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A Justiça do Egito parece a série Homeland

gustavochacra

19 de dezembro de 2013 | 14h50

A Justiça do Egito inocentou os dois filhos de Hosni Mubarak em escândalo de corrupção. Ao mesmo tempo, acusou formalmente o presidente deposto Mohammad Morsy de conspiração, ao lado do Hamas, Hezbollah e Irã, para cometer um atentado terrorista.

No primeiro caso, dos filhos de Mubarak, não tenho como avaliar porque não conheço bem o caso. Sabemos que um deles, Gamal, fez fortuna quando o pai estava no poder ao longo de mais de 30 anos de ditadura. Se ele foi favorecido ou não, é complicado dizer.  Mas, convenhamos, basta olhar para o Brasil e verificar ser bem plausível esta possibilidade.

No segundo, de Morsy, é diferente. O presidente deposto integrava a Irmandade Muçulmana. Esta organização é sunita. O Hezbollah e o Irã, xiitas. Verdade, o Hamas é sunita e foi aliado do grupo libanês e do regime de Teerã no passado. E, como sabemos, teve inspiração na Irmandade quando foi fundado.

 Mas vários pontos devem ser levantadas.

 1) O Hamas havia se distanciado do Irã e do Hezbollah desde a Guerra da Síria, quando o grupo palestino traiu Assad, que deu guarida a eles por anos, e passou a apoiar os rebeldes da oposição, normalmente radicais sunitas 

 2) A Irmandade havia abdicado há décadas da violência no Egito

 3) Antes de ser candidato a presidente, Morsy era pouco relevante na Irmandade. Apenas foi escolhido porque outros foram vetados

  4) Durante seu mandato, Morsy se aproximou do Hamas. Mas esta aproximação foi positiva porque serviu para negociar uma trégua com Israel no ano passado, impedindo um novo conflito em Gaza

 5) Na Guerra da Síria, Morsy apoiava abertamente os rebeldes da oposição, pedindo o fim do regime. A Irmandade síria integra os grupos opositores. O Irã e o Hezbollah, como sabemos, defendem o regime de Assad

Portanto, a acusação contra Morsy parece ter sido criada por um dos roteiristas de Homeland, aquela série americana sobre a CIA que tem apenas episódios impossíveis e erra constantemente em questões geopolíticas. Vale lembrar que Morsy foi um péssimo presidente. Também ressalto que o general Sissi, comandante do novo regime, desfruta de enorme popularidade. Mas isso não justifica a prisão do presidente deposto, que está incomunicável e, a partir de agora, sem poder falar com a família e os advogados. O atual regime do Egito matou milhares e prendeu outras milhares de pessoas.

 Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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