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A metamorfose de Michel Aoun, o líder cristão que se aliou à Síria e ao Hezbollah

gustavochacra

22 de dezembro de 2008 | 11h48

“Nós não nos importamos em negociações diretas com Israel se a Síria estiver na mesa de diálogo”.

Frase de Michel Aoun,um dos principais líderes cristãos do Líbano e uma das figuras mais controversas da história do Oriente Médio. A declaração foi publicada hoje nos jornais de Beirute. Sua vida retrata bem o que é fazer política nesta região. Aoun foi um militar legalista na Guerra Civil, que chegou a assumir o poder como premiê no fim dos anos 1980. Mas seu tempo dirigindo o país durou pouco e teve, como consequência, o enfraquecimento dos cristãos no Líbano. Comandando o capenga e dividido Exército libanês, Aoun travou contra os membros da milícia Forças Libanesas, de Samir Gaegea, a “guerra dos cristãos”. Dois líderes cristãos maronitas fazendo com que, segundo dizem, até irmãos se matassem.

Nesta guerra cristã, os dois perderam. Gaegea, alguns anos depois, se tornou o único líder miliciano libanês a ser preso, por mais de uma década, até ser solto na Revolução dos Cedros de 2005. Aoun fugiu para o exílio. Os dois eram anti-Síria, apesar de se odiarem. E a Síria assumiu o controle do Líbano após a guerra civil, deixando os cristãos órfãos.

Ao longo de 15 anos longe do Líbano, Aoun se transformou no grande líder anti-Síria. De Paris, dava entrevistas e fazia lobby contra a presença de Damasco em Beirute. Eu mesmo o entrevistei duas vezes.A última foi em 22 de fevereiro de 2005, uma semana após a morte de Hariri. Veja algumas das frases que ele disse para mim em entrevista publicada na Folha.

“O Hizbollah deveria entregar as armas para o Exército libanês. Não há motivo para eles continuarem armados. Isso desestabiliza a fronteira com Israel”

“Sempre apoiei as negociações de paz com Israel. O problema para um acordo são os sírios e os palestinos. Não há problema entre o Líbano e Israel.”

“É uma tradição da Síria, faz parte da política deles. Desde os anos 60, todos os opositores sírios do regime [de Damasco] foram assassinados. Depois eles começaram a eliminar os libaneses que se opunham à Síria, como Kamal Jumblatt [líder druso] e Bashir Gemayel [ex-presidente]. Por que parariam agora?”

“O atual governo é fantoche da Síria. Precisamos de um verdadeiro governo nacional, não dessas pessoas que estão lá agora.”

Hoje, Aoun é aliado do Hezbollah, defende que o grupo possua armas, virou amigo do regime de Assad e critica Israel sempre que pode. E os fantoches da Síria? Atualmente, São seus melhores amigos. No Líbano, Aoun é apenas mais um exemplo de cameleão na hora de fazer acordos políticos.

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