As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A história dos libaneses que fugiram para Israel pode ter um final feliz

gustavochacra

29 de maio de 2009 | 15h00

A aliança do Hezbollah com os cristãos espanta a muitos no Ocidente. Como disse em outros posts, os políticos libaneses, independentemente da religião, possuem seus interesses próprios e formam coalizões de acordo com o que eles pensam ser melhor para o grupo que representam. Muitas vezes, estes interesses não são os mesmos do restante do país, dificultando ainda mais o desenvolvimento deste que, apesar de seus líderes, ainda é o Estado árabe mais democrático, liberal e cosmopolita.

Em outros casos, as alianças políticas produzem resultados surpreendentes. Um dos temas do memorando de entendimento assinado pelo Hezbollah com a Frente Patriótica de Salvação (FPS), do líder populista cristão Michel Aoun, prevê uma espécie de anistia para os libaneses que lutaram ao lado do Exército de Israel durante a ocupação do sul do Líbano por tropas israelenses, que se encerrou em 2000.

Apenas para recapitular, os israelenses dominaram por mais de 20 anos o sul libanês. Inicialmente, o objetivo era combater grupos palestinos. Depois, enfrentaram um inimigo muito mais complicado, o Hezbollah. A organização, criada nos anos 1980, teve como um dos fatores da sua formação justamente a ocupação, aliada à Revolução Islâmica do Irã, que patrocinou e treinou os militantes, e à marginalização dos xiitas na sociedade libanesa.

Ao lado dos israelenses, lutaram libaneses que compunham o denominado Exército do Sul do Líbano (ESL). Era composto majoritariamente por cristãos, mas também possuía alguns xiitas e druzos (há poucos sunitas na região). Com a retirada israelense, em 2000, muitos membros do ESL fugiram para Israel temendo retaliações. O Hezbollah, porém, optou por não se vingar dos que ficaram. Alguns cumpriram pena em prisões libanesas e depois voltaram para as suas casas no sul.

No memorando, a FPS pediu ajuda ao Hezbollah para repatriar muitos destes libaneses que hoje estão em Israel. Ao todo, 49 já voltaram. Segundo reportagem do site Now Lebanon – curiosamente ligado à coalizão 14 de Março, opositora de Aoun e do Hezbollah –, citando Ziad Abs, da FPS (grupo cristão de Aoun), 7.000 libaneses foram com as suas famílias para Israel depois da desocupação. Segundo um porta-voz de Antoine Lahad, comandante da milícia libanesa pró-Israel, ainda há cerca de 2600 vivendo em Israel. Desses, disse ele ao Now Lebanon, cerca de 90% gostariam de voltar a viver no Líbano.

“É importante trazê-los de volta porque, todos os anos, nós perdemos alguns. As crianças envelhecem e começam a esquecer como se fala árabe. Elas estudam hebraico, se formam em escolas e universidades israelenses. Começam a se apaixonar por meninas israelenses e se casam com elas. Acaba ficando mais complicado”, diz Abs, da FPS.

Este episódio é interessante por ser um dos raros que une a quase todos no Líbano. O Hezbollah disposto a perdoar seus inimigos; a FPS, dos cristãos aliados dos xiitas, lutando para repatriá-los; e o Now Lebanon, ligado aos sunitas, dando destaque para a história. Vale frisar que a iniciativa ocorre apesar dos recentes casos de libaneses espionando para Israel que foram descobertos nos últimos meses.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: