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A mensagem libertária de Ron Paul, ídolo dos jovens americanos, pode mudar o mundo

gustavochacra

10 de janeiro de 2012 | 12h52

Eleições nos EUA 2012

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O libertário Ron Paul, pré-candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, não é um palhaço com idéias malucas como muitos gostam de pintá-lo. Na verdade, aos 76 anos, este texano consegue se posicionar na vanguarda do debate político americano, sendo disparado o mais popular entre os jovens.

Nas últimas primárias, eu ainda estudava na Universidade Columbia. Sem dúvida, Barack Obama e, em menor escala, Hillary Clinton desfrutavam de enorme apoio dos estudantes, majoritariamente democratas. Porém todos com quem eu conversava admiravam Ron Paul. Mesmo em Beirute e São Paulo há muitos seguidores deste libertário.

Depois da crise de setembro de 2008 e com a taxa de desemprego em 8,5%, sua mensagem ganhou ainda mais força entre as pessoas com menos de 30 anos. Suas propostas contam com o apoio tanto dos jovens mais inclinados para a direita, como dos que estão mais para esquerda.

Na economia, Paul segue a Escola Austríaca, de Friedrich Hayek e Ludwing Von Mises. Estes economistas consideravam o Estado como o maior mal para a economia de uma nação. Uma crise como a atual deve ser superada, segundo eles, não por políticas intervencionistas keynesianas, mas por redução na presença estatal.

Neste sentido, Ron Paul se posiciona tanto ao lado de banqueiros que querem menos regulação como dos ocupantes de Wall Street, insatisfeitos com a salvação de empresas e bancos nas administrações de Barack Obama e George W. Bush. Para os libertários, não apenas o Lehman Brothers deveria ter ido para o fundo do poço.

O libertário também se destaca em política externa, com idéias mais pacifistas do que qualquer candidato à Casa Branca na história recente dos EUA. Ron Paul acha absurdo gastar trilhões para enviar jovens para morrer no Iraque e no Afeganistão. Ele discorda da ajuda militar a países como Israel, Egito e Paquistão. Na avaliação dele, dá muito bem para os Estados Unidos viverem com um Irã nuclear. Afinal, os americanos passaram décadas com a ameaça soviética e nada aconteceu.

Os políticos que defendem guerras são covardes, segundo ele. Newt Gingrich, por exemplo, se diz a favor de intervenções militares no Irã, mas se recusou a ir para o Vietnã. “Era pai e tinha um filho”, disse o algoz de Bill Clinton em debate nesta semana. Paul reagiu – “Eu, quando fui guerrear na Coréia, era pai e tinha dois filhos”.

Por saber como são as guerras, as doações feitas por veteranos recebidas por Paul são mais do que o dobro do que a de todos os outros candidatos somados. Este número aumenta ainda mais quando se leva em conta apenas o Iraque e o Afeganistão.

Para Ron Paul, o importante em uma política externa é o livre mercado, fazendo negócios com quem estiver no poder nos outros países. Afinal, os americanos não veem problemas em negociar com ditaduras como a Arábia Saudita e a China. Por que seria diferente com o Irã? Suas posições em relação a drogas, imigrantes e direitos dos homossexuais também são bem à frente de seus concorrentes, em sintonia com os jovens.

Este discurso libertário na economia e pacifista na política externa é forte nos EUA. Paul não será presidente americano agora e nem no futuro. Mas sua mensagem plantou uma semente e, em algumas décadas, suas idéias terão muito mais força não apenas no território americano, como também em outros países, incluindo o Brasil. Ele entende a nova geração de jovens mais do que qualquer um dos seus rivais, incluindo o “cool” Obama.

No futuro, o mundo pode ser mais pacifista e mais liberal na economia. “Seremos todos austríacos”, disse em Iowa, se referindo à escola econômica.

Obs. Nos anos 1990, algumas newsleter com o nome de Paul traziam artigos acistas. Não foi ele quem escreveu. Mas esta é a grande mancha em seu passado, apesar de ele negar todo o teor dos textos

Obs2. O leitor Walter Hupsel me alerta que, no Brasil, o termo correto seria “libertariano”, e não libertário. “Em português, libertário remete à tradição anarquista, XIX. Chamamos foucault e chomsky de libertários”, escreveu. Segundo ele, “libertarianos, tradução consagrada por Alvaro de Vitta, são os ultraliberais capitalistas como Nozick, Paul, Rand..”.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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