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A história do time refugiado mostra os obstáculos para a paz no Chipre

gustavochacra

09 de dezembro de 2008 | 19h31

O Anorthosis, campeão do Chipre, jogava hoje contra o Panathinaikos, da Grécia, pela Liga dos Campeões da Europa. Com uma campanha surpreendente, o time de Famagusta tem chances de passar para a próxima fase do torneio. Mas, como assim Famagusta? Esta cidade não fica do lado turco da ilha? Fica, e, por isso mesmo, estranhei ao ler a notícia no jornal “Cyprus Mail”. Na verdade, o campeão cipriota é um time refugiado que atualmente manda suas partidas na cidade de Larnaka, um balneário decadente na costa do país.

A cidade de Famagusta, que era majoritariamente cipriota-grega, foi tomada pela Turquia em 1974 e hoje é a principal do país cipriota-turco – não reconhecido pela ONU. Nos últimos 34 anos, o Anorthosis joga em Larnaka, mas jornalistas, torcedores e jogadores fazem questão de dizer que a equipe é de Famagusta. Faz sentido. Provavelmente, se o Palmeiras fosse expulso de São Paulo e obrigado a jogar em Belo Horizonte, nós continuaríamos dizendo a “equipe paulista”.

O campeão cipriota, de certa forma, simboliza as dificuldades do processo de paz no Chipre. O lado grego, reconhecido pela ONU, defende a unificação do país. Mas faz algumas exigências. Quer que todas as propriedades de gregos-cipriotas tomadas em 1974 pela Turquia sejam devolvidas aos verdadeiros donos. E exige a retirada de todos os turcos assentados no lado turco-cipriota.

Mais ou menos, seria como se os palestinos, para fazer as pazes com Israel, exigissem a devolução de Jaffa, Haifa e todas as propriedades que tenham sido palestinas. Além disso, quisessem que todos os judeus assentados – isto é, que não fossem nativos da Palestina Histórica – fossem retirados. Isso explica em parte o por que de todos os cipriotas com que conversei terem um viés pró-Palestino.

Ao mesmo tempo, o governo do Chipre nacionalizou as propriedades de turco-cipriotas que ficaram do lado grego da ilha e as aluga. Dessa forma, em caso de paz, bastará devolver as casas para os verdadeiros donos, desalojando os inquilinos.

Famagusta hoje é habitada apenas por turco-cipriotas. Grego-cipriotas podem visitar, mas são proibidos de viver na cidade. Suas casas são ocupadas, em geral, por turcos assentados. Há o caso de um grego-cipriota que é dono de posto de gasolina em Nikosia que emprega turco-cipriotas. Sem poder adquirir ou viver na sua casa em Kyrenia, hoje ocupada, ele decidiu dar dinheiro para um de seus funcionários comprá-la. Assim, o dono do posto pode visitar o lugar de onde foi expulso em 1974.

Os turco-cipriotas até aceitariam a unificação, afinal, o Chipre é membro da União Européia e eles se tornariam cidadãos europeus. Muitos deles, inclusive, retiraram o passaporte cipriota. Porém é complicado aceitar a unificação por causa dos turcos assentados e, principalmente, porque a Turquia é contra. Os moradores do lado norte da ilha são dependentes economicamente e militarmente do governo turco.

Por enquanto, segue o status quo. Cipriotas turcos podem trabalhar e até tirar cidadania no lado grego. E os grego-cipriotas podem visitar e gastar seu dinheiro em cassinos e cabarés no lado turco.

Os dois lados estão negociando um acordo de paz. Com a chegada dos Comunistas (apenas no nome) ao poder no Chipre e com um moderado no lado turco, as expectativas de sucesso eram altas. Porém, mais uma vez, o processo está emperrados\. Todos acham que o destino deve ser o mesmo do plano de Kofi Annan, anos atrás, que fracassou.

Enquanto isso, o sonho de ver o Anorthosis jogando na sua própria casa continuará distante.

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