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A Islamofobia depois do 11 de Setembro – uma campanha organizada dos anti-muçulmanos

gustavochacra

05 Setembro 2011 | 10h37

Começo hoje os posts relacionados ao 11 de Setembro. Também me acompanhem os preparativos para o 11 de Setembro no @gugachacra, escolhido como um dos mais influentes em política externa pela revista Foreign Policy

O texto de hoje também pode ser visto em vídeo gravado por mim na TV Estadão (não sou bom na TV, mas tentei fazer o meu melhor)

Antes do 11 de Setembro, os muçulmanos mais famosos da história dos Estados Unidos eram o boxeador Muhammad Ali e o ativista de direitos humanos Malcolm X. No Brasil, as odaliscas, e não mulheres cobertas com burcas, representavam o imaginário do sexo feminino no islã. A imagem do árabe era a de Lawrence da Arábia. Muçulmanos eram chamados equivocadamente de maometanos e “Alá” (Deus, em árabe, inclusive para cristãos) era refrão de música carnavalesca.

 Ninguém se importava que o presidente da Argentina na década anterior, Carlos Menem, era muçulmano e tampouco cogitavam a possibilidade de ele implantar a Sharia (lei islâmica) em Buenos Aires. O maior jogador de futebol do planeta na época e vencedor da Copa, Zidane, também era muçulmano.

 Mas os atentados que destruíram o World Trade Center e o Pentágono mudariam para sempre a imagem do islamismo no mundo. Alguns muçulmanos inocentes começaram a ser alvos de ataques nos Estados Unidos, apesar de o governo de George W. Bush sempre defendê-los, martelando desde o início que “o islã era uma religião da paz, e não do ódio”.

 Com a chegada de Barack Obama ao poder, o cenário se agravou e a islamofobia, que representa o ódio ou aversão aos muçulmanos, aumentou. O novo presidente era negro e filho de pai muçulmano. Para completar, herdou um país em crise econômica. “Alguns membros da oposição e de grupos organizados usaram a questão do medo do terrorismo, a tensão com a situação da economia e o racismo existente para exacerbar um preconceito contra um presidente visto como ‘o outro’, igual aos inimigos muçulmanos”, me disse James Zogby, presidente do Instituto Árabe-Americano.

 Seria mais ou menos como um presidente filho de soviético na época do Macarthismo ou de um japonês depois de Pear Harbor. “O que já era grave depois do 11 Setembro, piorou ainda mais”, segundo Conselho da Relações Islâmico-Americanas (CAIR, na sigla em inglês). Mais de um quarto da população muçulmana nos EUA diz ter sido alvo de alguma forma de preconceito em 2011, segundo pesquisa do Pew Research Center  divulgada na semana passada. Um terço dos americanos acha que muçulmanos não deveriam ter o direito de concorrer à Presidência dos EUA e 28% são contra um seguidor do islã na Suprema Corte, de acordo com levantamento da revista Time.

 Nos últimos dois últimos anos, uma ampla campanha islamofóbica foi lançada nos EUA, segundo um estudo do Center for American Progress ao qual tive acesso. Cerca de US$ 40 milhões foram investidos por fundações para financiar thinktanks e projetos que incentivassem a islamofobia. Estes grupos, segundo o estudo, são o Donors Capital Fund, Richard Mellon Scaife Foundations, Lynde and Harry Bradley Foundation, The Russelll Berrie Foundation, Becker Foundation, Anchorage Foundation e The Fairbook Foundation.

 Os receptores incluem comentaristas e ativistas classificados como islamofóbicos pela Anti-Defamation League, como Daniel Pipes, do Middle East Forum, e  Pamela Geller e Robert Spencer, do Jihad Watch, que costumam atacar o islã e os muçulmanos em seus textos. Os três tiveram seus nomes citados dezenas de vezes  de forma elogiosa nos escritos deixados pelo terrorista norueguês Anders Breivic, que matou mais de 70 pessoas em duplo atentado em Oslo.

 Além de Pipes e Spencer, está incluído também David Yerushalmi, da Society of Americans for Social Existance. De acordo com reportagem New York Times e também o estudo do Center for American Progress, este advogado de Nova York elaborou projetos de lei para banir a sharia dos Estados Unidos. Suas recomendações foram praticamente recortadas e coladas nos textos aprovados no Texas, Alaska e Carolina do Sul, além de estar em estudo em outras 20 Estados . Mas, na verdade, não há interesse dos muçulmanos em implantar a Sharia nos EUA e a questão religiosa é usada como suporte apenas para casos civis no país. O mesmo se aplica para judeus, cristãos, budistas e membros de qualquer outra religião.

 Para o professor Petter Gottschalk, diretor do Departamento de Estudos da Religião da Universidade Wesleyan a autor do livro “Islamophobia – Making  Muslims the Enemy”, “os grupos anti-islã ficaram mais eficientes e a retórica islamofóbica foi usada por muitos candidatos republicanos nas eleições parlamentares de 2010”. “Pessoas como Spencer usam termos islamofóbicos e os difundem pela mídia. No entanto, eles apenas exacerbam uma islamofobia existente dentro de parte da população americana desde antes da independência dos EUA”, acrescentou em entrevista para mim.

 Um outro alvo desta campanha islamofóbica foi a suposta mesquita do Ground Zero. Informações mentirosas destes grupos islamofóbicos foram divulgadas indicando que o templo seria construído exatamente onde estavam as torres. Na realidade, o projeto é para um centro islâmico, nos moldes da Associação Cristã de Moços, com academia, eventos culturais e um espaço para orações a dois quarteirões de distância. Dentro do WTC, também havia um espaço para orações islâmicas, assim como ainda existe no Pentágono.

 A campanha islamofóbica conseguiu atrair também figuras políticas Sarah Palin, a pré-candidata republicana Michele Bachmann e seu rival nas primárias Herman Cain. Na imprensa, seu principal difusor são blogs independentes, mas com grande presença dentro do eleitorado conservador, e também a rede de TV Fox News, segundo o estudo.

 Muitos políticos, diante deste cenário que vem se agravando, saíram em defesa dos muçulmanos. Michael Bloomberg recebeu o prêmio do CAIR por ser o líder político que mais combate a islamofobia. O governador de Indiana, Mitch Daniels, foi o eleito pelo Instituto Árabe-Americano por sua luta contra os islamofóbucos. A comunidade islâmica também elogia o governador de Nova Jersey, Chris Christie, e o do Texas, Rick Perry, que disputa as primárias e, apesar de cristão fervoroso, admira o islamismo.

 Tirando o independente Bloomberg, todos são republicanos, mostrando que o partido possui os maiores islamofóbicos, mas também as lideranças que mais combatem a islamofobia.

Obs. Para os que reclamam, segue um  dos vários textos que escrevi sobre “A perseguição aos cristãos árabes no Oriente Médio”

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios