que de Israel. “Mas a maioria do povo árabe se preocupa muito mais com os israelenses. Isso demonstra como esses regimes não representam as suas populações”, afirmou o professor em entrevista para o Estado.

Três países são não-alinhados. O primeiro é a Turquia (que não é árabe). Membro da OTAN e com relações militares e diplomáticas com Israel, surpreendeu com as duras críticas aos bombardeios israelenses. O governo de Erdogan adotou uma postura mais engajada nos conflitos da região. Mas os turcos jamais serão um parceiro inferior nas relações com o Irã ou com o Egito. Seria como o Brasil ter que se decidir entre o Chile e a Venezuela.

O Qatar é o anão que quer ser gigante. Funcionou nos acordos de paz no Líbano, evitando uma nova guerra civil. Em Gaza, entrou em choque com o Egito. Países da região tampouco admiram o Qatar por causa da rede de TV Al Jazeera, bem crítica às ditaduras regionais. Apesar de não ter grandes problemas com o Irã, não pode ser considerado um aliado.

Omã, conforme explicarei nos próximos dias, optou por uma postura neutra, ativa e que busca não chamar a atenção. Serve, inclusive, de canal secreto de diálogo entre o Irã e os Estados Unidos.

. Texto baseado em reportagem escrita por mim na edição impressa do Estado, mas com atualização e acrescimo de informações

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