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A “Revolução Esquecida” em Bahrain, onde a Primavera Árabe é contra os EUA

gustavochacra

24 de novembro de 2011 | 05h19

no twitter @gugachacra

O regime de Bahrain usou força “excessiva e desnecessária” para combater os protestos da oposição, de acordo com uma comissão independente para investigar as violações aos direitos humanos cometidas pela monarquia Al Khalifa no país golfo Pérsico.

Segundo a investigação de 500 páginas comandada pelo jurista egípcio-americano Mahmoud Cherif Bassiouni, ao contrário do que afirma o regime de Bahrain e seus aliados, incluindo os Estados Unidos e a Arábia Saudita, “não há evidências de que o Irã tenha incitado os opositores” a se levantarem contra a monarquia.

O relatório, que foi encomendado pela própria monarquia Al Khalifa, acusa o regime de ter matado 35 manifestantes. Dentro do palácio real, Bassiouni afirmou ainda que a monarquia ordenou “ataques no meio da noite para criar medo”. De acordo com o jurista, “houve muitos casos de tortura deliberada, incluindo choque elétricos”.

A investigação também deixou claro ter havido “destruição de mesquitas xiitas em operações que pareciam ser punições coletivas”. Os xiitas, que lideram a oposição, são maioria no país governado pela minoria sunita em um regime descrito por algumas entidades de direitos humanos como de “apartheid”. Mesmo antes dos levantes deste ano, eles organizaram manifestações em anos anteriores contra a opressão da monarquia.

Apesar das fortes condenações, o rei Hamad Bin Al Khalifa elogiou o relatório e afirmou que a repressão terminou depois do dia 1 de junho. O governante desta pequena ilha do Golfo de 1,2 milhão de habitantes a poucos quilômetros de distância da Arábia Saudita admitiu que “cinco mortes ocorreram por torturas” e acrescentou ainda que investigará as acusações. Mas negou “haver uma política do governo de tortura e uso da força”. O monarca também discordou do jurista sobre o envolvimento iraniano, voltando a acusar o regime de Teerã de sabotagem.

Ao longo da repressão, centenas de pessoas foram presas e torturadas pelo regime, incluindo médicos que trataram dos feridos, segundo organizações de direitos humanos. No auge da repressão, forças de segurança da Arábia Saudita entraram em Bahrain para ajudar a monarquia Al Khalifa a combater os opositores no que ficou conhecida como “Revolução Esquecida”, pelo pouco destaque na imprensa e a falta de condenação na comunidade internacional, especialmente dos EUA, que mantêm no país a sua Quinta Frota.

Em e-mail para mim, Maryam Al-Khawaja, do Bahrain Center for the Human Rights, que desde o início dos levantes tem denunciado a violenta repressão da monarquia Al Khalifa, lamentou que o relatório de “Bassiouni não tenha tocado em muitos pontos”. No dia anterior, sua organização publicou um relatório paralelo com mais uma série de evidências do governo nos massacres contra os opositores e

Horas antes da divulgação do relatório, as forças de regime reprimiram com violência manifestantes durante o velório de um adolescente morto por militares no fim de semana.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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