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A história da pobre avó matriarca que emergiu dos escombros de Porto Príncipe

gustavochacra

17 de janeiro de 2010 | 00h50

Uma matriarca surgiu das ruínas de uma casa destruída na rua JJ Salines, onde não existe mais nenhuma edificação de pé. Aos 80 anos, ela sobreviveu ao terremoto sob toneladas de escombros. Não tinha nada. Apenas respirava não se sabe como. Perdeu alguns parentes. Mas conseguiu se salvar. Gritou até ser ouvida por haitianos que vagam pelas ruas com fome e sem sonhos neste apocalíptico país de ditaduras e terremotos.

Equipes de resgate dominicanas e panamenhas começaram a cavar, com a ajuda de máquinas. Ela sofria. De longe, observei a sua mão. Estava viva. Bem diferente de uma cabeça em decomposição, com os cabelos ensangüentados que tinham se tornado alimento para as moscas a cerca de dez metros de distância. Imediatamente, foi colocada em uma maca. E já começou a dar ordens como uma avó libanesa, judia, italiana, ou mediterrânea. Ou haitiana, como era o caso de Jean Batiste, um nome feminino em Porto Príncipe, e também de sobreviventes como a matriarca e a enfermeira salva no dia anterior por uma equipe da rede Globo e os militares brasileiros com a ajuda do marido.

Vi as duas. Uma, a enfermeira, já na maca, ao lado do marido, um policial. Conversei com ela. E mostrei ao marido as imagens dele no Jornal Nacional. Já a matriarca eu vi saindo daquele prédio, casa ou o que quer que tenha sido aquela construção. Pouco antes, quase presenciei o resgate de um homem de 60 anos, retirado dos escombros por um engenheiro inglês que decidiu entrar em cavernas de pedras para ajudar um homem que nunca viu. O oposto daquela história de que uma pessoa aceitaria um milhão de dólares se ele concordasse com a morte de uma pessoa do outro lado do mundo que ele jamais iria conhecer. Ao contrário, este inglês anônimo largou a família, o emprego e tudo para trás para ajudar os haitianos de Porto Príncipe. Haitianos com honra, como escrevi ontem. Como a matriarca, que no meio de equipes de resgate e testemunhas decidia tudo o que pretendia fazer. No caso, andar. E dar bronca no neto em criolle. Eu não escutei, mas o cinegrafista da BAND me relatou que ela ainda perguntou onde estava a sua sacola.

Todo o mundo deve ter tido uma avó como ela, dona do mundo. Ou uma boazinha, que agrada aos netos. As vítimas em Porto Príncipe são pessoas como ela, como a gente. Eu tive as duas. Uma brasileira e outra libanesa. A segunda, certamente, sairia das ruínas desta forma, como a matriarca, e ainda com medo de a equipe de resgate cobrar muito caro para retirá-la. Seria capaz de pedir para ficar sob os escombros. A Jean Batiste era assim, metida. Ou que não a deixassem se arrumar antes de aparecer para as câmeras. Colocassem a Jean Batiste no Fasano, certamente seria a primeira a sentar. Mesmo sendo pobre e do Haiti. Tamanha a pompa desta avó. Que ainda ajeitou o cabelo com as mãos antes de começar a andar.

Obs. Responderei a todos os comentários, como sempre fiz, assim que possível. Talvez, dedique um post mais para a frente apenas para responder a perguntas de todos

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