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A história dos últimos colocados na maratona de Nova York

gustavochacra

29 de outubro de 2009 | 22h14

O New York Times publicou recentemente uma reportagem dizendo que associações de corredores querem impedir os retardatários de disputar a maratona na cidade. Isto é, seria colocado um limite máximo de tempo. Por exemplo, depois de seis horas, os corredores não poderiam completar a prova. Um absurdo. Eu assisti várias vezes a corrida em Nova York. A vez que mais me emocionou foi em 2007, quando fiquei para ver a chegada dos últimos colocados. Na época, escrevi o email abaixo para a minha família e amigos

“Ontem, dia da maratona de Nova York, fui para a linha de chegada após mais de 30 mil corredores já terem terminado a prova (entre eles, seis horas antes, o primeiro brasileiro, a quem eu, dentro do Central Park, incentivei gritando “Vai Marilson, você está em quinto!”, apesar de ele estar em oitavo).

Passadas oito horas da largada, começa a ser desmontada a festa. As bandeiras de mais de cem países já haviam sido retiradas. Não tinha mais segurança. O parque estava escuro. E qualquer um podia entrar na pista e seguir por uns duzentos metros e cruzar a linha de chegada como a Paula Radcliffe, vencedora entre as mulheres, havia feito horas antes. Quando cheguei para assistir aos retardatários, cerca de 40 pessoas estavam presentes, entre membros do staff da prova, parentes de corredores que ainda corriam ou andavam pelas ruas de Nova York, e alguns nerds como eu que apenas queriam incentivar os últimos colocados.

O relógio marcava 8h15. Um chinesa-americana cruzou a linha de chegada, fez pose para a foto oficial e recebeu a medalha. “For the victims of September 11th”, dizia a sua camiseta. Uma senhora de uns 65 anos, enrolada no cobertor de alumínio que os corredores recebem ao chegar para não perder calor, esperava pelo marido que, segundo ela, teria ficado para trás. “Eu ganhei dele”, esnobava para as pessoas ao redor, com um certo tom de vingança. Uma outra, também nos seus 60, não havia corrido. Mas, vestindo uma japona marrom, segurava uma maquina fotográfica descartável enquanto esperava o filho de 30 anos. Ele havia ligado pela ultima vez há 4 milhas (cerca de 6,5 km), mas depois o celular dele parou de funcionar. A mãe e a máquina fotográfica descartável, porém, seguiam firmes.

Os corredores continuavam chegando. Um homem, de muleta, cruza com dois amigos que o acompanharam do começo ao fim da prova. Todos com a mesma camiseta, com os dizeres “Go Jimmy”. Uma moça, de uns 35, gordinha e talvez solteira, pois não tinha nenhum marido esperando, chega e, a poucos metros da linha, começa a chorar. Todo mundo bate palma. Uns choram. Ela chega. Recebe a medalha. Fica orgulhosa. Em seguida, vem uma outra no mesmo estilo. Mas ruiva e sorridente. Pinta de professora de matemática de high school. Ultrapassa a linha. 8h32. Ao entregar a medalha, a moça do staff pergunta se ela quer gatorade ou água. “Me dá um abraço”, ela responde. Inacreditavelmente, três velhinhos são os próximos. E não estavam juntos. Os três ainda disputavam posições. Faziam os movimentos de corrida com as mãos. Um estava estiloso, de sapato e tudo. Mais aplausos.

A mãe e a máquina descartável continuavam lá. A senhora esperando o marido também. O membro do staff (que falou na minha frente em japonês, alemão, turco e espanhol) pediu o nome dos parentes. Ele entra em uma cabine com o número das inscrições deles e volta com as informações. O marido da senhora já havia chegado com 6h42. Na frente da esposa, por sinal, que achava que tinha superado o marido. Quem sabe, ele pegou um atalho no parque só para não fazer feio. Com raiva, a senhora foi para o hotel. Já a mãe não teve boas noticias. O filho ainda não havia cruzado. Devia estar em algum lugar do Central Park. Mas ela seguia firme, com a japona

Chegam três homens carregando a bandeira auri-negra do Fenerbace, time mais popular da Turquia. São recebidos com parabéns em turco pelo membro do Staff (o poliglota). Uma mãe chega e pega a filhinha e umas flores antes de cruzar a linha. O marido tira foto orgulhoso. Uma americana vem na sequencia, arrastando um pneu com um latão de lixo em cima. Dentro, várias coisas, como plásticos e metais de ferro-velho. E uma faixa dizia que era o “homem poluindo a mãe terra”. Uma ativista pelo visto. Não sei se muita gente notou, tadinha. Mas eu, pelo menos, recebi o recado. O homem esta poluindo a terra com o aquecimento global. Deve ser seguidora do Al Gore.

E nada do filho da mãe da máquina fotográfica.

Nove horas de prova. O fotógrafo oficial desmonta o tripé. Mais luzes são apagadas. E o supremo da humilhação – o chip da linha de chegada é retirado. A partir de agora, quem chegar não terá mais tempo oficial.

Lá longe, aparece uma mulher, com um moleton rosa e os dizeres “Go Tara”. Uma outra, na linha de chegada, que havia cruzado pouco antes, conta orgulhosa: “Ultrapassei ela na First Avenue”. Como se tivesse deixado o Paul Tergat para trás. Mas a Tara também fez pose ao agradecer os aplausos. Uma verdadeira lady.

A próxima parecia aquela maratonista nas Olimpíadas de Los Angeles, que chegou toda torta, com caimbras. Havia umas quatro amigas, a mãe e o irmão esperando. Tirou fotos pelo IPhone. As amigas disseram que enviariam depois. Unidas, com o irmão chorando compulsivamente, todas foram embora com a heroína da turma.

Mas faltava ainda o filho da mulher da máquina. Quase ninguém mais passava. Já fazia cinco minutos que a última pessoa havia cruzado a linha de chegada. O pessoal do staff não conseguia informações. A mãe lá, meio envergonhada, com a máquina descartável. Coloquei na minha cabeça que esperaria ate 9h30 de prova. 9h28, 9h29, 9h30. Nada, só a mãe com a máquina descartável e a japona marrom. Todo o mundo tenso. Não havia sinal. Decidi cruzar a linha de chegada pelo lado oposto (isto é, em direção ao local onde as pessoas corriam) em busca de algum menino de 30 anos. Fui até a Central Park South e voltei. Nada.

No caminho, apenas mais um corredor. Um senhor de 70, andando e recebendo incentivo de alguns skatistas que decidiram acompanhá-lo. “Go Grandpa”, diziam. Talvez fossem netos. Voltei à linha de chegada. A mãe ainda estava lá. Parte do staff tinha ido embora. Eu também precisava ir. Tinha marcado um jantar com meus amigos que não paravam de ligar porque eu estava atrasado. Fui embora. A mãe, tadinha, ficou lá esperando o filho corredor com a máquina prontinha para a foto que viraria quadro em algum apartamento de New Jersey ou de Nova York para mostrar aos netos e aos amigos a façanha do filho. Nunca vou saber o que aconteceu.”

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