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A intervenção militar dos EUA na Síria contra Assad será péssima para os cristãos sírios

gustavochacra

27 de agosto de 2013 | 18h05

Meu comentário sobre a Síria no Jornal das Dez da Globo News

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Uma intervenção militar dos EUA e seus aliados na Síria, independentemente de ser bem argumentada ou não, favorecerá a Al Qaeda e será péssima para os cristãos sírios. Na minha avaliação, esta variável deve ser colocada na equação por todos que decidirão como será a ação contra o regime de Bashar al Assad.

Os que leem meu blog sabem que já estive diversas vezes na Síria, desde 1997, e visitei o país anualmente entre 2006 e 2011. Entrevistei Bashar al Assad em seu palácio  de Damasco em 2010. Falei com diversas autoridades políticas do país e também da oposição. Consulto diplomatas, acadêmicos e analistas de risco político. Na Síria, conversei com dezenas de pessoas das mais variadas religiões e visões políticas.  Idem, no Líbano.

Conclusão? Os cristãos sírios, em sua imensa  e absoluta maioria, defendem o regime de Assad. Muitos por gostarem do líder sírio. Outros por temerem como seria a Síria nas mãos da oposição ou de centenas de facções rebeldes que,  em muitos casos, são abertamente associadas à Al Qaeda.

Eles também sabem o que acontece com cristãos quando uma ditadura é derrubada na região. Com Saddam Hussein, eles eram elite em Bagdá e possuíam até o número dois do regime, Tariq Aziz. Depois da invasão americana, centenas de milhares precisaram fugir e o único país que os recebeu foi a Síria. No Egito, se já era ruim com Hosni Mubarak, ficou péssimo com a Irmandade Muçulmana.

Atualmente, em Aleppo, maior cidade da Síria e no passado a metrópole mais cosmopolita da mundo, há o risco de haver uma limpeza étnica de cristãos, que por séculos viveram com seus vizinhos judeus, já expulsos, e muçulmanos das mais variadas denominações.

Os cristãos sírios, assim como os alauítas e a classe média sunita e drusa das grandes cidades, podiam não amar a vida na Síria até o início de 2011. Mas a consideravam melhor do que a de todos os países árabes. Verdade, no Líbano, existe muito mais liberdade. O presidente libanês, o chefe das Forças Armadas e metade do Parlamento precisam ser cristãos. Mas as divisões sectárias e a guerra civil de 1975-90 assustava os cristãos sírios. Em Damasco e Aleppo, podiam ir a restaurantes e suas mulheres andavam (e andam) descobertas. Ninguém via problemas em um crucifixo. As missas nas igrejas de Bab Touma viviam lotadas. Nas férias, nada melhor do que um banho de bar de biquíni em Tartus ou Latakia.

Uma pena, mas hoje os cristãos sírios correm enorme risco na Síria e uma intervenção militar estrangeira, dependendo da intensidade, pode acabar com Saydnaya e Maalula, onde ainda se fala o aramaico, língua de Jesus Cristo. Duas das principais autoridades cristãs sírias foram sequestradas pelos opositores.

Portanto, pensem bem antes de acharem o máximo uma intervenção militar na Síria.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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