As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A justificativa de Obama para seus ataques com Drones

gustavochacra

05 de fevereiro de 2013 | 19h18

O governo de Barak Obama realiza uma ampla campanha de bombardeios no Paquistão, no Yemen e na Somália, com milhares de mortos. As armas do presidente são os Drones – aviões não tripulados controlados remotamente. Ao menos 2.000 supostos militantes da Al Qaeda ou de organizações afiliadas foram mortas, além de um número incerto de civis, calculado em centenas, incluindo mulheres e crianças.

Para muitas pessoas que não acompanham de perto a política de segurança dos EUA, pode parecer uma surpresa, especialmente no exterior, onde Obama desfruta de uma imagem de pacifista. Mas, na realidade, o presidente americano está no comando destas operações secretas com Drones que vem sendo criticadas por organizações de direitos humanos, juristas e boa parte da imprensa americana.

Nestas operações, três críticas se sobressaem. Primeiro, qual o direito de os EUA bombardearem países com os quais não está em guerra, como o Yemen, a Somália e o Paquistão? Segundo, como o governo americano pode matar cidadãos americanos, como Anwar al Awaliki, sem submetê-lo a um julgamento, com direito a defesa, conforme prevê a Constituição americana? Por último, quem são as vítimas civis e por que o governo Obama não concede mais informações sobre elas, visto que ele criticava George W. Bush pelo mesmo motivo?

Até hoje, o presidente dos EUA apenas celebrava as suas conquistas militares com estas ações. Sem dúvida, os bombardeios com Drones afetaram o poder de fogo da Al Qaeda, especialmente no Paquistão, sem a necessidade de colocar as tropas americanas em risco. Estes verdadeiros robôs voadores operados por controle remoto desde o território americano conseguiram enorme sucesso e fortaleceram a imagem de homem forte de Obama, o diferenciando de Jimmy Carter.

Mas havia a parte secreta. Sempre se soube que havia um memorando com os argumentos do Departamento de Justiça para estes bombardeios, que tem como mentor John Brennan, conhecido por ter comandado algumas práticas de tortura na administração de George W. Bush. Atualmente, é o preferido de Obama para contraterrorismo. O presidente o indicou para assumir a CIA. Agora, parte destes documentos foram tornados públicos pela NBC, que consegui acesso a eles.

Segundo os documentos, o Departamento de Justiça afirma que as ações com Drones não violariam a Constituição desde que “uma alta autoridade do governo americano determine que um indivíduo seja uma ameaça iminente de um ataque contra os EUA; a captura dele seja inviável; e a operação seja conduzida de acordo com os princípios da lei de guerra”. Além disso, os governos dos países envolvidos autorizam os ataques.

O problema é que “ataque iminente”, na visão do governo Obama, segundo o documento do Departamento de Justiça, não significa que um ataque esteja “prestes a acontecer”, abrindo espaço para enormes interpretações. O mesmo vale para “organizações associadas à Al Qaeda”.

A American Civil Liberties Union, uma organização de defesa dos direitos humanos, publicou um comunicado em sua página na internet criticando os argumentos da administração Obama. “A autoridade” do governo para realizar as ações com Drones “existe mesmo quando não há nenhuma ameaça iminente no verdadeiro sentido da palavra, mesmo quando o alvo nunca foi acusado de um crime ou informado sobre as alegações contra ele e mesmo quando não está localizado próximo a um campo de batalha”.

O documento divulgado pela NBC não aborda a morte de Anwar al Awalaki. Cidadão americano e conhecido militante da Al Qaeda por seus vídeos em inglês no YouTube, ele foi morto em um ataque de Drone no Iêmen sem direito a julgamento. Juristas afirmam que a ação viola os direitos constitucionais americanos, lembrando que até serial killers podem ter advogados para se defender. O Departamento de Justiça tem um memorando com esta explicação, mas impede a imprensa de ter acesso – o New York Times recentemente fracassou em um tribunal em Manhattan ao tentar ver os documentos.

Provavelmente, por serem argumentos não muito fortes, Obama cada vez mais será alvo pelas ações com Drones.  Hoje é alvo de crítica na capa do NYTimes. Certamente, o presidente não as abandonará pela eficácia e por saber que as críticas vêm especialmente de pessoas mais simpáticas ao Partido Democrata. Que fique claro, Romney também manteria as ações com Drones. Apenas o libertário Ron Paul questiona estas ações por violarem a Constituição americana.

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra e na edição impressa do jornal O Estado de S. Paulo

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.