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A questão dos médicos israelenses no Haiti

gustavochacra

27 de janeiro de 2010 | 14h25

Neste dias em que estive no Haiti e, depois, ao continuar escrevendo sobre o assunto, notei uma necessidade de muitos leitores de discutir a questão da ajuda israelense aos haitianos. Não consegui entender e sequer ver relação disso com o conflito no Oriente Médio. Muitos países do mundo ajudaram. Com Israel, não foi diferente. Apesar de o país ter uma imagem ligada ao militarismo, os israelenses são uma das nacionalidades mais avançadas em medicina, resgate, tecnologia. Graças ao desenvolvimento militar, conseguiram enviar um hospital de campanha espetacular para ajudar os haitianos. A Espanha e o Brasil também enviaram. O nosso foi barrado no aeroporto de Porto Príncipe pelas tropas americanas e demorou 24 horas para conseguir pousar. O argumento americano foi de elevado tráfego aéreo, mas aeronaves carregando jornalistas conseguiram pousar, e a brasileira não.

Ao mesmo tempo, alguns criticaram a falta de apoio dos árabes, como se o episódio fosse uma competição, e não uma tragédia que matou em 30 segundos mais pessoas do que todas as guerras somadas até hoje envolvendo Israel e seus vizinhos árabes – na região, só os dez anos de combates entre iranianos e iraquianos mataram mais.

Honestamente, no Haiti, das últimas coisas que eu pensava era nesta competição. Como afirmei aqui, não pesquisei sobre a ajuda dos árabes. Vi dois cargueiros do Qatar pousando no aeroporto e sei que o contingente da Jordânia na MINUSTAH é um dos maiores. Oficialmente, soube que a Arábia Saudita doou US$ 50 milhões em ajuda humanitária por meio de um fundo da ONU. Obviamente, libaneses, palestinos e iraquianos, dependentes de ajuda externa, não possuem a menor condição de contribuir com ajuda ao Haiti.

Independentemente de qualquer coisa, a ajuda israelense é positiva porque mostra um lado de Israel muitas vezes fora da mídia. Mas que, no fundo, tem admiração até mesmo dos árabes. Ao contrário do que imaginam ou dizem muitas pessoas, palestinos, sírios e libaneses não acham que Israel seja apenas uma máquina de guerra. Os palestinos admiram o sistema jurídico israelense, suas universidades, seus hospitais. Os libaneses também acham marcante o nacionalismo israelense e sempre se sentiram à vontade com a comunidade judaica na diáspora.

O mesmo vale inversamente. Os israelenses não acham que os palestinos sejam apenas sinônimo de terrorismo. Outro dia, li que parte da identidade nacional israelense está no hommus. Mas que qualquer cidadão de Israel sabe que os melhores hommus são feitos pelos palestinos – isso, claro, porque a fronteira com o Líbano ainda está fechada.

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